Convém dispor de um esforço homérico para se tornar imortal. Para além das fantásticas narrativas românticas dos vampiros existe imortalidade. De modo que é possível, sim, continuar vivendo mesmo depois de morto, ainda que não seja um personagem clássico de ficção. Dentro de um universo real, que é propriamente o nosso, isto é, o universo humano, podemos construir, por nós e para nós mesmos, um modo de eterna juventude.

Se existe uma categoria muitíssimo interessada nesse propósito árduo, desejando-se manter viva por longos anos, essa categoria é a dos artistas. A bem dizer, a saúde de todo artista é poder estar de pé para poder assistir a sua obra nascer e prosperar. E é basicamente isto o que está em jogo no ato de criação: a vontade de ser jovem ou de dar juventude a tudo o que se cria.

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, cuja graça nos é mais famosa como Di Cavalcanti, desejou, como um bom artista, se tornar imortal através de sua obra. O pintor, muralista, desenhista, ilustrador, caricaturista carioca nasceu em 6 de setembro de 1897 e faleceu aos 79 anos, em 1976. Mas sua obra está até hoje entre nós como um verdadeiro símbolo de vigor e de beleza.  Certa vez admitiu: “moço continuarei até a morte porque, além dos bens que obtenho com minha imaginação, nada mais ambiciono”. 

O que torna, enfim, um artista imortal não provém de nenhuma força sobrenatural ou mística; em nada tem a ver com alguma hipotética graça divina o fato de continuar vivo depois de morto ou mesmo jovem apesar dos dissabores da velhice. Não é nada de anormal ser jovem aos 70 anos; o que alimenta essa fonte de jovialidade é a imaginação. No século 19, os artistas românticos já exaltavam a imaginação como a mais alta potência intelectual, como a habilidade mais divina do homem. Dizia o filósofo alemão Schelegel que a imaginação é o “órgão” que nos coloca emsintonia com Deus e que serve de ponte entre o finito e o infinito.

Di Cavalcanti entendeu que esse órgão seria o responsável por alimentar sua alma com a vitalidade necessária, com uma energia inquieta para existir. A imaginação é faminta; tem fome de infinito, de vida, de espírito, de “além”. Nosso pintor carioca transportou esse anseio para dentro de sua pintura e, através dela, recobriu-se de forças da forma mais pura: criando, inventando universos, plasmando formas e orquestrando cores.

O ilustre pintor é a máscara tropical do Modernismo na América. Com sua arte, chegamos ao patamar de um Brasil que vai se desquitando aos poucos de seu colonialismo estético, de sua dependência dos cânones culturais da Europa. Decerto Di Cavalcanti é o nosso cubista e expressionista mais relevante; ele proseia com o estilo de Picasso, de Braque, de Léger e de Kirchner. Na aparência, Di Cavalcanti tem o aspecto de um mero artista que soube executar bem a antropofagia cultural daquela época frenética. Mas só na aparência.

Não bastou a ousadia de querer traduzir o Brasil popular em arte plástica. Penso que sua pintura ultrapassa isso no que diz respeito ao seu conteúdo. Quando vimos mulheres negras espalhadas em suas obras insinuando seus corpos; quando vimos a favela reluzir numa paleta policromática ou vimos negros musculosos, sambistas, boêmios e a gente pobre do Brasil sendo representados com toda a proeza do estilo geométrico do Cubismo ou do traço caricato e deformado do Expressionismo, não vimos apenas esses modismos de época.

O Brasil que Di Cavalcanti expressa em sua arte subsiste muito maior do que os maneirismos da vanguarda artística da primeira metade do século 20. O que se depreende em sua obra é a ressonância da força imaginativa, dessa capacidade conceptiva de nossa inteligência. Pelo olhar de Di Cavalcanti não vimos apenas formas simples e às vezes brutalizadas da figura humana; muito menos vimos um suposto “mau” desenhista que “não sabe” representar um corpo nas devidas proporções e com o mesmo apuro técnico de um renascentista: vimos algo para além do excelente ou estranho manuseio do pincel.

O que há na arte de Di Cavalcanti é meramente uma fome de infinito, ou seja, uma vontade genuína de transformar tanto a si mesmo quanto o mundo em que vive em um objeto transcendente. Em Di Cavalcanti, o carioca, o Rio e o Brasil vão “além”: transcendem. Não considero Di um virtuoso da arte que deseja exibir seu talento. De modo mais humilde, como se vê em Matisse, a vontade do artista é elevar o habitual, o simples, o popular à categoria de infinito. O que significa ampliar seu foco de atenção, sua matéria de criação e transformar tudo o que vê em algo que extrapole o campo do possível, do demarcável por uma moldura.

Não é à toa que o espaço de seus quadros está sempre abarrotado de coisas, de gente, de cores e de linhas que se comunicam e se interceptam. Di Cavalcanti quer comprimir o mundo inteiro da brasilidade carioca dentro do campo puro e fabricado da Arte e, assim, elevar as coisas particulares do povo, a alegria do carnaval, o suor do trabalhador, a cintura delgada da negra, as luzes da favela a um patamar de universo. Respira-se na obra de Di uma juventude sem fim, onde o que reina é o divino poder de manter infinito o que é finito; de assegurar, todavia, que os símbolos de nossa brasilidade estejam sempre vivos e poderosos.

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