Empresários patrocinam projeto de revitalização do Centro do Rio, inspirado em Nova York

A Aliança Centro Rio conta com ajuda de empresários e investidores para desenvolver todo o potencial da região central da cidade após o período de pandemia.

Trecho da Avenida Rio Branco, na região central do Rio de Janeiro - Foto Cleomir Tavares/Diario do Rio

Passando por um período de reestruturação, após a passagem do auge da pandemia do Coronavírus, o Centro do Rio tem atraído olhares atentos por conta do seu potencial econômico e imobiliário, localização privilegiada e farta infraestrutura.

Primeiro, o prefeito criou o Gabinete de Crise do Centro da cidade, por sugestão de investidores privados que têm no Centro Histórico e Financeiro parrudos investimentos. Logo após, o projeto #ReviverCentro, lançado com fartos incentivos ao adensamento residencial da região.

Spin-off destas iniciativas, mais novo dos projetos apresentados para a região e batizado de Aliança Centro Rio, um projeto tem como proposta replicar na Cidade Maravilhosa uma experiência conhecida no exterior como Business Improvement Districts (BID). Tudo isso ocorre em meio ao retorno ao trabalho presencial, e surfando na onda de otimismo que começa a surgir com tantas novidades sobre a região que é berço da civilização brasileira.

Os BIDs são distritos comerciais geridos por meio de parcerias entre iniciativas pública e privada nas quais proprietários e empresários que integram ou têm negócios na área contribuem para manutenção suplementar e desenvolvimento desses espaços. Grandes metrópoles do mundo, como Nova York e Londres adotam esse modelo de gestão compartilhada, que teve início no Canadá, nos anos 60.

Foto Cleomir Tavares / Diario do Rio

Na Capital Fluminense, a Aliança teve início em setembro, e essa nova aposta na área central da cidade é coordenada pela associação Rio Negócios e o Instituto Rio 21, organização de pesquisa que levanta dados a fim de nortear as melhorias que autoridades e investidores irão promover na cidade. Números de hoje mostram que a região concentra mais de 30% das empresas do Rio, que movimentam R$ 560 bilhões por ano, gerando mais de 300 mil empregos.

A ação foi dividida em duas fases, onde uma equipe do Instituto Rio21 mapeia os principais problemas do Centro. E não são poucos: o monitoramento inclui desde calçadas avariadas e iluminação pública deficitária, até ambulantes exercendo a profissão ilegalmente. A identificação das mazelas sociais, como situação dos moradores de rua, também entra no radar do monitoramento. Depois de averiguada, a prefeitura ou o órgão responsável é acionado para sanar o problema. Semanalmente, é feita checagem e conferência de cada falha comunicada, para ver se foi devidamente sanada, gerando relatórios que sintetizam a rotina da região.

Claudio André de Castro, diretor da Sergio Castro Imóveis – Foto: Cleomir Tavares/Diário do Rio

Uma região como o Centro, com menos de 43.000 moradores no momento, e sendo utilizada apenas 5 dias por semana e 8 horas por dia, tem menos gente ligando pro 1746 e fazendo queixas de problemas encontrados”, diz o empresário Cláudio Castro, da tradicional imobiliária Sergio Castro, proprietária de casarios, lojas e salas na região e membro fundador da Aliança. Castro aposta que a Prefeitura não só atua onde é mais provocada, como também precisa de ajuda na zeladoria e controle de uma área que funciona apenas em horário comercial.

Na fase atual, a nova empreitada tem percorrido as vias do Centro, fazendo um trabalho minucioso do que pode ser revitalizado. Algumas ações também já começaram a ser postas em prática, como a compra de tendas que servirão de apoio a 20 bases operacionais do programa Centro Presente. A proposta de conectar ao 5º BPM (Praça da Harmonia) às câmeras de segurança de prédios da região foi incorporada ao projeto.

Um Centro Histórico precisa, acima de tudo, ser um ambiente atrativo e amigável para os negócios. Só assim se manterá vivo”, diz Cláudio Castro. Para o empresário, se a iniciativa privada não colaborar e cobrar, as autoridades ficam sem um “termômetro”.

Distrito de Arte do Porto – Foto: Rafa Pereira / Diário do Rio

Para financiar a ideia, o Aliança Centro Rio conta com investidores que se organizam em entidades não lucrativas. O grupo é formado por cerca de 50 cotistas iniciais, que pagam mensalmente R$ 1 mil por edifício comercial, e cotas de R$ 500 para comerciantes. A ideia é ampliar o projeto a partir de 2022, com a entrada de novos cotistas, o que viabilizaria o financiamento de intervenções urbanas, à semelhança dos BIDs, além da promoção da atratividade da região e do monitoramento de sua zeladoria. Dentre os membros estão grandes proprietários de imóveis na região, como Opportunity, São Carlos Empreendimentos, Tishman Speyer e diversos outros pesos-pesados, além de grandes edifícios como o Linneo de Paula Machado e o Shopping Paço do Ouvidor. A gestão dos trabalhos cabe, hoje, ao executivo Marcelo Haddad, da Rio Negócios.

