DE ATENTADOS, COMANDOS, PCC E MIL͍CIAS

DE ATENTADOS, COMANDOS, PCC E MIL͍CIAS (Ex-Blog do Cesar Maia)
29.12, 13h53
Ex-Blog do Cesar Maia


1. Nos últimos anos tivemos quatro ações coordenadas com as características das ocorridas na madrugada/dia de quinta-feira (28/12) no Rio. Uma seqüencial em São Paulo em 2006, outra no Rio, em 2002, outra em Vitória, em 2004, e agora esta no Rio. À medida que as ações – uma a uma – são listadas, e se as tabula, por semelhança, se passa a conhecer o foco das mesmas. Em São Paulo, os alvos foram diferenciados, de policiais e delegacias, a agências bancárias, postos bancários, ônibus, supermercados…

No Rio – 2002 – e em Vitória, esta diversidade se repetiu com o agravante das ordens para fechamento do comércio em vários bairros. Todas estas tinham como ponto remoto de ativação os conflitos nos presídios e a tentativa de tirar dos comandos de traficantes – tenham o nome que tiverem – o controle destes mesmos presídios.

2. As ações de quinta-feira (28/12) foram de natureza diferente das anteriores. Tiveram um foco claro e definido: policiais, postos policiais, delegacias, quartéis. Uma ocorrência trágica, pela madrugada com um ônibus interestadual só se explica pelo fato dos bandidos estarem drogados. Outras ações durante o dia no Rio, foram claramente produto de iniciativas desconectadas com a origem dos fatos, e estimuladas pelo conhecimento daquelas.

3. É do conhecimento geral que grupos para-militares têm ocupado comunidades onde antes imperava o tráfico de drogas. Seu motor de auto-estima e motivação é expulsar radicalmente o tráfico e o consumo de drogas nestas comunidades.

Os para-militares se confundem com a associação de moradores local, e cobram pequeno pedágio pela segurança. Não há necessidade de dizer que sua permanência passa a ser desejada pelas comunidades.

Nos anos 80 os traficantes eram nascidos e criados nas próprias comunidades. A partir dos anos 90 com a exacerbação da disputa a bala dos pontos de venda de drogas, os chefes do tráfico nas comunidades passam a nada ter a ver com as pessoas que vivem ali e são percebidos como terroristas de comportamento aleatório que matam por qualquer suspeita e levam para si a mulher que desejam.

4. Os para-militares são percebidos como grupos de autodefesa pelos moradores. E para que haja interesse deles, na permanência, vão além dos pequenos pedágios e passam a cobrar outros tipos de pedágio do comércio, passam a controlar vans e Kombis, cobrar uma taxa pelo gás, pela TV a cabo, etc. Estima-se que, com isso, elevem seus ganhos em mais ou menos dez vezes em relação a seus salários.

A facilidade com que as milícias deslocam os traficantes demonstra que não é por nenhuma razão sofisticada (inteligência policial, investigação…), que os traficantes não são reprimidos. A razão é uma só: renda. Ou motivação profissional.

5. A expansão das milícias já havia produzido um aumento do crime de rua, pelo terceiro escalão do tráfico de drogas, que é mais localizado onde mora. Em seguida começaram os atentados pontuais, sempre a alvos policiais como conjunto habitacional da Polícia Militar, postos, policiais isolados, etc. Era mais do que esperado que estas ações crescessem e culminassem com uma grande ação coordenada.

Nesse sentido, os fatos anteriores em São Paulo, Rio e Vitória, são esclarecedores: as ações pontuais vão produzindo uma coordenação natural. Em São Paulo mais facilmente, pois o PCC passou a ter o monopólio dos comandos. E, se a polícia não reprime imediatamente aos primeiros sinais, o estímulo cresce para ampliar os atentados.

6. Neste momento as milícias avançam sobre favelas como Dendê, Mangueira, Cidade de Deus, Morro dos Cabritos, S. Bento, (Pe. Miguel). Os batalhões da Polícia Militar próximos dão, naturalmente, cobertura a esta dinâmica.

7. A diferença do Rio (2002), São Paulo e Vitória é que o alvo de fato, agora, no Rio não é diversificado e não aponta para a população, até porque esta não tem nada a fazer ou exigir, como no caso dos presídios, pois a resposta pode ser dada pela autoridade. Os atentados no Rio, agora, apontam para a polícia, seus equipamentos e veículos. A resposta inevitável será a polícia recobrar a iniciativa do que já começou a ocorrer, o que deve produzir confrontos localizados.

8. O que cabe é o novo governo ter sangue frio. Entender o que está ocorrendo. E dar respostas práticas a curto prazo direcionadas a ampliar a percepção de proteção por parte da população. Isso só se consegue aumentando muito o policiamento ostensivo. E, imediatamente, de forma a dar fôlego à
polícia para se antecipar e reprimir os focos de novos atentados. Isso se faz aumentando a jornada e substituindo o – bico fora – pela jornada maior, dentro.

Na quinta-feira, a polícia ocupou alguns morros controlados pelo tráfico de drogas. Provavelmente teve informações de que estes pontos estão por trás dos atentados. O novo governador afirma que vai introduzir a jornada integral, multiplicando o policiamento ostensivo, e vai intervir de forma ampla, mas progressivamente, bairro a bairro. Bons sinais!