Foto: Divulgação

Eu tinha um bar em Ramos, perto da quadra do Bloco Cacique de Ramos, na Rua Uranos.

Quando acabava a roda de samba, de madrugada, os pagodeiros passavam por lá pra tomar a saideira.

Menos o Bira Presidente, que não bebia – mas gostava tanto de boteco que em 1975, juntamente com João e Anita (pais do Dudu Nobre), fundaram, na Vila da Penha, o primeiro bar com pagode de mesa.

Em compensação, o irmão, Ubirany – inventor do repique – tomava todas. E não caía. Saía todo mundo ruim, e ele, reto.

Todo mundo bebia, no Cacique de Ramos: Ubirany, Sereno, Neoci, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Luiz Carlos da Vila e, principalmente, Mussum – o ex-Trapalhão, outro filho do Cacique.

Mussum teve origem humilde: nasceu, Antônio Carlos Bernardes Gomes, no Morro da Cachoeirinha, no Lins de Vasconcelos, zona norte do Rio de Janeiro.

Mudou-se para São Paulo e fundou o grupo Os “Sete Modernos”, que deu origem aos “Originais do Samba”. Com o grupo, gravou no total 13 álbuns, e obteve vários sucessos. Deixou o grupo para integrar “Os Trapalhões”.

O sambista era frequentador assíduo da quadra do Bloco Cacique de Ramos. Era amigo de todos. Cantava, tocava e tomava porres de proporções bíblicas com a turma.

Mussum, quando bebia, tinha uma brincadeira que perturbava todo mundo: Era o ‘Tá com a morte’. Tipo um pique. Ele batia no braço de um e gritava: ‘Tá com a mortis’.

O sujeito só se livrava da tal da morte do Mussum quando conseguia bater em outra pessoa e dizer ‘Tá com a morte’.

E numa dessas palhaçadas de ‘Tá com a morte’, ele dançou.

Passou a morte para a pessoa errada.

Foi para cima do Neoci (ex-integrante do Grupo Fundo de Quintal, que faleceu em 1981, filho do compositor João da Baiana), bateu no ombro dele e mandou: “Tá com a mortis”.

Neoci, aquela altura, já estava chamando urubu de meu louro e não conseguia passar a morte para ninguém.

E Mussum caindo em cima dele, tirando sarro a noite toda.

Já de manhã, Neoci sacou uma pistola e falou: ‘Mussum, vem cá’. Apavorado, Mussum se aproximou. Neoci bateu com a arma no ombro dele e falou: ‘Tá com a morte’ .

Mussum nunca mais passou a morte pra ninguém.



Toda manhã o resumo do Rio de Janeiro

Ediel Ribeiro
Jornalista, cartunista, poeta e escritor carioca. É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG) e Diário do Rio (RJ) Autor do livro “Parem as Máquinas! - histórias de cartunistas e seus botecos”. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) dos romances "Sonhos são Azuis" e “Entre Sonhos e Girassóis”. É também autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty", publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ), desde 2003, e criador e editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!"

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