O Absurdo assola a humanidade com sua força estranha. Pelas ruas, largos e praças; no botequim, na casa da vizinha, na alcova dos amantes, nas universidades, no noticiário da tarde, na hora do almoço, nas repartições públicas, nos gabinetes de parlamentares e ministros – o incompreensível penetra todos os cantos sem ser convidado. Recentemente, certo ministro do atual governo brasileiro teve o despautério de batizar Franz Kafka, um gênio da literatura moderna, de Franz “Kafta”, confundindo vergonhosamente seu nome com uma preciosa iguaria dos países de língua árabe. Um ministro da educação inculto. Perdoável? Talvez. Incompreensível? Absurdo? Sim. 

Franz Kafka (1883-1924), foi o precursor, na literatura do século 20, de um pensamento sobre o problema do absurdo. Isolado em Praga, sua cidade natal, Kafka impulsionou a abordagem de um assunto inédito no campo da novela, do conto ou do romance. Pela linha expressionista de seu modo de escrever, ou seja, pelo modo carregado com que se envolve com o criar artístico, com aquela emoção contrita típica ao seu espírito, Kafka pariu uma imagem incômoda e a situou no centro do interesse literário; algo que ficou tão marcante que pensadores como Sartre, Camus, Benjamim e Arendt se influenciaram pelo trabalho arrojado do autor húngaro.

Sartre e Camus ilustraram o absurdo em romances, usando seus personagens como modelos da experiência diante do “nada” que significa a existência humana. Somente puderam fazê-lo, no entanto, graças a Kafka. O ponto essencial que define o absurdo, em vez de ter sido explicado numa teoria filosófica ou científica, foi transfigurado numa imagem literária. Foi o próprio Camus quem disse que a experiência humana diante do absurdo da existência, não encontra conceito que a explique tal como ela é; mas que, somente com a arte, com a imagem, com o símbolo, é que o absurdo pode ser compreendido o mais próximo que conseguimos chegar nele. Kafka puro.

Em A Metamorfose (1915), obra mais exitosa de Kafka, o absurdo ganha uma tonalidade, e nos é mostrado, enquanto significado, numa imagem suficientemente clara que dispensa qualquer nota de rodapé. A novela narra a história de Gregor Samsa e de sua família. Gregor é a imagem artística do absurdo encarnada num homem comum, trabalhador, que sustenta a família com seu modesto soldo. “Quão trabalhosa é a profissão que escolhi! Um dia sim e o outro também, em viagem. ” Caixeiro-viajante, Gregor é infeliz em sua rotina de labor; seu coração não participa dessa atividade irregular, insalubre e penosa. Esgotado em suas forças, ele só não abandona o trabalho porque seus pais, idosos, se acham prostrados fisicamente; e o pior: endividados.

“Depois de uma noite mal dormida”, numa manhã chuvosa e cinzenta,despertou Gregor, sentindo-se estranho. Estirado em sua cama, já tendo perdido o trem que o levaria até o trabalho, não consegue se levantar. A razão, incompreensível, para esse fato é que se metamorfoseou em um “monstruoso inseto”, tendo entrado seu corpo em um devir violento e repentino, e tomado a forma de algo inegavelmente repulsivo. Nessa passagem abrupta do homem para o inseto, Gregor ganha uma “dura carapaça”, um “ventre escuro”, convexo, “sulcado por pronunciadas ondulações” e “inúmeras patas” “esquálidas” que oferecem “o espetáculo de uma agitação sem consistência”.

“O que me aconteceu? ”, indaga Gregor. “E agora, Samsa? O que é e será de você? ”, indagamos todos quando nos espantamos com a parte introdutória dessa obra fenomenal de Kafka. Gregor não é o homem de Drummond de Andrade, que no caminho que trilha na vida se depara com uma pedra, com um entrave insolúvel. O próprio Gregor é a pedra no caminho, o inseto que, quando menos se espera, desperta homem, como na visão curiosa que Marcelo Rubens Paiva fez sobre a metamorfose. O que Kafka nos responde é que, de agora em diante, até sua morte, Gregor será o absurdo encarnado num homem inumano que pensa, sente e age como inseto desprezível.

Escaldado no seu quarto, Gregor é a pele do absurdo: a opressão de seu ser humilhado e posto para escanteio num quarto enroupado de poeira. O absurdo, em Kafka, amolda um indivíduo comum que, de uma hora para outra, se torna “nada”; a metamorfose conduz o “ser” ao “nada”; torna,o que era, uma outra coisa, ínfimo em significância, passível de ser esmagado, varrido, esquecido, odiado. Vai do nada relativo, quando o ser de Gregor é visto como desumano, ao nada absoluto, quando morre. Entre seus familiares, Gregor se torna o “traste”; ele é a evidência insuportável de uma ”desgraça inaudita”: um ser que até então era homem, vivia como homem, no meio deles, falando sua língua e se tornou a imagem do desumano e do incalculável.

A “fracassada existência” de Gregor está em sua inutilidade; ele não serve para nada; sente dificuldades de locomoção e de comunicação; ninguém o compreende. Nem mesmo a irmã Grete, que a princípio se mostra solícita em ajudá-lo, alimentando-o com restos de comida. Pai e mãe se posicionam de forma opressora ou omissa. Aliás, a metamorfose se manifesta tanto em Gregor quanto na família. Depois que o absurdo irrompe como um inseto,atormentando o lar, pais e irmãs e sentem terrificados; em seguida, mudam do terror para a resignação, acostumando-se a esse “novo estado de coisas”; e, por fim, descontam o terror em Gregor, odiando sua presença, ameaçando-o, como ocorre ao pai, revoltado, arremessando-lhe maçãs na carapaça; até que, tomado por dores, angústia e abandono, ele entrega os pontos e se despede da família.

Kafka, com sua lição de humanidade, precisa antes nos lançar no peito o que, de desumano, temos que suportar e aceitar: a tragédia de nossa existência. O absurdo não está longe de nossa presença ou simplesmente se aloja numa frase banal do dia-a-dia. Não basta acusar o absurdo de absurdo e desprezá-lo; ele é o parente mais próximo da família, espreitando passos pelos corredores da casa, nas trevas, quieto e invisível.






2 COMENTÁRIOS

  1. Filipe, seus artigos são muito interessantes. Se tem algo que agradeço é a capacidade do atual governo de mobilizar ainda mais os estudantes e professores. E este texto reflete isto.
    Quando a educação é uma das principais bases do desenvolvimento econômico e social de uma nação e de sua consolidação democrática e ainda assim temos um presidente da República que chama os estudantes de idiotas e as universidades de balbúrdia, é possível compreerder os motivos dos dois ministros que menos entendem de educação terem passado pelo atual governo. Clamamos por dias melhores.

  2. Realmente é um absurdo o erro cometido pelo ministro em trocar uma letra no nome do autor, agora eu lamento que todo esse zelo não tenha sido igual quando fomos governados pelo analfabeto ladrão ora na cadeia, e sua sucessora a bestial Dilma.

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