Poucas figuras da boemia carioca foram tão emblemáticas como Hugo Bidet.

O carioca Hugo Leão de Castro, conhecido como ‘Hugo Bidet’, foi um pintor, desenhista, ator, roteirista, escritor e jornalista carioca.

Recebeu a alcunha de “Bidet” porque promoveu uma feijoada para os amigos e, na falta de panelas, colocou os ingredientes de molho no bidê de seu apartamento, em Ipanema.

Hugo Bidet foi um dos fundadores da Banda de Ipanema. Era um dos personagens mais icônicos do bairro. Boêmio inveterado, e um doce vagabundo, acolhia em seu apartamento todos os amigos que trazia dos bares, nas madrugadas.

Um dos “hóspedes” do Hugo era o amigo Tarso de Castro. Tarso escreveu em sua coluna na “Folha de São Paulo”, no dia seguinte à morte de Hugo:

“Morávamos na Rua Jangadeiros, ali no final, perto do hospital Ipanema. Morávamos, não: eu é que dormia na poltrona-sofá da sala da casa de Hugo Bidet. Eu, o Paulo César Peréio e o Cláudio Marzo – que usava o apartamento nos dias em que se desentendia com a namorada – e quem mais aparecesse.

No Jangadeiros, comíamos “Risoto à Iugoslávia”: arroz misturado com os restos de carne de anteontem. Custava cinco cruzeiros. Nós pendurávamos. Até que nos cortaram o crédito. Ai, quem nos salvava era o garçom Cabeça”.

Hugo Bidet tornou-se uma lenda na Ipanema dos anos 60. Diziam que estava em todos os bares do bairro, ao mesmo tempo.

Sempre de bolsa – foi um dos primeiros homens cariocas a usá-la -, lançou moda e criou a Feira Hippie de Ipanema. O artista queria criar na Praça General Osório “uma galeria de arte a céu aberto”. Hugo teria colocado à exposição, na lateral das barracas da Feira do Livro, na Praça General Osório, seus desenhos eróticos e a iniciativa foi, surpreendentemente, um sucesso, dando origem à Feira Hippie.

Boêmio, um dia, depois de tanto beber, Hugo sofreu um ataque hepático. No hospital, depois de examinar o paciente, o médico perguntou:

– O senhor bebe?

A resposta, meio hesitante, do Hugo:

– Socialmente.

O médico:

– Pelo estado do seu fígado, o senhor parece que bebe bastante.

Hugo, pego em flagrante, acrescentou, com humildade:

– É que eu tenho muitos amigos.

Tinha mesmo. Jaguar, Tarso de Castro, Peréio, Roniquito, Leila Diniz, Albino Pinheiro, Ziraldo…

“Meu personagem favorito de Ipanema naquele tempo não era Helô, nem Tom nem Vinicius, mas Hugo Bidet” – dizia o escritor Carlos Heitor Cony.

Outra história bem inusitada que contam sobre o Hugo Bidet é que ele alugou um cavalo branco e, com farda militar de general, entrou no ‘Jangadeiro’, e pediu um chope, sem descer do pangaré.

Em 1964, para o lançamento da cerveja Skol, no Rio de Janeiro, Jaguar e Ivan Lessa criaram uma história em quadrinhos. A historinha se chamava Chopnics, uma brincadeira com os “beatniks”, criadores da geração “Beat” americana nas décadas de 50 e 60.

Para as histórias nas tirinhas eles se inspiraram nos amigos, um deles o Hugo Bidet. Hugo virou o personagem “Capitão BD”, que ao pronunciar uma palavra mágica (a da marca da cerveja), ganhava superpoderes, mas só dentro dos limites do bairro de Ipanema.

O Hugo Bidê tinha um ratinho branco, que ele chamava de Ivan Lessa, e que acompanhava os amigos nos bares de Ipanema. O ratinho foi então a inspiração para o personagem ‘Sig’. Segundo Jaguar, em uma analogia a Sigmund Freud, o pai da psicanálise. O rato seria neurótico, e vivia atormentado por paixões pelas belas mulheres da época.

Nas história em quadrinhos, ele ficava no ombro do Capitão BD, sendo um personagem secundário. Com o fim do Chopnics e com o surgimento do jornal ‘O Pasquim’, alguém deu a sugestão para que o Sig fosse o símbolo do jornal.

Foi na mesa de um boteco qualquer, ou nas páginas d’ O Pasquim, não lembro, que conheci a história do Sig, contada pelo Jaguar:

“O Sig existiu mesmo, era um rato branco, do Hugo Bidê, que bebia com a gente. E o nome dele, real, era Ivan Lessa. O Hugo levava o rato pro ‘Jangadeiros’, molhava uma bolinha de pão com vodca, que o rato comia e ficava de porre.

O rato era amigo nosso, entendeu? Tanto que, quando ele morreu, foi uma tragédia.

A gente, quando fechava o bar, lá pelas quatro e meia da manhã, ia pra casa do Hugo Bidê, que era ali mesmo, na Jangadeiros. Íamos eu, Pereio, o Bidê, Paulo Góes.

Aí o Ivan Lessa, o rato, ficava andando no parapeito da janela, pra lá e pra cá. Só que, um dia, caiu! Era no primeiro andar, mas para um rato era como se fosse o décimo, né? Nós descemos todos, o rato estava lá, já agonizante. O que nós fizemos? Pegamos o rato e o levamos para o Hospital Miguel Couto!

Pra gente não era um rato, era um companheiro. Chegamos lá e os caras, lógico, se recusaram a atendê-lo. E nós saímos na porrada com todo mundo, fomos parar todos na Polícia… Na confusão, o rato acabou morto, pisoteado”.

Hugo viveu e morreu em Ipanema, bairro que amou. Aos 43 anos, em meio à uma crise depressiva, resolveu cometer suicídio. Pegou um revólver, colocou o cano na boca e atirou.

Provavelmente, ele deve ter pensado, parafraseando Glauber Rocha: ‘Ipanema é um bom lugar para se morrer’.

*Ediel Ribeiro é jornalista e escritor.

Jornalista, cartunista, poeta e escritor carioca. É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG) e Diário do Rio (RJ) Autor do livro “Parem as Máquinas! - histórias de cartunistas e seus botecos”. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) dos romances "Sonhos são Azuis" e “Entre Sonhos e Girassóis”. É também autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty", publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ), desde 2003, e criador e editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!"

1 COMENTÁRIO

  1. Ediel, obrigado por essa linda homenagem. Hoje, no céu, o chope certamente é por conta do Bidet. Abraços. Hugo Leão de Castro Filho

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