Desdobrando Fibra por Fibra

Gaston Bachelard, em uma de suas incríveis intuições filosóficas, disse, em seu livro A Poética do espaço, que “a casa é o nosso canto do mundo”, “nosso primeiro universo, “um verdadeiro cosmos”. Sendo mundo originário, habitamos nesse espaço, desde a raiz, como uma espécie de berço redimensionado, acolhedor e seguro, para o qual sempre retornamos, após o contato com as relações que ficam do lado de fora da casa. Daí existe a casa e a não-casa, o mundo interno e o mundo externo, a psique e a sociedade, o “eu” e o “outro”.

A casa é a alma dos nossos amores e nossas mágoas. Mas qual é a alma da casa? Lendo Bachelard, compreendi que faltava entender este ponto: a alma da casa, o motor que viceja nesse espaço original, do qual nunca nos desapegamos. Apostei na resposta e conferi à Mãe o estatuto anímico da casa. Há algo inconsciente que paira em cada parte do espaço afetivo da casa e esse algo é a maternidade. O que move a casa é a mãe; ela é o espírito que abriga tudo, que recebe, zela e conforta. A mãe é a sala que convida e despede, é a cozinha que alimenta,  o quarto que conforta, o banheiro que purifica, o telhado que protege, o porão que esconde.

Mães, onde quer que estejam, são valores que ressoam de dentro da casa para fora da casa. Em todos os tempos que fluímos e espaços que penetramos carregamos essa alma junto conosco; ela nos coabita. Mães não morrem, portanto; estão no interior de nossas almas feito casas moventes que levamos ao nosso lado, feito residências portáteis. A mãe é a imagem mais arquetípica para qual nossa psicologia recorre; ela é o mito ancestral; enquanto existimos somos essa casa, respiramos cada canto desse ambiente seminal, desse cosmos particular.

Na Arte a mãe está presente como a casa poética de muitos filhos. Como a Arte não é um discurso conceitual de verdades e sim um passaporte imaginário para fontes imemorais, para passados que trancafiamos em baús de nossa história, então a imagem da mãe pode ser traduzida.  Na teledramaturgia brasileira, encontramos imagens significativas de casa-mãe em que habita uma série de personagens, onde cada um reluz o brilho da alma desse mito.

A topoanálise, que Bachelard patenteia na sua obra, desenhando os tipos de imagem poética que produzimos no contato com essa estrutura ancestral da casa, transferi para algo mais corriqueiro: as telenovelas; que, pelo seu grau de popularidade e pela aproximação direta nas relações interpessoais que ocorrem no contexto dramático da existência, são o filtro perfeito para compreendermos que existe também uma psicanálise da alma da casa, ou seja, uma leitura do fenômeno materno no interior de um conflito entre a casa e a não-casa.

A telenovela Vale Tudo de Gilberto Braga foi eleita por mim a melhor entre todas já escritas e produzidas na história da dramaturgia. Meu critério de escolha se reduz tanto ao talento de Gilberto para escrever diálogos poderosos e conflitos bem alinhavados quanto à personificação dos mitos ancestrais que nos acompanham e que ele executa muito bem. A Mãe, sendo o mito mais elementar, está presente nessa telenovela de forma excepcional, pois vimos a alma da casa sendo representada e vivida tanto na potência quanto na impotência.

A primeira mãe a ser analisada é a personagem Raquel (Regina Duarte). Raquel é a potente alma de uma casa despedaçada pela ausência do pai/marido Rubens (Daniel Filho). A primeira cena da telenovela é a crise máxima desse casamento. O pai parte deixando mãe e filha. Sozinhas, mas não desamparadas. Raquel, sendo a casa, abriga sua filha Fátima até onde não pode mais. Fátima (Glória Pires) ambiciona uma vida de ostentação diferente daquela modesta que sua mãe lhe oferecia; ela atravessou a porta da sala, indo em direção ao sonho de ser famosa e rica no Rio, mas não se livrou do rastro de sua mãe pobre e batalhadora.

Fátima supõe ser livre para agir inescrupulosamente. Mas a sombra da mãe está presente, rondando a filha ao longo de toda novela, como o porão no qual  tentamos esconder e entulhar monstros e conflitos insolúveis. Fátima, mesmo vivendo na mansão da família Roittman, arrasta a corrente da ancestralidade de sua vida obscura. Raquel está com ela, mesmo que não queira. Raquel, por sua vez, é a imagem poética de uma casa popular, bairrista, que nunca fecha as portas e janelas da sala: que espairece e deixa entrar quem ama. Por isso, recebe a filha que a rejeitou e, posteriormente, recebe o neto também rejeitado.

Fátima engravida de um filho indesejado e se torna mãe de uma criança por quem não sente afeto. Ela é a mãe cuja alma ronda a porta dos fundos da casa: entra e sai de soslaio como mãe que não quis ser. Fátima é a alma da casa no que diz respeito à maternidade maculada, que não pode dividir os espaços privilegiados da casa por não ser permitida.

Na família Roittman, temos três casos de maternidade. A matriarca Odete (Beatriz Segall) é a alma soberana de uma casa-palácio que guarda a função de rainha; e, por isso, trata seus filhos como quem trata suas propriedades: com protecionismo, soberba e autoritarismo. Mãe da neurótica Helena (Renata Sorrah) e do oprimido Afonso (Cássio Gabus), Odete esbanja uma alma narcísica; ela é a grande piscina cristalina da casa, na qual só enxerga a si mesma; no que resulta no afogamento psíquico de seus filhos, a quem só sabe tiranizar e culpabilizar.

Sendo mãe de Tiago (Fabio Villaverde), Helena é a alma da casa, na função quarto do adolescente, onde o proibido tem guarida; assim, protege o filho da truculência do pai Marco Aurélio (Reginaldo Farias), como também liquida uma garrafa de whisky. Domina nessa palácio a imagem do porão, onde a escuridão esconde verdades terríveis sobre a família: o alcoolismo de Helena, a morte criminosa do irmão cometida por Odete, o adultério de Fátima. Enquanto a fachada da casa transmite riqueza, a alma materna está mergulhada em podridão que somente com outro crime será purificada. A morte de Odete é o desfecho desse mal.

Por fim, Celina (Nathalia Thimberg) é a imagem poética da cozinha que alimenta a alma de Helena e Afonso, uma vez que a mãe Odete só sabe oprimir. Somente mediante alguma (re)nutrição é possível fortalecer as relações intersubjetivas. Celina é a “mãe” que ama filhos que não foram paridos por ela; é a tia que, afável, substitui o amor de Odete, quando este deplorou em orgulho; está perto de seus sobrinhos suportando a ausência da mãe, como se fosse a bucólica casa de campo em que nos refugiamos. Em todo caso, as imagens de mãe bordam e costuram a alma de seus filhos ou mesmo são bordadas e costuradas por eles, desdobrando fibra por fibra seus corações, como na canção de Torquato Neto.

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