Foto: arte Adail

Como cartunista é impossível não ser fã do Adail.

Conheci Adail há mais de 20 anos. Paulista, radicado no Rio de Janeiro, Adail fez muito sucesso como cartunista do jornal “O Dia”.

Éramos vizinhos. Trabalhamos juntos no “O Municipal” – jornal onde, por sinal, Ibrahim Sued começou, antes do sucesso no jornal “O Globo”.

Adail José de Paula era um paulista com alma e humor carioca. Era cartunista, jornalista e membro do Conselho da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Em junho de 2012, batemos um longo papo no restaurante Exotic, em Caxias. Adail era bom de papo. Gostava de falar da origem humilde em São Paulo e, principalmente, de desenho e música, suas duas paixões:

Na verdade, eu nasci no interior de São Paulo, na cidade de Registro, em 1930. Fui militar, e já na caserna fiz meus primeiros desenhos. Era boêmio, gostava da noite e de beber. Fui contemporâneo de Adoniran Barbosa, Grande Otelo. Bebi com essa gente toda.

Publiquei meus primeiros desenhos com 18 anos nos jornais “O Governador” e “A Marmita”. Vim para o Rio de Janeiro em 1955 e fui trabalhar no “Diário de Notícias”, onde fiquei por 20 anos. Trabalhei também na revista “O Cruzeiro” e nos jornais “Correio da Manhã”, “Jornal dos Sports”, “O Pasquim”, “Cartoon”, “O Globo” e “O Dia”, entre outros. Publico também há 20 anos meus cartuns no “Jornal Espírita”. Me aposentei pelo jornal “Última Hora”, em 1991.”

Com relação ao seu estilo, não negava a forte influência da escola argentina: “Eu comecei copiando Divito (Guillermo Divito 1914-1969), um cartunista argentino que publicava no semanário “Patoruzú”, de Buenos Aires, e depois criou seu próprio jornal de humor chamado “Rico Tipo”. No Brasil, sempre fui fã do Henfil e do Nássara. Trabalhei com eles no “O Pasquim”. Adorava ver o Henfil desenhar. Era um gênio.”

A admiração era mútua; Henfil admirava o trabalho do Adail – por coincidência, Adail faleceu no dia do aniversário do Henfil. Aos poucos, Adail foi criando seu próprio estilo de desenho simples e piadas leves e populares. Graças ao tom leve de seus cartuns, o cartunista nunca teve problemas maiores com a Ditadura Militar:

“Era uma época difícil pra todos nós que trabalhávamos com arte e cultura em geral. Os milicos não deixavam passar nada. Era preciso fazer três jornais para publicar um. 80% dos textos e desenhos eram censurados. Felizmente, eu nunca tive problemas.”

Era compositor. Fez músicas pro Flamengo e pro Corinthians, seus times de coração. Sempre que nos encontrávamos me mostrava uma nova canção:

“Tenho muitas músicas compostas. Sambas, músicas de dor-de-cotovelo, tudo. Tenho músicas de protestos, músicas para campanhas institucionais, músicas para a Copa do Mundo. Quando não estou desenhando, tô escrevendo músicas.”

Adail era isso: talento puro.

Um dia o cartunista Otélo Caçador me disse que quando o Nássara fazia uma caricatura de alguém, se não ficasse parecida, o rosto da pessoa ia se transformando até ficar parecida com a caricatura. Adail era outro que tinha esse talento. Suas caricaturas eram perfeitas.

Adail era cheio de ideias. Planejávamos criar um jornal e um Salão de Humor em Duque de Caxias (RJ). Não deu. O cartunista faleceu em 5 de fevereiro de 2014, no Rio de Janeiro, aos 83 anos.

Após a sua morte o cartunista ganhou uma fã-page na internet. Em 2016, o quadrinista João Carpalhau e o Grupo Capa Comics deram o nome de Adail José de Paula, a gibiteca da cidade de Duque de Caxias, numa homenagem ao cartunista.

Jornalista, cartunista, poeta e escritor carioca. É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG) e Diário do Rio (RJ) Autor do livro “Parem as Máquinas! - histórias de cartunistas e seus botecos”. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) dos romances "Sonhos são Azuis" e “Entre Sonhos e Girassóis”. É também autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty", publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ), desde 2003, e criador e editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!"

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