Vinicius Cordeiro. Foto: Divulgação

A crise do Coronavírus, as movimentações dos partidos, as pré-candidaturas começando a se mexer de olho nas eleições municipais deste ano. Estes e outros temas foram analisados pelo advogado, especialista em direito eleitoral, Vinicius Cordeiro.

Atual vice-presidente nacional do Avante e presidente do partido no Rio de Janeiro, Cordeiro já foi secretário de promoção e defesa dos animais do Rio. Ele falou com o DIÁRIO DO RIO. Confira.

DDR: Como a pandemia afeta as eleições municipais de 2020? E como isso reflete na atual Prefeitura do Rio de Janeiro?

Vinicius Cordeiro: A pandemia afeta todo o processo político eleitoral. Ela transforma toda a campanha tradicional, de reuniões, encontros, gente nas ruas, etc, para a área digital. Falando atual prefeito, como qualquer prefeito, vai ser julgado por suas realizações. Mas ele sai prejudicado com essa crise, porque ele tinha preparado toda uma recuperação de imagem, toda uma estratégia, que vai ficar em segundo plano, porque o tema vai para a saúde nesse momento, área na qual o Crivella não vai bem, até antes da pandemia.

DDR: Este apoio, ainda que indireto, do presidente Bolsonaro é bom ou ruim para Crivella?

Vinicius Cordeiro: O apoio do Bolsonaro é uma faca de dois gumes. Se de um modo, ele leva, de fato, um grupo militante, conservador, para apoiar o Crivella (tenho notícia de uns 10, 15 candidatos que foram para o Republicanos, incluindo o Carlos e a Rogéria Bolsonaro) e isso reforça o apoio ao prefeito, por outro lado, a popularidade do Bolsonaro vem caindo nesses últimos dias. E tem que se entender que o Rio de Janeiro nunca votou com os olhos em Brasília. O voto aqui é diretamente ligado ao desempenho local. Um exemplo é o Lula que, no auge da sua popularidade, apoiou a Jandira e ela não venceu aqui.

DDR: Como deve ficar a Câmara dos vereadores, com a junção da crise do Covid-19, do desemprego, e do fim das coligações proporcionais?

Vinicius Cordeiro:O povo tem uma certa raiva dos atuais detentores de mandato. E depois da crise causada pela Covid-19 e do desemprego que virá, isso gera uma tendência que leva as pessoas a se abster mais. O fim das coligações proporcionais vai fazer com que muita gente não volte, não seja reeleita, para a Câmara dos Vereadores. Eu enxergo uma renovação de uns 40 a 50 por cento na Câmara Municipal para esse ano.

DDR: O candidato do governador Witzel entra forte nesta disputa à Prefeitura do Rio?

Vinicius Cordeiro:Não enxergo a pré-candidatura da juíza Glória Heloiza como uma pré-candidata do Witzel. Acho que é mais uma candidatura do partido, do pastor Everaldo, que é quem comanda a máquina partidária. O Witzel me parece mais focado na crise da Covid-19, na recuperação do estado, não na eleição municipal. E a juíza Glória começou mal a pré-campanha com um vídeo que causou certo desconforto entre os conservadores. E não teremos o que aconteceu em 2018, que o eleitorado conservador girou em torno do Bolsonaro, inclusive o Witzel foi beneficiado com isso. Lembrando, ainda, que Eduardo Paes ganhou o Witzel na capital com 3 pontos de diferença em 2018. As forças que apoiaram o Witzel em 2018 não estão mais o apoiando, como o próprio grupo do Bolsonaro e até mesmo o eleitor do Bolsonaro. O Witzel tenta se apoiar na Alerj com o PSL, que vai ter candidato próprio este ano. O PP, que apoia o Witzel, está apoiando o Crivella no âmbito municipal. O DEM, aliado do governador no estado, vai com o Eduardo Paes para a eleição à Prefeitura. O apoio do Witzel no estado não será o mesmo na capital, então, acredito que o apoio dele vai ser no mínimo discreto nesta eleição.

DDR: E a esquerda? Como fica a configuração sem Marcelo Freixo? Quem ganha espaço?

Vinicius Cordeiro: No caso da não candidatura do Freixo, eu prevejo a pulverização dos votos da esquerda, do PSB com [Alessandro] Molom, do PDT com a Martha Rocha, do PCdoB com o Brizola Neto. A esquerda vai ficar mais preocupada em eleger vereadores. E isso tem a ver com o fim das coligações, é um efeito que está levando a esse tipo de comportamento eleitoral.

DDR: Martha Rocha, do PDT, pode se tornar uma opção mais forte sem o Freixo na disputa?

Vinicius Cordeiro: A Martha Rocha é uma candidatura respeitável, mas eu não a vejo tão ativa nesse processo da Covid para cá. Diferentemente de outros pleitos, onde a questão da segurança era muito importante, central, nesse ano vai ser diferente. Outros debates estarão em alta, como saneamento básico, saúde, por exemplo. Com isso, a candidatura dela, uma delegada, perde força. Além disso, o Cidadania deve ter candidato, a Rede vai com Eduardo Bandeira de Mello, o Novo, com Fred Luz, pode tirar alguns votos dela na classe média, que tradicionalmente vota na esquerda, mas pode optar pelo discurso do Partido Novo. Além dos outros nomes da esquerda que citei na outra resposta. Mas acredito que a Martha tenha condições de ganhar espaço nesse campo. Vai depender, também, da campanha, de como ela vai se posicionar no debate sobre a cidade, que é um debate diferente do governo do estado e do governo federal.

DDR: Para fechar, é possível que não aconteça eleição este ano?

Vinicius Cordeiro: É possível que a eleição não aconteça em outubro. Com o crescimento da curva nos casos de Cornavírus, talvez até meados de junho, podemos ter um adiamento, não uma prorrogação de mandato. Isso ninguém quer em Brasília. O adiamento pode acontecer através de uma PEC. Mas isso só vai acontecer se houver um mínimo acordo no Congresso Nacional, liderado por Rodrigo Maia. Então, dependendo da situação da pandemia no Brasil, as eleições municipais podem ser adiadas para novembro ou dezembro, ainda este ano. Um adiamento para o ano que vem, não consigo antever. Acho mais provável que, se for acontecer, dependendo de como vai estar a situação do país nos próximos meses com a questão da Covid-19, que aconteça ainda este ano, como disse, para novembro ou dezembro.

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