David Levine - Foto: Reprodução

Na Rua da Carioca, 61, ao lado da antiga redação do ‘Pasquim’, havia um sebo chamado Acadêmico do Rio (ainda existe), eu ia muito lá sempre que visitava a redação do hebdomadário. Bota uns 20 anos nisso.

Numa prateleira, empoeirada, num canto mal iluminado, ficavam umas revistas estrangeiras que – numa época pré- internet – eram nossas únicas fontes de contato com os grandes desenhistas do mundo. Entre as revistas haviam as francesas ‘Paris Match’, dos geniais Bosc, Chaval, Mose, Siné, Tetsu e Trez; as britânicas ‘Punch’, de André François, Ffolkes, Scully e ‘Private Eye’, dos geniais Gerald Scarfe e Ralph Steadman; e a norte-americana ‘The New Yorker Review of Books’, dos talentosos Chas Addams, James Thurber, Peter Arno, Cobean, Steig, Saul Steinberg e David Levine.

Da seleção de craques do traço da ‘The New York Review of Books’ – um time da pesada – eu admirava o estilo, o domínio da técnica do claro-escuro e a soberba maneira de sombrear cheio de traços e ranhuras, sem textos, de David Levine.

David Levine foi um artista e ilustrador americano conhecido especialmente pelas suas magistrais caricaturas na revista ‘The New York Review of Books’, que durante 45 anos se confundiram com a identidade da revista.

Nascido no Brooklyn, em 1926, Levine cresceu num mundo proletário e politizado. O pai era dono de uma pequena confecção, e a mãe, uma enfermeira militante do Partido Comunista.

Levine teve seus primeiros contatos com a imprensa como entregador de jornais. Distribuía o ‘Daily Worker’ – diário do Partido Comunista Americano, fundado em 1924 – pelas docas do Brooklyn, bairro onde o garoto nasceu e viveu.

Declaradamente comunista, Levine publicou seus primeiros desenhos no ‘The Masses’, um periódico da esquerda norte-americana. Na década de 60, começou a colaborar com a ‘Esquire’ ao lado de Edward Sorel e Jules Feiffer. Fiel ao seu estilo, Levine jamais precisou recorrer a uma única palavra em sua vastíssima obra.

Em uma de suas últimas entrevistas, Levine explicou: “Se eu não conseguisse, sem palavras, passar a minha mensagem, como fez Charlie Chaplin, palavra alguma poderia me ajudar”. Mesmo sem se valer de uma sílaba sequer, Levine era tão temido quanto o mais loquaz dos iconoclastas. O cartunista Jules Feiffer, por sinal, considerava Levine “o maior caricaturista da segunda metade do século XX”.

Em 1963, durante uma greve de jornais nova-iorquinos, a lendária editora Barbara Epstein, contratou Levine para se juntar à recém-lançada ‘The New York Review of Books’, onde fez milhares de caricaturas – boa parte de políticos. Fez caricaturas, também, para a ‘Time’, para a ‘Rolling Stone’, a ‘Sports Illustrated’, entre outras.

Quando a onda do politicamente correto ainda não passava de marolinha, Levine, não poupava ninguém. Ele a rigor, não perdoava nem a si próprio. Levine produziu algumas autocaricaturas, nas quais se retrata com a habitual acidez. Seus auto retratos revelam um sujeito corpulento, trôpego e feioso, com um nariz avantajado e que, em alguns casos, pareciam uma chaminé.

A mão de Levine se tornava ainda mais devastadora ao desenhar políticos. Levine analisava as fotos enviadas pela revista, minuciosamente, à procura do elemento – o nariz, os olhos, o queixo, os cabelos, os óculos, a cabeça – que capturasse a essência da pessoa para então retratar, exagerando os postos mais característicos.

Mas Levine também sabia a hora de parar. O caricaturista sempre ensinou a ilustradores jovens que a caricatura fracassa quando distorce as pessoas além de qualquer possibilidade de reconhecimento.

O artista trabalhava em seu ateliê com todas as janelas cobertas para bloquear a luz natural mais crua, e utilizava somente pena Gillot 102 e papel da marca Strathmore, de textura encorpada.

Algumas das primeiras vítimas de sua pena, chegaram a implorar para serem poupadas do seu traço. Com o passar do tempo, com a fama alcançada pelo artista, ocorreu uma reviravolta: ser desenhado por Levine, mesmo com crueldade, equivalia a um certificado de distinção

Levine não deixava barato. Mas era modesto e realista: “Nenhum governo caiu por causa das minhas caricaturas, mas só a sátira política pode salvar um país do inferno”, costumava dizer.

Levine foi amigo e apadrinhou Henfil quando o cartunista brasileiro teve seus fradinhos cancelados pelos sindicatos em Nova York. Chegou a fazer um cartum em parceria com o pai dos fradinhos a quem consolou quando os personagens deixaram de ser distribuídos pelos americanos: “Isto é para sua lição. Como é que você queria que um povo que votou esmagadoramente em Nixon por duas vezes, e votaria de novo se ele se candidatasse, fosse aceitar os fradinhos?”

Vítima de uma doença ocular degenerativa, Levine deixou de desenhar com a mesma maestria. Os desenhos tornaram-se mais pobres, mais grosseiros, mais hesitantes. Até mesmo a assinatura, o “D.Levine” ficou diferente: tornara-se trêmulo e errático, quase ilegível.

Mesmo com o recurso de luzes fortes e lentes de aumento, seu universo foi ficando mais sombrio e indistinto. O artista, que não tinha plano de saúde nem aposentadoria, deixou de desenhar em 2007. Seu último desenho, feito sob encomenda, foi publicado em abril de 2007.

Levine morreu em Manhattan, no dia 29 de dezembro de 2009, nove dias depois de completar 83 anos.

Jornalista, cartunista, poeta e escritor carioca. É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG) e Diário do Rio (RJ) Autor do livro “Parem as Máquinas! - histórias de cartunistas e seus botecos”. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) dos romances "Sonhos são Azuis" e “Entre Sonhos e Girassóis”. É também autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty", publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ), desde 2003, e criador e editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!"

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