Dani Monteiro: Onde estão os absorventes higiênicos que deveriam estar nas escolas públicas?

'Ainda estamos em compasso de espera sobre como e quando o governador pretende adotar tais garantias como norma'

Menstruei! A novidade, que pode ser uma celebração para a maioria das meninas, pode se transformar em transtorno, tristeza e embaraço para outras tantas, que não são poucas, para vergonha do país, isso sim. Comemorar esse marco na vida de uma menina é um privilégio. Falo por experiência própria. Menstruei por volta dos 12 anos de idade, vivia numa favela, a precariedade me assombrava, absorvente era artigo de luxo. Não tinha em casa, na escola, tampouco. É sobre a falta, pois, que quero falar aqui. Passadas quase duas décadas desde a minha menarca, o contingente de pessoas que menstruam em desamparo e sem acesso a um item de higiene tão básico, é assustadoramente alto. Na pobreza e por não terem um tampão que as acolha, deixam de ir à escola, ficam ainda mais reclusas em presídios ou nos centros que se dizem socioeducativos, nos abrigos onde vão parar por falta de teto, na rua. Quero falar sobre vulnerabilidade e o esquecido direito à dignidade em nosso país.

Após dois anos de tramitação, o estado do Rio conseguiu garantir a aprovação da Lei 9.404, de setembro de 2021, que prevê a disponibilização gratuita de absorventes higiênicos nas escolas públicas. Uma lei autorizativa, que reconhece o item como de necessidade básica para a saúde feminina. Leis como esta buscam, sobretudo, diminuir a desigualdade de gênero e garantir dignidade para meninas, adolescentes e jovens mulheres estudantes da rede pública de ensino. Assegurar ainda as provisões de papel higiênico e outros itens necessários à saúde dos alunos e alunas da rede pública de ensino é uma questão de justiça social e equidade. Ainda estamos em compasso de espera sobre como e quando o governador pretende adotar tais garantias como norma.

Menstruar em condição de vulnerabilidade não é um problema restrito ao Rio de Janeiro, pois se prolonga país adentro. A insensibilidade do executivo tampouco está restrita ao território fluminense. Não podemos esquecer que Bolsonaro disse, no início do mês, um enfático e debochado não ao projeto aprovado pela Câmara dos Deputados, que igualmente prevê a distribuição de absorventes e outros itens de higiene a estudantes de baixa renda em escolas públicas. O presidente não menstrua, mas o cargo o obriga a saber bem o tamanho da responsabilidade que deveria assumir. Truculência, insensibilidade, machismo, falta de empatia. A lista dos maus afetos que o nutrem não é ímpar porque é interminável. Além de tirano, o gesto é cruel pelo desprezo às mulheres pobres e negras, em particular.

De acordo com o relatório divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em parceria com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), o Brasil exibe índices que deveriam fazer o país inteiro corar de vergonha: 900 mil meninas não têm acesso à água canalizada em seus domicílios; 6,5 milhões vivem em casas sem ligação à rede de esgoto; 713 mil meninas brasileiras vivem em residências que não possuem banheiro ou chuveiro; e mais de 4 milhões não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas.

A falta de absorventes, para qualquer entendedor minimamente empático, compromete a vida em todos os aspectos e impacta fortemente a qualidade de vida, a dignidade e a autoestima de mulheres e meninas pobres. Segundo a Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (PENSE), realizada pelo IBGE em 2015, aproximadamente 231 mil meninas frequentam escolas que não têm banheiro em condições de uso. Elas vivem com a falta sistemática de higiene adequada durante o período da menstruação, ou seja, sem acesso adequado a banheiro, chuveiro, água tratada, absorventes, e até mesmo sem conhecimento sobre menstruação. Não raro, são alvo de chacota. Se a saúde física não resiste, que dirá a mental.

Como dizia a minha mãe – subvertendo o ditado popular -, “depois da queda, corra, minha filha, porque vem o coice”. Por necessidade, aprendi a me defender, mesmo sem compreender, mesmo agora, por que mesmo tantas de nós ainda são expostas a vexames, agressões e indignidades. Se você tem empatia, sigamos juntos na luta por esse direito do qual o presidente tripudia. Sigamos. Se você não sabe sobre o que estou falando, olhe em volta, pelo menos a sua empregada doméstica terá uma resposta esclarecedora sobre o assunto.

Este é um artigo de Opinião e não reflete, necessariamente, a opinião do DIÁRIO DO RIO.

3 COMENTÁRIOS

  1. Uma lei aprovada em setembro e já tem Parlamentar achando que no mês seguinte já deve ser aplicada…
    Realmente é muito sem noção!!!
    E a separação de poderes?
    Nenhuma lei que aprovada criando uma obrigação e custo para o ente público é logo colocada na prática sem regulamentação, estudo, planejamento e execução.
    Imagina a compra de itens sem licitação (?) Compra por dispensa (?) Ahh esquerda irracional…
    Essa deputada tinha que ser mais consciente.

  2. Será que noutros países do mundo mesmo com desigualdades, resultado, muitas vezes da imigração recebida de outros países, há tanto assistencialismo, como no Brasil(??)
    Aqui se tem meia entrada para tudo ou gratuidade. Mesmo idoso ou jovem estudante com grana… Um argentino conhecido falou. “Caramba! Vocês parecem ter dinheiro de sobra para tantos assim. Até idosos de razoável padrão de vida tem”
    Eu falei. Pois é. Aqui os socialistas são radicais e da direita também.
    Quando se tem reforma da previdência do funcionalismo, oportunidade de aparar algumas arestas, logo a esquerda trata de se opor a qualquer mudança e não apresenta nenhuma alternativa. Quando passa a reforma acaba atingindo a todos com mais violência contra servidores, ativos, inativos e pensionistas igualzinho. Defendem direito adquirido a todo custo.
    Queria entender como aqui ainda se mantém pensão por morte vitalícia e integral se nenhum país desenvolvido isso é pago, quando pago é uma fração e, na maioria, por um tempo, especialmente se o cônjuge sobrevivente, pela idade, esteja em plena condições de estar no mercado de trabalho. Logo, um benéfico para ajudar a pessoa passar por um momento e se preparar para assumir a sua vida.
    Aqui no entanto, temos pensionistas algumas jovens e outras pouco tempo de relação que quando o companheiro/cônjuge falece, o Estado assistencialista paga pensão mensal vitalícia… Ninguém nem tem ideia, já que direito adquirido, de colocar contribuição diferenciada e bem mais alta sobre pensionistas já que nada fizeram do esforço próprio para ter um benefício que é verdadeiro prêmio por morte.
    Mas o servidor público ativo ou inativo que trabalhou durante toda sua vida e se aposenta acaba penalizado com reforma previdenciária que institui contribuição cada vez maiores…

  3. Tinham qie disponibilizar absorvente reutilizáveis, isso sim!!! Nada de descartável para poluir o meio ambiente.
    Fora ainda que este último nem sempre fazem o descarte correto, causando transtornos devido ao fato de muitas lançarem no vaso e darem descarga. Isso aconteceu em diversos locais onde trabalhei. E a manutenção era frequentemente demandada, às vezes precisando desparafusar e retirar a caixa do equipamento sanitário. Imagina isso acontecer numa escola, quanto tempo ficaria interditado o sanitário (???)

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