Dois jornalistas recebem o Prêmio Nobel da Paz. O que isso significa?

Desde 1935 um jornalista não ganhava um Prêmio Nobel da Paz, Javier Garza Ramos fala do significado de que em 2021 o prêmio tenha sido dado a 2 jornalistas

Por Javier Garza Ramos

   Em 1935, jornalistas redigiam em máquinas de escrever e suas notícias eram impressas com placas de chumbo. Notícia de última hora significava um jornal vespertino, mas muitos jornalistas estavam aprendendo a lidar com uma incrível nova plataforma chamada “rádio”.

     1935 também foi a última vez que um jornalista ganhou o Prêmio Nobel da Paz.

Embora um jornalista hoje não reconheça a paisagem tecnológica da época, a maioria certamente achará a cena política muito familiar aos anos 30. Regimes autoritários em ascensão reprimem o jornalismo independente, perseguindo, aprisionando ou assassinando aqueles que expõem corrupção, abuso de poder ou conduta criminosa ou garantindo impunidade a qualquer um que ataque um jornalista.

    Maria Ressa, das Filipinas, e Dmitry Muratov, da Rússia, trabalham como jornalistas nesse ambiente. Nesta semana, eles receberão o Prêmio Nobel da Paz por seu trabalho, que simboliza a atividade de centenas de jornalistas em grande perigo físico, riscos legais ou dificuldades econômicas. Como disse o Comitê do Nobel, recompensar esses jornalistas “visa a ressaltar a importância de se proteger e se defender” a liberdade de expressão e informação.

      Infelizmente, Maria e Dmitry são representantes de uma tendência mais ampla, que cresceu nos últimos anos: a perda do respeito pelo valor da liberdade de imprensa, mesmo em sociedades que antes a tinham como assegurada.

     Uma investigação sólida sobre a corrupção de um governo pode levar a perseguições. Revelar atividades ilegais de empresas privadas pode desencadear uma resposta de recursos ilimitados para difamar um jornalista. Expor uma rede criminosa pode custar a vida de um repórter ou editor, que é morto uma segunda vez quando as autoridades não prendem e punem os criminosos.

   O Prêmio Nobel da Paz de 1935, para o jornalista alemão Carl von Ossetzky, nos lembra que o jornalismo sempre enfrentou esse perigo, especialmente quando a verdade afeta os poderosos. Ossetzky foi preso pelo regime nazista por revelar detalhes sobre o rearmamento da Alemanha nos anos 20, violando compromissos internacionais. Ele também alertou para o crescente antissemitismo e militarismo. Os nazistas o prenderam e torturaram.

    Em 1935, o conceito de jornalismo independente mal se enraizava. Deixava para trás o modelo de ativismo político do século anterior, marchando em direção a uma função de vigilância que seria sua marca registrada nas décadas seguintes. Esse papel de vigilância sobrevive em nossos dias, apesar de hoje as redes sociais facilitarem a construção de “bolhas de informação”, onde cada pessoa pode acompanhar apenas as notícias com as quais concorda, descartando o resto como falso.

    As bolhas diminuem a confiança em dados científicos e na imprensa livre, enquanto políticos populistas exploram essas atitudes a seu favor. Mesmo assim, os jornalistas persistem, apesar do assédio, pressão e ataques.

  “Você nunca sabe realmente quem você é até ser forçada a lutar para se defender”, disse Maria Ressa em 2018, quando recebeu a Caneta de Ouro concedida anualmente pela Associação Mundial de Jornais àqueles que lutam pela liberdade de imprensa. Naquele ano, Maria já enfrentava uma ofensiva legal destinada a impedir que Rappler, o site de notícias que ela fundou em 2012, expusesse a corrupção e o abuso de poder do presidente Rodrigo Duterte nas Filipinas. Ela também enfrentou cyberbullying, o que a levou a ser uma das primeiras jornalistas a denunciar as mídias sociais por dar fórum a inimigos da imprensa livre.

     Dois anos antes, Dmitry Muratov recebeu o mesmo prêmio. Até então, seis jornalistas da Novaya Gazeta, o jornal que ele fundou em 1993, haviam sido mortos, incluindo Anna Politkovskaya, uma das mais duras críticas do presidente russo Vladimir Putin.

   Dmitry e Maria tiveram trajetórias improváveis. Maria deixou sua carreira na mídia global para lançar Rappler e cobrir as notícias em seu país. Dmitry começou como jornalista na era soviética e rapidamente aprendeu que, sem independência, o jornalismo é impotente.

     Hoje eles são a expressão contemporânea de uma linha de jornalistas que, como Carl von Ossetzky antes, estão comprometidos em expor os males sociais e políticos que são obstáculos à paz. Eles denunciaram racismo, ditaduras, repressão política, tráfico de drogas, grupos terroristas, abusos de direitos humanos, impunidade, crimes de guerra ou armas.

   Com Maria e Dmitry, muitos jornalistas e empresários da mídia continuam essa linhagem, de Mianmar à Nicarágua, da Etiópia à Turquia, do México ao Irã e da Arábia Saudita à China. Seus nomes não serão tão familiares quanto os próximos ganhadores do Nobel, mas sem destaque: Anye Chang Naing, Carlos Joaquín Chamorro, Dawit Kebede, Can Dündar, Marcela Turati, Mohammad Mossaed, Jamal Khashoggi, Jimmy Lai. A lista deixa de fora muitas pessoas, mas basta saber que a luta pela liberdade de expressão se estende a todos os cantos.

     Carl von Ossetzky recebeu seu Prêmio Nobel em 1936, um ano depois de ser premiado. Nesse mesmo ano, o Prêmio de Literatura foi para o dramaturgo americano Eugene O’Neill, que mais tarde escreveria: “Não há presente ou futuro, apenas o passado acontecendo de novo e de novo, agora.”

     Todos os dias, Maria Ressa, Dmitry Muratov e seus colegas de todo o mundo lutam para derrotar essa maldição.

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Javier Garza Ramos é jornalista radicado no México e membro do Fórum Mundial de Editores.

Este artigo foi encomendado pelo Fórum Mundial de Editores / WAN-IFRA, para comemorar a entrega do Prêmio Nobel da Paz a dois de seus laureados com a Caneta de Ouro da Liberdade.

Este é um artigo de Opinião e não reflete, necessariamente, a opinião do DIÁRIO DO RIO.

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