E este não é a único projeto em andamento voltado para o desenvolvimento da cidade. O elogiado programa urbanístico da prefeitura Reviver Centro, que, entre as principais propostas, cria regras mais flexíveis para estimular a ocupação com moradias, atua paralelamente ao Aliança Centro Rio, como um abrangente projeto de ressignificação da área. O programa vem aquecendo o mercado imobiliário da região central, por conta dos grandes incentivos dados à construção e conversão de imóveis para o uso residencial no bairro. Dentre estes incentivos, está a concessão de potencial construtivo em bairros mais nobres para que investe em residencial no Centro.

Plano tem aval da Prefeitura

Foto Cleomir Tavares / Diario do Rio

O Aliança Centro conta com o apoio da Prefeitura do Rio, tanto que existe um projeto de lei no congresso, de autoria do hoje secretário de Fazenda e Planejamento municipal, Pedro Paulo, para tentar regulamentar este modelo no Brasil, que ajudaria muito as cidades brasileiras.

Segundo Pedro Paulo, já houve tentativas de trazer para o Brasil o modelo do BID, principalmente por entidades empresariais. Um exemplo que ele cita é o projeto chamado de Área de Revitalização Econômica (ARE), liderado pela Associação Comercial do Rio de Janeiro, que em 2006 apresentou uma proposta de revitalização da avenida República do Chile, no centro da cidade. A falta de uma regulamentação para a constituição das AREs no País acabou dificultando a implantação do projeto. “A iniciativa da ARE contou com o assessoramento do Diretor de um dos principais BID norte-americanos, a pesquisa da experiência e melhores práticas em visitas a BIDs nos EUA, Canadá e África do Sul e o suporte de diversos colaboradores”, destaca Orlando Lima, um dos pioneiros do BID no Brasil.

A agenda urbana brasileira ainda é um campo carente de visão, políticas públicas, investimentos e novos modelos de governança”, afirma Pedro Paulo.

Washington Fajardo
Washington Fajardo

O secretário de Planejamento Urbano do Rio, Washington Fajardo, uma das lideranças mais importantes do município nesse trabalho de remodelamento da região central da cidade, avalia o potencial da empreitada.

Nesse modelo, o setor privado – proprietários de imóveis comerciais complementam serviços públicos como limpeza, conservação, paisagismo, mobiliário urbano, etc, além de promover e divulgar sua região. [os BIDs] são muito comuns e estão por detrás do sucesso das áreas urbanas mais visitadas e vivas do planeta. BIDs existem nos EUA, Canadá (onde surgiram), México, Reino Unido, Espanha, Alemanha, África do Sul, Sérvia, Singapura, Coréia do Sul, Austrália, Nova Zelândia. Na cidade de Nova York existem 78 BIDs. Nos EUA são mais de 2500″, revela.

Antonio Mariano

Cientista político e diretor executivo do Instituto Rio 21, Antonio Mariano conta que a ideia começou a ganhar forma em março deste ano. Segundo ele, o intuito era idealizar algo que estabelecesse um diálogo entre os atores que fazem parte da rotina do local e auxiliar na revitalização do Centro.

Atualmente contamos com vários patrocinadores, que auxiliam na viabilização do projeto e estamos em busca de novos apoiadores para expandir tanto a área de atuação, que ainda não abarca o Centro todo, mas também o escopo. Queremos, além de mapear os problemas, conversar com os atores que vivem a região e buscar soluções de políticas públicas que possam ser implementadas. Além disso, também queremos que a iniciativa privada apareça de forma mais presente na conservação da cidade, realizando reparos pequenos, rápidos e baratos, mas que fazem toda a diferença para o cidadão. Sabemos que muitas vezes o poder público encontra dificuldades em dar respostas rápidas, por isso essa ideia”, diz ele, que completa:

O Aliança não é a invenção da roda, tanto que já existe em outras cidades do mundo como Londres e Nova Iorque. Mas é sim uma novidade para nós, essa junção do público com o privado, em prol da melhoria de um recorte geográfico da cidade. Aqui todos tem a ganhar. O cidadão ganha um lugar melhor para se viver e trabalhar, o privado vê seus investimentos retornarem com o crescimento econômico da área e a Prefeitura pode focar em questões maiores e mais importantes”, finaliza.

