“A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana”, escreveu Nelson Rodrigues. 

O Campeonato Estadual da Terceira Divisão do Rio de Janeiro, hoje cognominado Série B2, é um verdadeiro celeiro de craques do futebol brasileiro e internacional. O artilheiro do recente Campeonato Estadual, João Carlos, do Volta Redonda, despontou no Arraial do Cabo, agremiação criada e presidida pelo saudoso ex-árbitro e dirigente Walquir Pimentel. O habilidoso atacante Pedro, do Flamengo, foi revelado pelo Duquecaxiense, antes de se transferir para o Fluminense. Uma outra histórica revelação é a do meia Válber, surgido no Tomazinho, o qual posteriormente se consagraria por clubes como São Cristóvão, São Paulo, Vasco, Fluminense, Seleção Brasileira e outros. O modesto Barcelona, de Jacarepaguá, pode não ter um histórico de títulos em seu pavilhão, mas revelou o zagueiro Thiago Silva, o qual chegou ao Fluminense e Seleção Brasileira. 

A vida, contudo, nem sempre é gratificante para quem atua no submundo do futebol fluminense. Os atletas costumeiramente não recebem salários, mas se dispõem a jogar na tentativa de serem notados para que consigam galgar o que pouquíssimos alcançaram: o sucesso em suas carreiras. A tarefa é árdua, pois além da incipiente cobertura da imprensa, falta apoio por parte da Federação de Futebol do Rio. A ausência de médicos e ambulâncias nas partidas, fato que inviabiliza totalmente a realização das mesmas, a ausência de sinal de internet, água, portas e lavatórios nos banheiros e até marcações no campo feitas com farinha de trigo já são cenas conhecidas no conturbado cenário da terceirona fluminense.

Não obstante, Da lama à grama, do estreante Kléber Monteiro, retrata a atmosfera inusitada e ao mesmo tempo lúdica desse universo bizarro e apaixonante cujos protagonistas são heróis invisíveis. O autor percorre diversos estádios em várias cidades, algumas bem longínquas, como Cardoso Moreira, no norte fluminense, na tentativa de dissecar todas as nuances do meio. Não faltam cenas cômicas e bizarras para que o sarcasmo e o bom-humor destilem e prevaleçam em uma crônica permeada de impressões e reflexões, às quais não se restringem apenas à realidade futebolística, mas se estendem à própria vida. Cada capítulo percorre um jogo por rodada da competição, retratando dramas, conquistas, tristezas e alegrias. A obra nos ensina que esses certames merecem ser vistos além da superfície com a qual a maioria está habituada. Até a capa é bastante emblemática. Porém, uma coisa é certa. O cenário é tão complexo que nem tudo, em se tratando de uma terceira divisão, pode ser contado. 

Não faltam referências às históricas agremiações, algumas centenárias como Mesquita, Queimados e Mageense, e outras insólitas como Barcelona e Juventus, que tentam sem sucesso capitalizar o êxito de suas inspirações européias. O autor ainda discorre acerca das dificuldades em obter informações sobre estádios e clubes, observando que a falta de interesse e apoio acerca das competições menores é predominante ainda que estejamos em um país que respira futebol. 

Todavia, fica claro que mesmo nesse meio de grandes dificuldades há uma riqueza histórica e humana que são incomensuráveis. A falta de incentivo, visibilidade e patrocínios não impede a bola de rolar. Da lama à grama é uma ode ao futebol-raiz e leitura obrigatória àqueles que realmente apreciam o velho e verdadeiro esporte bretão. 

Como já dizia o sociólogo inglês David Goldblatt: “nenhuma história do mundo moderno é completa sem levar em conta o futebol.”

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