Ronald Russel Wallace de Chevalier, o Roniquito, era um dos personagens mais amados e odiados da Ipanema dos anos 60 e 70.

Roniquito, foi um jornalista, economista e boêmio, nascido em Manaus no ano de 1937 e radicado no Rio de Janeiro.  Era filho do médico, poeta e escritor Ramayana de Chevalier e irmão da atriz, jornalista e escritora Scarlet Moon.

Trabalhava no Ministério da Fazenda e escrevia uma coluna semanal no jornal ‘Correio Braziliense’. Falava inglês e francês, gostava de música clássica, sabia poetas inteiros de cor e conhecia muita literatura. Era um apaixonado por William Faulkner.

Sóbrio, Roniquito era um gentleman. Bêbado, tinha um temperamento bélico. Ainda assim, fez muitos amigos. Com alguns deles, fundou a Banda de Ipanema e agitou a noite carioca.

Não conheci, pessoalmente, Roniquito – sorte a sua, diria Jaguar, que tentou acompanhá-lo por uma noite e foi expulso de quatro bares – mas conheci muitas de suas histórias, contadas pelos amigos, Otélo Caçador, Ruy Castro e Jaguar. 

Uma dessas histórias, quem me contou foi o cartunista Otélo Caçador, no bar ‘Degrau’, no Leblon.

Roniquito era tão corajoso quanto frágil fisicamente. Em uma briga que  teve com o cartunista levou a maior surra de sua vida. Enquanto espancava Roniquito, Otélo perguntou-lhe: “Chega ou quer mais?”. E Roniquito, no chão, com o sapato do Otélo sobre seu pescoço, ainda conseguiu olhar para cima e articular: “Cansou, filho da puta?”.

Outra que se passou no ‘Degrau’. O humorista Luiz Carlos Miéle, diz que foi no ‘António’ s’. Mas, quem me contou foi o cartunista Jaguar, outro sobrevivente daquela brava geração etílica. Então, foi no ‘Degrau’.

“Ele era um suicida”, define o cartunista. “Quando não tinha ninguém para esculhambar, esculhambava o copo”, exagera. Certa vez estavam os dois sentados no bar ‘Degrau’, depois de extensa via-sacra pelos botecos da Zona Sul, quando se aproximou da mesa uma madame falando maravilhas de um espetáculo que acabara de assistir, do coreógrafo Maurice Béjart. “Eu amo Béjart, ele é divino”, dizia. 

Roniquito, possuído, desbancou a granfina: “Eu acho Béjart uma merda, eu gosto é de Fudet”.

A madame, indignada:

– Que grossura! Estou falando do coreógrafo Maurice Béjart!

E Roniquito na maior candura:

– E eu do bailarino Pierre Foudet!

Evidentemente, só ele conhecia o tal bailarino.

Esta, se passou com o poeta Ferreira Gullar. O poeta foi a um debate sobre arte contemporânea. Em dado momento, um dos palestrantes falava de seu interesse pelo aspecto metafísico da arte. Neste momento, Roniquito, que ainda não conhecia o poeta, pediu um aparte. O palestrante concedeu, e ouviu o seguinte: “Eu só queria dizer que a única coisa metafísica que eu conheço é o cú”. 

Enquanto ele era retirado da sala por dois seguranças, Gullar perguntou: “Quem é ele?”  “É o Roniquito, ele vive criando confusão em todo canto”, conta Gullar, que mais tarde viria a se tornar amigo do Roniquito.

Scarlet Moon conta na biografia que escreveu do irmão “Dr. Roni & Mr. Quito – A Vida do Amado e Temido Boêmio de Ipanema”  (Ediouro – 252 págs.) que certa noite, Ladrões invadiram o ‘Antonio’ s’, principal reduto da boemia carioca, e começaram a esvaziar os caixas. Assustados, todos ficaram em silêncio, exceto Roniquito que interrompeu a ação diversas vezes insistindo para que os ladrões levassem também uma lista de pessoas e valores ao lado da caixa registradora. Era a relação dos devedores do bar: Leva o “pendura!”. Leva o “pendura!” 

Em seu livro, Scarlet conta, ainda, que naquela época de sexo, drogas e bossa nova, Roniquito passou a usar cocaína. Certo dia, em um flagrante mal escondido, Roniquito acabou comprometendo Scarlet, que acabou presa por porte de droga. Roniquito ainda foi até a delegacia dizer que a droga era dele, mas não adiantou. Scarlet passou três meses e meio presa e alguns anos sem falar com o irmão. 

Nos anos 60, Walter Clark contratou Roniquito para trabalhar na administração da TV Rio.  Quando Clark saiu para fazer a TV Globo, em 1965, levou Roniquito com ele. 

Dizia-se que a única utilidade de Roniquito era beber uísque com Walter Clark durante o expediente – escondido, em xícaras de chá. 

Foi, nessa época, que ao ser perguntado sobre o que fazia na TV Globo, Roniquito respondeu, cunhando a expressão que ficou famosa: “Sou aspone. As-po-ne. Assessor de porra nenhuma!”  

A relação de Roniquito com os escritores era cruel. Ao ler os originais do romance  “Crônica da Casa Assassinada”, chamou o escritor de  Faukner do Méier”.

Ao cruzar com Fernando Sabino num restaurante, Roniquito perguntou-lhe: “Fernando Sabino, quem escreve melhor, você ou Nelson Rodrigues?”.

Fernando Sabino gaguejou: “Bem… Nelson Rodrigues, é claro!”.

Mas Roniquito fulminou: “E quem é você para julgar Nelson Rodrigues?”.

Roniquito fez pior com o suave Antônio Callado, a quem perguntou se já tinha lido Faulkner. Antônio Callado disse que, evidentemente, já tinha lido. Roniquito então disse: “Bem, se já leu Falkner, você sabe que você é um bosta!”.

Quando Hugo Bidet morreu,  Roniquito foi ao velório do amigo. Bêbado que nem um gambá, entrou na capela errada e, diante da família do morto, compungida, esbravejou: “Esse defunto é horroroso! O nosso é muito mais bonito!”. Levou uma surra. Só o defunto não bateu no Roniquito.

Roniquito era um bebum inconveniente. Quando entrava no ‘Jangadeiro’ ou no ‘Antônio´s’ e não encontrava ne nhum amigo dizia: “O lugar está cheio de ninguém!”. 

Em dezembro de 1981, Roniquito foi atropelado em frente ao ‘Antonio’s’. Um fusca o acertou, quebrou-lhe as duas pernas. O atropelamento lhe seria fatal. Roniquito quebrou as pernas em vários lugares, teve sequelas graves e foi submetido a seis operações durante o ano de 1982.

Roniquito teve um infarto fulminante, em janeiro de 1983. Estava sozinho em seu apartamento, no Posto 6. Só o encontraram horas depois.

Roniquito deixou sua marca como boêmio num Rio de Janeiro que não existe mais.



Toda manhã o resumo do Rio de Janeiro

Ediel Ribeiro
Jornalista, cartunista, poeta e escritor carioca. É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG) e Diário do Rio (RJ) Autor do livro “Parem as Máquinas! - histórias de cartunistas e seus botecos”. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) dos romances "Sonhos são Azuis" e “Entre Sonhos e Girassóis”. É também autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty", publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ), desde 2003, e criador e editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!"

1 COMENTÁRIO

  1. O fusca que o atropelou era dele, um amigo foi buscar no estacionamento e acidentalmente o atropelou em frente ao bar. Ironia final de otras que fizeram parte da sua vida.

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