O cartunista piauiense, Albert Piauhy, dia desses, me perguntou: “Porque você não escreve sobre o cartunista Coentro? 

Lembrei que, se vivo, o cartunista, chargista e quadrinista, Coentro faria 72 anos, no próximo dia 7 de setembro. 

Apesar de ter sido um dos grandes cartunistas brasileiros, ter criado o jornal ‘O Pingente’ e ter colaborado com diversos jornais e revistas do país, pouco se sabe sobre ele. Na internet, não há nada. Ou quase nada.

Não o conheci pessoalmente. Acho que não. Mas conheci muito o seu trabalho, principalmente dos tempos de ‘O Pasquim’, onde ele publicava suas charges e cartuns com seus personagens de cabeças pontudas e com cara de monstros.

Ele tinha o nome de uma erva que muita gente odeia: coentro.

Mas todo mundo gostava do cartunista Coentro. Era educado, gentil e generoso.

Nas redações, corria um boato que ele tinha esse nome porque uma vez fez um cigarro de coentro, pensando que fosse maconha. Mas era só mais uma das histórias que os jornalistas contavam nos botecos, nas madrugadas, depois do fechamento dos jornais. Coentro era seu sobrenome.

Inteiro, era João Carlos de Oliveira Coentro, nascido em 7 de setembro de 1949, no Rio de Janeiro. 

Iniciou profissionalmente em 1971, no jornal Última Hora, do jornalista Samuel Wainer. Passou ainda pelo ‘Jornal do Brasil’, ‘O Pasquim’, e por diversos jornais e revistas do país. 

Seu personagem de maior sucesso foi ‘Bumbá, o Boi’, uma história em quadrinhos, que contava com personagens do folclore como o Caipora e o próprio boi Bumbá,  e apareceu em 1973, no suplemento infantil ‘Caderno I’, do ‘Jornal do Brasil’. 

Em 1975, convidado pelo Fortuna, foi fazer, junto com Guidacci, e Nani, a revista ‘O Bicho” – uma revista que revolucionou os quadrinhos brasileiros, editada pela Codecri, editora do Pasca. Lá, o ‘Boi Bumbá’ tornou-se personagem fixo. 

Na revista, a linha de histórias infantis foi abandonada. Os personagens  assumem um tom de crítica social, à indústria cultural e aos problemas criados pela urbanização.

O cartunista foi, junto com Guidacci, Duayer, Nani e Jésus Rocha um dos criadores do tablóide de humor ‘O Pingente’, um jornalzinho anarquista, misto de “O Pasquim”, “Harakiri” e “Village Voice”.  

Coentro era muito louco. Em uma das muitas reuniões que fazia em sua casa, no Leblon, numa noite, a casa estava cheia de amigos, todos já muito loucos. Num canto da sala, um jovem cantava, tocando um violão. Coentro foi ficando puto com a cantoria, a certa altura ele, Duayer e outros doidões, começaram a jogar almofadas no cantor. A música parou. Tempos depois, o cantor viria a se tornar um dos grandes nomes da MPB. Era Alceu Valença.

Quando Alceu lançou seu primeiro LP (para os mais jovens, LP era um discão preto com um buraco no meio, que se tocava em uma vitrola, outra peça que hoje só existe em museus), ainda arrependido pela cena das almofadas, Coentro e Duayer levaram Alceu no Pasquim. Coentro queria que o Jaguar desse uma força para o disco do Alceu. Na época, era uma puta divulgação sair no Pasca. Nunca deram nem uma linha sobre o Alceu Valença. Era época de Vinicius, Chico Buarque, Toquinho, Caetano, Gil, os queridinhos da patota. Coentro nunca perdoou o jornal. 

O artista participou da ‘Antologia Brasileira de Humor’ (L&PM – 1976) e da ‘Enciclopédia del Humor’ (Colômbia – 1975).

Coentro faleceu em 13 de janeiro de 1989, aos 40 anos, em Bali, na Indonésia, vítima de Aids. 

Jornalista, cartunista, poeta e escritor carioca. É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG) e Diário do Rio (RJ) Autor do livro “Parem as Máquinas! - histórias de cartunistas e seus botecos”. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) dos romances "Sonhos são Azuis" e “Entre Sonhos e Girassóis”. É também autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty", publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ), desde 2003, e criador e editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!"

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