O Rio está ficando mais sóbrio e mais chato.

Depois dos bares Amarelinho, Baródromo, Fellini, Aconchego Carioca, Navegador, Hipódromo e Comuna, a tradicional Casa Villarino, na Rua Calógeras, no centro do Rio, outro ícone da boemia etílica do Rio de Janeiro, fechou as portas, na última segunda-feira (16).

A casa é mais uma em uma extensa lista de estabelecimentos – muitos com décadas de história – que não sobreviveram à pandemia do Coronavírus na cidade.

Quando foi criada, por espanhóis, em 1953, a Casa Villarino funcionava como uísqueria – chegou a ganhar a fama de “A Rainha do Whisky” – e só abria a partir das 18h.

O bar foi ponto de encontro de grandes nomes da nossa música, na época áurea do rádio. Artistas, boêmios, jornalistas, cartunista, escritores, políticos e personagens da boemia carioca eram frequentadores da casa.

Em um painel nos fundos do bar, tem as imagens de boêmios ilustres que frequentavam a casa, entre eles, Ary Barroso, Di Cavalcanti, o escritor chileno Pablo Neruda, Fernando Pamplona, Rubem Braga, Sérgio Porto, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Haroldo Costa, Oscar Niemeyer, Lúcio Rangel, Paulo Mendes Campos e Caymmi, entre outros bambas.

Reduto de intelectuais, o salão do restaurante de 74 lugares, com seu piso de pastilhas, mesas de tampo de mármore e cadeiras estofadas com couro vermelho, foi palco de um dos mais emblemáticos encontros da música brasileira. Foi lá, numa das mesas da antiga uísqueria, que Tom Jobim foi apresentado a Vinícius de Moraes, pelo jornalista Lúcio Rangel, para musicar a peça “Orfeu da Conceição”.

O jovem Antônio Carlos Jobim, de apenas 27 anos, que era pianista da noite, e andava cheio

de contas para pagar, quis logo saber: “Vai ter algum dinheirinho?”

A peça que transpunha o mito grego de Orfeu e Eurídice para o Carnaval do Rio de Janeiro e para o morro carioca, estreou, em 1956, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com cenário de Oscar Niemeyer.

Três anos depois, o diretor francês Marcel Camus adaptou a peça para o cinema, conquistando o Globo de Ouro, o Oscar e a Palma de Ouro, em Cannes.

Foi lá, também, que se ouviu pela primeira vez o termo “Bossa Nova”, que depois deu origem ao estilo musical.

Vinicius era habitué do bar, onde inventou o “gabarito fosfórico”: um medidor de dose de uísque que se tornou famoso, feito com uma caixa de fósforos Beija-Flor colocada em pé ao lado do copo.

O Villarino era um dos poucos bares do centro que tinha a cerveja Cerpa gelada e a simpatia do garçom Severino, que ganhou o apelido de Marlon Brando, graças à semelhança com o ator americano.

O boteco também era frequentado por cartunistas. Eu e o saudoso jornalista e cartunista Adail, passávamos por lá quando saíamos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Jaguar também era frequentador assíduo. Aliás, Jaguar tem histórias hilárias vividas nas mesas do Villarino. Uma delas, dá conta de que foi lá que Jaguar lançou a candidatura – que nunca vingou – do amigo Ziraldo à Academia Brasileira de Letras.

O papo que rolou, foi mais ou menos esse:

Jaguar: “Ziraldo, você já pensou alguma vez em se candidatar à Academia Brasileira de Letras?”

Ziraldo : “Quê isso, Jaguar. Imagina. Só quando eu ficar velho.”

Jaguar: “Mas você está velho pra caralho, você tem a minha idade, porra!”

Ziraldo: “Não, só quando eu estiver com oitenta e poucos anos, e já sei que tu vais lançar a minha candidatura só pra me sacanear. Mas talvez até eu entrasse, entendeu? Porque eu não tenho INPS, não tenho porra nenhuma. E aquilo ali pelo menos me garantiria um enterro decente. Mas, eu não sei. Eu não digo que não entraria, entendeu? Por que não? Qualquer coisa, o Villarino fica bem em frente.”

Ziraldo não entrou para a ABL, mas o ex-senador Roberto Campos, desafeto do Jaguar, entrou, em 1999. A posse do baluarte do liberalismo econômico, na vaga do comunista Dias Gomes, amigo do Jaguar, desagradou o editor do O Pasquim.

“O Dias Gomes era meu amigo, um cara formidável, boa praça pra cacete. Aí o Roberto Campos foi eleito para a vaga dele. Então, eu disse que, se ele entrasse, eu ia lá jogar ovos nele”.

O Arnaldo Niskier, então presidente da ABL, que é um bom sujeito, disse que eu não ia ter coragem. Aí, pronto! Fui numa loja, aluguei uma fantasia de Dom Pedro I, que o Tarcísio Meira usou num filme. Fui pro Villarino e fiquei lá tomando coragem e uísque.

“Queria lançar 12 ovos podres nele. Mas, na hora H, inibido pela presença de seguranças, comprei meia dúzia, cozidos, e joguei três na escadaria e fui comer os outros ovos do outro lado da rua, no Villarino, fantasiado de Dom Pedro. Com cerveja, claro. Esse foi o meu protesto. Não sou corajoso, morri de medo dos seguranças.” – confessou, rindo.

Espero que não se fechem mais bares como o Villarino na cidade; porque, se bêbados são chatos, sóbrios, são insuportáveis.

*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.

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