Milton Coelho da Graça - Foto: Reprodução

Em uma das últimas colunas que fez para o jornal ”O Dia”, Jaguar disse que, depois que ficou velho, as crônicas dele pareciam obituários. Acontece com todos nós que escrevemos em jornal. O tempo vai passando e vamos perdendo amigos e companheiros de profissão, especialmente nesses dias de pandemia.

Nós – e, principalmente, o jornalismo – perdemos neste sábado (29/05) mais um brilhante jornalista, Milton Coelho da Graça, aos 90 anos, vítima de Covid-19.

Não éramos íntimos. Encontrei com ele algumas vezes na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), quando ia visitar o cartunista e jornalista Adail, um amigo comum, que, praticamente, morava lá.

Ele, sempre elegante, de óculos, camisa perfeitamente abotoada, calça de linho branca e chapéu. Um ótimo papo e a elegância em pessoa, Milton era apaixonado por botecos, pelo Vasco da Gama e pela escola de samba Império Serrano.

Milton Coelho da Graça nasceu no dia 30 de novembro de 1930, no Rio de Janeiro, filho de portugueses. Graduou-se em Economia e em Direito, mas era apaixonado mesmo pelo jornalismo.

Ainda estudante, trabalhou na General Electric. Foi demitido por participar de uma manifestação da União Nacional dos Estudante (UNE). Nessa ocasião, foi preso e teve sua foto exposta na primeira página do jornal ”O Globo”.

Em 1959, ainda no Movimento Estudantil, conheceu o jornalista Maurício Azêdo, que o levou para trabalhar como copidesque (para os da geração pós internet, era o cara que fazia a revisão de texto a ser publicado) na ”Revista da Sociedade”.

Em 1960, foi contratado por Chagas Freitas para trabalhar no jornal ”O Dia”. Paralelamente, trabalhou no jornal comunista ”Hoje”. Em 1961, foi para o jornal ”Ultima Hora” (é sem acento mesmo! – como gosta de acentuar [ops!] o jornalista Luis Pimentel), do Rio de Janeiro.

A convite de Samuel Wainer, assumiu a chefia de redação da sucursal de Recife. Com a decretação do AI-5, em 1964, ficou preso na capital pernambucana por quase nove meses. Solto em 28 de novembro de 1964, voltou ao Rio de Janeiro, indo trabalhar no ”Diário Carioca”, cujo chefe de redação era Zuenir Ventura.

Tempos depois, de volta ao ”Ultima Hora”, editou a revista ”Flan”, um suplemento cultural do jornal, cujo chefe de redação era o escritor Moacyr Werneck de Castro. Em 1971, Milton vai para São Paulo e assume a direção da revista esportiva Placar, onde começava Juca Kfouri. Logo depois, torna-se diretor da revista ”Realidade”.

Ainda em São Paulo, em 1975 é preso pela ditadura militar, quando era editor do jornal clandestino ”Notícias Censuradas”. Cumpre pena no DOI-CODI entre dezembro e maio de 1976.

Em 1978, Milton Coelho da Graça retornaria para São Paulo ocupando, outra vez, a direção da revista ”Placar”. No ano seguinte, recebeu o convite de Ary de Carvalho, novo proprietário da ”Ultima Hora” carioca, para ser diretor de redação. Ainda em 1979, voltou ao Rio para ser editor-chefe de O Globo.

Entre idas e vindas, Milton atuou em diversas redações do país. Passou por jornais, como o ”Diário Carioca”, ”O Dia”, ”Ultima Hora”, ”O Globo”, ”Jornal do Commercio”, ”Jornal dos Sports” e pelas revistas, ”Placar”, ”Playboy”, ”Isto É”, ”Quatro Rodas”, ”Realidade”. Foi correspondente internacional em Londres e Nova York, e editou os jornais clandestinos ”Notícias Censuradas” e ”Resistência”. Fez muita coisa. Agora, descansou. Adeus, Miltão!



Toda manhã o resumo do Rio de Janeiro

Ediel Ribeiro
Jornalista, cartunista, poeta e escritor carioca. É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG) e Diário do Rio (RJ) Autor do livro “Parem as Máquinas! - histórias de cartunistas e seus botecos”. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) dos romances "Sonhos são Azuis" e “Entre Sonhos e Girassóis”. É também autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty", publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ), desde 2003, e criador e editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!"

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