Já escrevi aqui sobre grandes jornalistas que fizeram história na crônica policial. Albeniza Garcia, Otávio Ribeiro, Tim Lopes, foram alguns deles. Hoje escrevo sobre o Luarlindo Ernesto.

Conheci alguns dos repórteres citados, entre eles, Luarlindo.

Luarlindo trabalhou no jornal “Luta Democrática”, onde eu comecei ainda muito jovem. Mas não cheguei a trabalhar com ele. Quando cheguei, ele já tinha saído. Foi trabalhar no jornal “O Dia”, acho.

Foi no ‘O Dia’ que o encontrei algumas vezes. Mas nunca fomos íntimos. Eu começava na profissão e ele já era – para usar uma palavra da moda – um mito. Uma pena, podíamos ter tomado muitos porres juntos.

É um tremendo gozador. O mais experiente e carismático repórter investigativo do jornalismo brasileiro.

Luarlindo Ernesto nasceu no dia 13 de agosto de 1943, no Rio de Janeiro.

Filho de um banqueiro de jogo de bicho e uma dona de casa, começou no jornal ‘Última Hora’, com 14 anos, por castigo do pai que não queria o filho  jogando bola na rua. 

Indicado por um amigo do seu pai, em 1957, começou no jornal do Samuel Wainer como repórter policial. O jornal ficava na Rua Sotero dos Reis, próximo a sua casa, onde hoje é a Vila Mimosa. 

“Não sei porque meus pais me deram esse nome. Nasci numa enchente na Praça da Bandeira. Não tinha nenhum ‘luar’ lindo naquele dia, só uma chuva dos infernos”,   brinca o sempre bem-humorado Luarlindo.

Entre as décadas de 60 e 70, passou pelos jornais ‘O Globo’, ‘Luta Democrática’, ‘O Dia’, ‘Gazeta de Notícias’, ‘O Jornal’, ‘Folha de São Paulo’, ‘Diário de Notícias’, ‘Diário Carioca’ e ‘Jornal do Brasil’, este, nos anos 1980. 

Atuou também nas revistas ‘Manchete’, ‘Fatos e Fotos’ e ‘Amiga’. Na TV, colaborou com a ‘TV Globo’, logo nos primeiros anos de Globo Repórter.

No ‘O Dia”, desde 1970 acompanhou o desenvolvimento do jornal, do chumbo quente até as mais avançadas tecnologias de comunicação e impressão. Em três passagens pelo jornal, trabalhou em várias editorias: Reportagem Policial, Cidade, Turismo, Política e até uma breve passagem pela Editoria de Esporte.

Na redação, no segundo andar do jornal, entre repórteres, diagramadores, redatores, copidesques, revisores, editores e subeditores, fazia de tudo:  telefonava, escrevia e apurava, tudo ao mesmo tempo. 

Já se disfarçou de mendigo, lixeiro e até soldado da PM para fazer suas matérias. Trabalhou em casos como o dos bandidos Lúcio Flávio, Cara de Cavalo, Mineirinho, entre outros. Foi assim que conquistou três “Prêmios Esso”. Trabalhou com o Barão de Itararé, Nelson Rodrigues, Léo Montenegro e  Lúcio Natalício, o Natal, outro jornalista da velha guarda que marcou época na cidade e no diário “O Dia”. 

Está em sua terceira passagem por “O Dia”, esta última desde 1992. 

Nas duas primeiras, trabalhou ainda sob a gestão do ex-governador Chagas Freitas, quando o jornal tinha um perfil popular, conhecido pela população carioca como “o jornal que se espremer sai sangue”, tamanha a quantidade de notícias de crime contidas nas matérias. A mudança no perfil do jornal ocorreu em 1988, quando ‘O Dia’ passou a ser direcionado para as classes A e B, já sob a gestão de Ary de Carvalho.

Luarlindo é sempre o primeiro a chegar à redação, pontualmente às 6h já estava na sala de apuração checando tudo o que acontece na cidade, de Santa Cruz à Urca, com um entusiasmo juvenil, um bom humor contagiante e um faro jornalístico apuradíssimo. E raro.

Os colegas ao longo da carreira são incontáveis. Os amigos e os casamentos, também. Boêmio e gozador, tinha um mantra preferido: ‘Brahma na jogada!’.

Inteligente e espirituoso, criou o ‘Plantão de Notícias’. Como o Luarlindo não queria saber de palco, mas de redação, o espetáculo que conta os ‘causos’ da nossa profissão, seguiu apresentado por Maurício Menezes. 

Maurício Menezes é outro fã de Luar. E reconhece a importância do jornalista não apenas para a imprensa brasileira, mas para sua vida profissional e particular: “Gênio da ironia, da gozação e da chacota, Luarlindo é o Woody Allen da imprensa brasileira. Se eu tivesse que pagar 10 centavos cada vez que me diverti com ele, deixaria arruinada as próximas cinco gerações de Menezes!”, brincou.

Quem lê algo sobre a competência e a proatividade do Luarlindo, aos 78 anos, acha que é mentira ou exagero. Não é. A inteligência para o humor e para a sacanagem e a presença de espírito é única. 

Uma das muitas  histórias que Luarlindo gosta de contar é a que  estava na audiência de conciliação com a ex-mulher, quando a juiz virou-se para ela e disse “Minha senhora, eu vou lhe dar três salários mínimos de pensão”. 

Luarlindo, mantendo a reverência que convém perante um magistrado, mas com o talento de quem não perde a piada, feita de preferência com a própria desgraça, levantou o dedo polegar em apoio: “Muito bem, meritíssimo, quando eu puder, eu lhe ajudo”.

“Tenho diverticulite, duas hérnias, catarata, e um fígado zangado. Fiz uma loucura recentemente e isso tem me preocupado: resolvi tomar juízo e larguei a esbórnia. Tô com medo de não prestar. Mas vou morrer na redação que é o meu lugar. Morrer em casa é muito chato”, diz.

Ediel Ribeiro
Jornalista, cartunista, poeta e escritor carioca. É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG) e Diário do Rio (RJ) Autor do livro “Parem as Máquinas! - histórias de cartunistas e seus botecos”. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) dos romances "Sonhos são Azuis" e “Entre Sonhos e Girassóis”. É também autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty", publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ), desde 2003, e criador e editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!"

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