Apenas no balanço das primeiras seis semanas, o Aliança Centro Rio identificou 512 problemas, classificados por cores de acordo com o nível de gravidade: vermelho (alto risco de acidentes, moradores de rua, ambulantes e espaços abandonados); amarelo (problemas de médio risco, como necessidades de recapeamento ou recuperação de calçadas) e verde (baixo risco, como falhas de sinalização e problemas de trânsito). Tudo é organizado em relatórios detalhados, e de fácil entendimento.

Um dos vereadores mais atuantes na cobrança por melhorias na cidade, Pedro Duarte (Novo), reforça o coro pela divisão de atribuições entre as iniciativas pública e privada na gestão dos espaços urbanos.

“Precisamos cada vez mais modernizar e dinamizar a gestão feita pelo poder público, inclusive do espaço urbano. A sociedade civil organizada pode compartilhar a gestão urbana, assumindo deveres e compromissos que seriam da Prefeitura, mas de forma mais ágil e eficiente.

Crescimento sustentável e preservação do patrimônio histórico preocupam Iphan-RJ

Mas nem tudo são flores, ao longo dos últimos anos, diversos equipamentos históricos e culturais do Centro do Rio, que poderiam servir de mola propulsora para o progresso da área, foram deixados de lado pela administração pública. O Superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Rio de Janeiro (Iphan-RJ), Olav Schrader, chama atenção para a necessidade de se alinhar o avanço da cidade com a sustentabilidade do patrimônio cultural e histórico do Centro.

Foto Cleomir Tavares/ Diario do Rio

“Há um grande potencial de crescimento sustentável da cidade do Rio de Janeiro através do resgate da sua história e da sua autoestima. É importante implementar, a longo prazo, a sustentabilidade do Patrimônio Cultural para que o uso dos bens culturais se integre ao dia a dia da sociedade. Assim, além de ser fonte de orgulho e de identidade para a população, o Patrimônio pode consistir também em um vetor de crescimento econômico virtuoso. O turismo exemplifica uma cadeia produtiva que pode ser movimentada pela gestão sustentável deste Patrimônio. Ainda poderíamos mencionar outras cadeias, como a da cultura e os setores imobiliário, residencial e comercial, com potencial de influenciar em cascata outros setores econômicos. O Rio é um dos principais destinos turísticos do Brasil e ostenta monumentos de importância ímpar para a história do país e do mundo”.

Oposição atenta

Vlt passa pela região portuária – Foto: Rafa Pereira / Diário do Rio

Vereador do Rio pelo Psol, Chico Alencar reconheceu a importância de um projeto que resgate o Centro do Rio nesse panorama de pós-crise pandêmica, mas destacou que os papéis, tanto da administração pública como da privada, precisam estar bem definidos.

“O Projeto é positivo, desde que não dê margem à privatização de espaços públicos, que são da coletividade, e que não leve o Poder Público a se acomodar, ficando dependente dos aportes privados para tudo”, disse Alencar.

A associação ao projeto pode ser feita por qualquer empresa, condomínio, lojista ou comerciante da região, e para tanto basta visitar o site da Aliança, aqui.

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16 COMENTÁRIOS

  1. Quando à concessionária porto novo,administrava à região portuária ela fazia um bom trabalho com todos os moradores e empresários dá região, tomara que ela volte à administrar à região!

  2. Enquanto a desordem urbana for tolerada e romantizada em prosa e verso, enquanto ser favelado e morar na favela for considerado “cult” pela dita alta cultura, enquanto os negócios não tiverem seus direitos respeitados, enquanto a Prefeitura e o Governo do Estado preferirem dar beiço nos fornecedores para poder gastar mais… Não iremos sair do estado de decadência! Quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta de riqueza. Riqueza vem dos negócios e dinheiro não aceita desaforo. Mas vemos o quê? Um MP que vai à Justiça – e esta dá-lhe a decisão – para pedir que não se multe quem não paga o VLT Carioca! Assim não dá.

    Avante, Rio de Janeiro! Tá difícil mas ainda dá jeito para daqui a 40 anos.

  3. Apoio! Nunca irei entender como uma cidade do porte e nível do Rio de Janeiro no cenário turístico mundial e da América Latina ainda não tem uma Times Square para chamar de sua. Pelo menos, uma rua com vários e excessivos letreiros luminosos para ser um ícone da cidade. O mal do carioca é achar que o Turismo é definido apenas pela Zona Sul, Bondinho do Pão de Açúcar, praias, Ipanema e Corcovado e Cristo Redentor

  4. Tirem os moradores de rua que a sujeira diminui, a segurança e preservação aumentam. Reformem todos os predios sob tutela do Iphan e criem corredores de turismo historico e de Igrejas, reforcem a segurança dos corredores, transformem predios recem reformados em espaços de eventos de alta cultura que atraem publico selecionado. Trabalho com 3 orquestras que precisam de salas e acabem com o ridiculo nazifascista passaporte sanitario que desestimula pessoas mais conservadores e turistas de paises que preservam a liberdade como Suécia a frequentarem esses espacos. Alem de nao prevenir nada pois os vacinados tanto transmitem quanto podem se infectar.

