Dona Armanda, a Escola e o Mate com Angu

A história da Escola Proletária Meriti começa em 1921, com a chegada da professora Armanda Álvaro Alberto  a estação de trem Meriti, então 8° Distrito de Nova Iguaçu e mais tarde o município de Duque Caxias. Local pobre, rural e que estava sendo devastado pela malária. Armanda moradora de Copacabana, família rica, vinha da cidade de Angra dos Reis, onde já tinha implantado nas sombras de pés de bambu, sala de aula ao ar livre para cerca de 50 crianças e adolescentes, filhos de pescadores. Suas aulas eram baseadas na realidade das crianças. Tratava sobre a geografia do local, agricultura, arte, artesanato.

A Escola Proletária Meriti foi a primeira do Brasil e da América Latina que serviu a pioneira e conhecida: merenda escolar. No cardápio: angu e mate. Fubá e erva mate eram alimentos doados com frequência pelos comerciantes da região, então essa combinação sempre estava na alimentação dos alunos. A expressão “mate com angu” foi dada em tom pejorativo e de forma jocosa pelo delegado Filinto Muller. Era ele quem monitorava a professora no período da Ditadura Vargas. Perseguida, teve que  retirar a palavra “proletária” por acharem vinculada ao comunismo e o espaço passou a chamar-se: Escola Regional Meriti. Dona Armanda era acusada por exemplo de transformar a escola em um restaurante, mas argumentava: “dá para aprender com fome? E com fome, dá para viver?”

A escola foi a primeira do país a ter o método da pedagoga italiana Maria Montessori aplicado. O Método Montessori, transformou o espaço de aula em um ambiente de canto, teatro, arte e natureza, fora das amarras e educação mecânica comuns da época. No “Mate com Angu” as crianças não recebiam notas, não eram aprovados ou reprovados, tampouco se usava as carteiras, lousas. As aulas eram realizadas a céu aberto, onde as crianças aprendiam até o cultivo de hortas e como criar o bicho-da-seda e abelhas.

Foi também a primeira escola do país com horário integral, um museu com peças do Jardim Botânico e Museu Nacional, a caixa escolar que consistia em prestação de assistência em saúde aos alunos e suas famílias, cursos de corte e costura, puericultura, carpintaria, cozinha, higiene infantil e o inédito Círculo de Mães, onde a comunidade era convidada para debater o dia a dia da escola. Também foi no anexo da unidade que criou a primeira biblioteca pública de Duque de Caxias com um clube de leitura.

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Dona Armanda, escreve em seus princípios, como monstra documento de abril de 1925 que a escola deve ser um local de: saúde, alegria, trabalho e solidariedade. Em 1927, participa da I Conferência Nacional de Educação, em Curitiba. Nesse encontro, a Escola Regional de Meriti recebeu um especial voto de aplauso do conselho diretor da Associação Brasileira de Educação.

Em 1928, é realizada a sonhada inauguração da sede definitiva – carinhosamente chamada por Dona Armanda de “Nossa Casa” – com projeto assinado por Lúcio Costa. A repercussão do trabalho era tamanha que a escola foi homenageada no jornal “Correio da Manhã” por Carlos Drummond de Andrade e recebeu um piano doado por Villa-Lobos e um “kodascópio” por Roquete Pinto, onde passam a ser reproduzidos semanalmente filmes do Instituto Nacional do Cinema Educativo. 

Armanda também tinha militância pelos direitos das mulheres – foi uma das três mulheres que assinaram o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932, ao lado de Noemy M. da Silveira e Cecília Meirelles que defendia uma educação pública, gratuita, laica e direcionada às necessidades de todos. Ao lado de Edgar Sussekind (seu esposo) e Francisco Venâncio Filho fazia parte da Liga Anticlerical e defenderam no conselho diretor da Associação Brasileira de Educação, uma postura  apolítica e laica. Em maio de 1935, foi uma das criadoras ao lado de Eugênia Álvaro Moreyra e, depois, a primeira presidente da União Feminina do Brasil (UFB), movimento político filiado à Aliança Nacional Libertadora (ANL). Quando se casou com o professor Sussekind, recusou-se adotar o nome do marido, por defender a posição dos movimentos feministas.

Em outubro de 1936, foi presa como suspeita de ligação com o Partido Comunista do Brasil e de participação na Intentona Comunista de 1935. Permaneceu na Casa de Detenção do Rio de Janeiroaté junho de 1937, dividindo a famosa “cela 4” com Olga Benário Prestes e Maria Werneck de Castro, local onde também passou Nise da Silveira. Durante a prisão, Armanda escrevia aos alunos e recebia cartas e cadernos dos mesmos. Em seu depoimento, Armanda negou que a UFB tivesse mantido qualquer ligação com o então Partido Comunista do Brasil (PCB). Julgada, foi absolvida, afastando-se das atividades políticas para se dedicar exclusivamente à sua obra pedagógica.

Armanda morreu aos 81 anos em 1974 e a escola foi doada para o Instituto Central do Povo. Atualmente é mantida em parceria com a prefeitura de Duque de Caxias e tem o nome de Escola Municipal Drº Álvaro Alberto, a pedido de Armanda em homenagem ao pai. Hoje, graças a intensa mobilização da sociedade civil e organizada, o prédio da escola foi tombado como Patrimônio Histórico da cidade, após  ameaças de construção de um shopping ao redor. Intenção essa que ainda mantém vigilância em defesa do espaço que mantém a história e o legado de Dona Armanda vivos.

A historiografia de Armanda vem sendo merecidamente resgatada. Em 2010, sua ex-aluna e professora Dalva Lazaroni, lançou o livro “Mate com Angu – A História de Armanda Álvaro Alberto” e em 2017 foi lançado o documentário “Armanda” dirigido por Liliane Leroux e Rodrigo Dutra. Já a história do delegado que tentou diminuir a iniciativa de alimentar os alunos pobres, foi esquecida junto com sua mediocridade.

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