A Banda de Ipanema, criada por Ferdy Carneiro, faz 56 anos no próximo carnaval.

A quase sexagenária banda que mudou o carnaval do Rio e devolveu o carnaval de blocos à Zona Sul, pode, em 2021, não participar pela primeira vez da folia, desde que foi fundada, em 1965.

“Só sairemos se houver uma vacina testada e aprovada contra o vírus”, diz Claudio

Pinheiro, 83 anos, fundador e atual presidente da banda.

A banda desfilou pela primeira vez em 18 de fevereiro de 1965, mas a ideia surgiu em 1959, quando Ferdy Carneiro levou os amigos Albino Pinheiro e Saraceni a Ubá – terra de Ary

Barroso – em Minas Gerais, para conhecer a “Banda da Mula Manca – Em Boca Dura”, criada pelos jovens das famílias Carneiro e De Filippo, que acabou inspirando a criação da banda carioca.

Assim, em 1959, surgia no Rio uma banda irreverente, criada por Ferdy Carneiro e liderada por Albino Pinheiro – o eterno general da banda -, junto com Jaguar, Ziraldo, Zélio, Lúcio Rangel, Hugo Bidet e um grupo de artistas e boêmios que gostavam de se reunir para beber, desabafar e protestar, livres dos chatos de sempre.

Como os mineiros, os foliões cariocas usavam ternos brancos, chapéus de palha e fingiam tocar instrumentos de sopro – quem tocava, na verdade, eram os músicos que vinham atrás – o que acontece até hoje, nos sábados de carnaval da capital carioca.

Ferdy Carneiro era artista plástico, designer, jornalista e programador visual. Era um mineiro apaixonado pelo Rio, boêmio “de carteirinha”, frequentador das rodas de samba mais tradicionais e apreciador de bebidas. Trabalhou no teatro e cinema – sua grande paixão – e escreveu n’ ‘O Pasquim’.

Albino Pinheiro era um grande festeiro que viveu para o Rio. Era animador cultural, pesquisador de música, boêmio e considerado “o prefeito espiritual da cidade do Rio de Janeiro”.

A primeira reunião aconteceu no ‘Bar Jangadeiro’, onde Jaguar anotou num caderninho os 30 que participaríam da banda. A primeira concentração também saiu do Jangadeiro. Passando depois para a rua Teixeira de Melo, em frente ao restaurante Rio-Nápoles, junto à praça General Osório.

A banda sempre teve padrinhos e madrinhas famosos. Como conta Sérgio Cabral, em um seu livro “O ABC de Sérgio Cabral”, publicado em 1977:

“Ser padrinho ou madrinha da Banda de Ipanema é uma grande honra, como se vê pelos nomes escolhidos nesses 12 anos de existência: Clementina de Jesus, Nássara, Eneida de

Morais, Bibi Ferreira, Lúcio Rangel, João de Barro, Leila Diniz, Aracy de Almeida, Clara Nunes, João Nogueira, Oscar Niemeyer, Grande Otelo, Martinho da Vila, Nelson Cavaquinho e Cartola”.

As primeiras porta-bandeiras da banda foram Maria Vasco, Leila Diniz e Chico Buarque. Desfilavam na banda diversos artistas, como Cartola, Leila Diniz, João Saldanha, Jaguar, Zezé Mota e Jorge Benjor.

Durante a ditadura, a banda fazia com deboche e ironia um desagravo satírico às inúmeras proibições à cultura feitas pelo governo dos militares. Tudo era proibido, menos futebol e carnaval.

Naquela época, no primeiro carnaval após o golpe militar – quando era proibido juntar mais de 50 pessoas em local público – a Banda de Ipanema já reunia cerca de 10 mil foliões.

Desde o primeiro desfile, a banda exibe uma faixa com um lema – “Yolhesman Crisbeles” – que sempre intrigou os militares. Conta-se que, durante a Ditadura Militar, duas agentes do Serviço Nacional de Informação infiltraram-se no desfile da banda querendo descobrir o significado obscuro e certamente subversivo da faixa.

Mas a frase não significava porra nenhuma. A frase foi tirada do cartaz de um maluco que vendia bíblias na Central do Brasil.

“No começo, ela tinha a ala das piranhas, que não existe mais. Eram aqueles machões que sempre saíam vestidos de mulher: João Saldanha, o Carlinhos Niemeyer que saía de melindrosa. Agora é só travesti e um monte de viados. Por isso deixei de sair na banda.”, diz Jaguar.

A banda, que hoje é patrimônio Cultural da Cidade do Rio de Janeiro, não usa carro de som nos desfiles. O som vem dos instrumentos e do canto dos foliões, que fazem o desfile a pé.

O sucesso da banda foi tão grande que várias bandas e blocos surgiram no rastro da velha banda. O principal deles, o “Simpatia é Quase Amor”, que carrega o nome emprestado pelo Aldir Blanc.

O percurso da banda é sempre o mesmo: Praça General Osório, rua Teixeira de Melo (na contramão), avenida Vieira Souto, rua Joana Angélica, rua Visconde de Pirajá, e retorno à praça General Osório.

Mas nem todos completavam o percurso. Jaguar uma vez confessou que só acompanhava a banda até o primeiro quarteirão. Dali, ele voltava para o Jangadeiro, sentava e bebia até a banda voltar.

A banda ainda é uma grande festa.

Ediel Ribeiro
Jornalista, cartunista, poeta e escritor carioca. É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG) e Diário do Rio (RJ) Autor do livro “Parem as Máquinas! - histórias de cartunistas e seus botecos”. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) dos romances "Sonhos são Azuis" e “Entre Sonhos e Girassóis”. É também autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty", publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ), desde 2003, e criador e editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!"

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