  5. Se querem atrair investidores e novos moradores, comecem por empresas de telecomunicações. Sou morador do Castelo e estamos reféns dos péssimos serviços da Oi e Vivo. A mesma Oi que oferece fibra ótica de 500MBps a várias cidades do interior do Estado, como Angra dos Reis, disponibiliza ao Castelo o arcaico e instável Velox de 10MBps (que mal chega a 6MPBps e cai com frequência). Alguma “força estranha” impede que as concorrentes Tim e Claro cheguem ao bairro. Como atrair para o bairro empreendedores e novos moradores com uma infraestrutura de comunicações tão precária?

  6. Antes de mais nada, a Prefeitura deve dar uma solução para os moradores de rua, que ficam lá nas portas dos nossos escritórios, recebendo comida de pessoas, fazendo ali necessidades, usando tóxicos, bebendo e outras coisas aqui não comentadas, chantageando transeuntes por dinheiro, com ameças, enfim, uma vergonha, dormindo ali, fazendo relações sexuais em público, ninguém vê isto??? Uma vergonha…os dirigentes municipais só pensam em Carnaval!!!

  7. Prefeitura e estado já investiram muito no centro do Rio nos últimos governos e continuam investindo e gastando. Esses fundos de investimentos que compraram centenas de imóveis no centro e aumentaram o aluguéis dos antigos ocupantes são um dos fatores da decadência do centro. O mundo está mudando. Se não criaram mais moradias o centro vai virar um bairro deserto.

  8. Não vejo esses caras da prefeitura junto com o prefeito super administrador se importando realmente com o desenvolvimento da cidade a começar pelo q a imobiliza de forma desgraçada q é o transporte. Enquanto as grandes cidades possuem uma vasta rede metroviária, o prefeito sempre seguiu a tendência de sei velho amigo Cabral e fez um BRT no lugar da linha 6 do metrô, projeto da década de 60. Sei q não é atribuição da prefeitura, mas ele ppderia muito bem pleitear pelo andamento. Como teeminar a linha 1 passando pela praça da Cruz vermelha até a Praça XV. Paes é preso a lógica rodviária infelizmente.

    • Ônibus, meu caro, a solução é o ônibus! Só as elites acham que pobre anda de metrô e VLT, os trabalhadores comuns só andam de ônibus e trem suburbano, e vão continuar assim por muitas décadas, metrô é excelente, mas é pra elite, nada contra, mas essa é a realidade que não querem enxergar. O cliente-consumidor q vai ao Saara vai de ônibus! Vc já viu pessoas cheias de compras e sacolas penduradas, saindo do Saara, e pegando metrô?????? Mas o prefeito nervosinho acabou com as linhas e os pontos finais no centro, isso faliu com os pequenos comércios e matou o centro. As obras eternas do VLT fecharam milhares de lojas, quem aguentaria obras na sua porta por 8 anos seguidos?????? Pra começar a revitalizar o centro precisa, necessariamente, voltar com as linhas de ônibus parando no centro do Rio.

  9. Depois que o foco dos empresarios da construção virou para Barra da Tijuca, ja vizeram varios projetos de revitalização do centro e nenhuma vingou. É igual aos projetos de revitalização das favelas mundam de nome e nada chega ao final. Em resumo no cemtro do Rio continua : o lixo, desleixo com o patrimonio da cidade , os camelos ,a inseguranção (principalmente apos as 19 horas), a decadencia do comercio (principalmente do SAARA que virou reduto de chineses), o fechamentos da lojas e restaurantes tradicionais. e varios outros ontros.

    • Verdade, revitalização de favelas não deu resultado NENHUM, basta ver que as favelas continuam do mesmo jeito, morro não é lugar pra se viver, só o traficante gosta porque é um lugar excelente para se defender da polícia, os serviços públicos não chegam por causa da geografia, isso é basilar, governantes corruptos gastaram bilhões em favelas, ou melhor, jogaram nosso dinheiro no LIXO!!!!!! Não deu em nada, toda e qualquer favela tem que ser removida, as florestas e matas nativas reconstruídas, os moradores favelados (99% pessoas de bem, trabalhadores e gente de família) tinham que ganhar financiamentos para comprar casa própria em terrenos planos, nada de DAR, mas sim FINANCIAR, as pessoas tem que pagar pelo dinheiro recebido, que é dinheiro do contribuinte. Cidades planas é onde o serviço público pode entrar, mas enquanto o Rio for cercado de favelas, qualquer ação de revitalização é enxugar gelo.

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