Divórcios na quarentena
foto: Alvaro Tallarico

Você já passou pelo término de uma relação? É, eu também. Em que curva o amor acaba e desce o barranco capotando? Talvez no passar do cotidiano ou nas ironias ferinas. Em certos lados a intimidade amplia o amor ou transforma em algo novo e diferente. Na outra calçada, os pequenos problemas vão se acumulando – até que transbordam. Paixão é doença ou benção? A ciência diz que tem data para acabar, um par de anos. Na velocidade de hoje em dia alguns já dizem dois meses. O que sei é que começa de repente. E acaba lentamente?

Hoje quem me chega é o fim. Exasperado na palavra de amor que virou xingamento. Quando os erros valem mais que todos os acertos.

Passei por isso um dia desses, ou estou passando, sei lá. É um trabalho de desapego, um reaprender a andar consigo mesmo. Caminhar sozinho na multidão de mãos dadas com a solidão. Que não nos debulhemos em lágrimas, mas que elas escorram se assim tiver que ser; é melhor deixar fluir, do que conter. Cortar uma cebola talvez ajude.

Descobri que durante a quarentena, o Colégio Notarial do Brasil, o qual reúne os cartórios de notas do país, registrou um aumento de 10,6% na quantidade de divórcios consensuais na comparação entre fevereiro e maio. Nos sites de busca, a procura por um certo termo quadruplicou nos últimos 90 dias: “divórcio online gratuito”.

Só sei que quando acordei, após uma discussão fatídica e decisiva, o dia estava chuvoso, fechado. Parecia combinar com meu estado mental. Fui dormir tarde e acordei cedo para uma reunião. Participei quase como um enfeite. Nem os dois cafés conseguiram me reanimar. Mantive a cabeça balançando como aqueles cachorrinhos vendidos pelas ruas, o corpo fixo e a cabeça se mexendo quando solicitado. Almocei, a tarde veio surgindo e sentei para escrever essa crônica. O dia clareou. Não completamente. As nuvens ainda estavam lá, todavia, já dava para ver uns pontos de céu azul. É o clima do fim?

Porém, em todo fim jaz um (re)começo. A claraboia ilumina a mesa onde escrevo e jorro a melancolia da nostalgia de uma boca que não beijarei mais. Buscarei na cama um corpo que virou lembrança. No vazio, escuto o zunir da mosca e o barulho dos carros entra misturado ao som dos pássaros. Não convidei nada disso. Assim a vida é, se fechar uma porta, ela entra pela janela.

Fica a gratidão, jamais o rancor. Um sol se põe, mas a manhã do amanhã trará um novo início. Que bom.

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