Foto: Antônio Scorza | Agência O Globo

Especialistas em saneamento temem que, com a chegada do verão, o abastecimento de água no Rio volte a ser comprometido. A preocupação é reforçada porque, dez meses após a crise hídrica, o projeto de um paliativo para a captação do Rio Guandu, o das “geobags”, não teve continuidade. A solução foi anunciada há cinco meses e, segundo o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), encontra-se em fase de revisão.

A poluição nas imediações da estação de tratamento da Cedae, em Nova Iguaçu, assusta. No Rio dos Poços, que deságua nas lagoas do Guandu, camadas de espuma revelam que resíduos do polo industrial de Queimados continuam sendo lançados na água. Um trecho do rio virou uma ilha artificial de garrafas PET cobertas por vegetação.

O biólogo Mário Moscatelli falou ao Jornal O Globo sobre a situação: “A geosmina foi um alerta. Só que nada foi feito. Passaram a colocar carvão na água, o que dá conta do cheiro e do gosto. Mas ainda chegam ao Guandu dejetos e resíduos industriais que descem por rios da Baixada. A estação não é para tratar esgoto. A solução é sanear a Bacia do Guandu, o que é estimado em R$ 1,4 bilhão.

O risco é que a situação se agrave durante o verão. Com as altas temperaturas da estação, há uma aceleração do processo de decomposição da matéria orgânica, que consome o oxigênio e libera nutrientes que propiciam o crescimento de algas, vegetais e microorganismos.

Em janeiro deste ano, a Cedae prometeu tirar do papel um projeto de transposição dos rios Ipiranga, Cabuçu, Poços e Queimados, que deságuam poluídos na bacia do Guandu. A obra, que levaria dois anos, previa a canalização dos rios por baixo da estação da Cedae, com escoamento após o ponto de captação. Continuaria havendo poluentes, porém, eles não passariam mais pela área de tratamento. O custo seria de R$ 92 milhões.

Em maio, surgiu a nova saída do Inea, que reduziria os custos e o prazo de execução. A ideia era usar “geobags”, gigantescos recipientes de material sintético, preenchidos com areia do Guandu, para bloquear a passagem de água das lagoas que recebem esgoto e resíduos industriais. Duas tubulações captariam essas águas, que seguiriam por debaixo da terra por 300 metros até o trecho do Guandu que fica após a estação. O projeto, de R$ 68 milhões, demoraria nove meses para ser concluído e seria financiado pelo Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam).

Porém, por fim, nada foi resolvido. O Inea informa que “é necessária a conclusão do estudo de viabilidade técnica e ambiental para a adoção de solução mais viável para a mitigação dos problemas que afetam o Rio Guandu”.

Durante a crise hídrica, a geosmina acabou levando a culpa. Mas o Laboratório de Microbiologia da UFRJ analisou por três meses a qualidade da água da área de captação da Cedae, estudando o material presente por meio do sequenciamento de DNA das amostras. A pesquisa encontrou forte presença de esgoto e de poluição industrial. E indicou que os organismos inicialmente identificados como geosmina são, na verdade, uma substância de estrutura parecida, a 2-MIB.

O engenheiro sanitário Adacto Ottoni, da Uerj, é mais um especialista que teme pelo pior no verão. Ele, contudo, é contra o projeto das “geobags”.

“Não existem dados técnicos recentes que informem quanto esses diques suportariam. Em caso de enchentes, o que segurariam? Uma solução de curto prazo seria desviar os rios logo depois das áreas urbanas, criando lagoas de estabilização para que fosse feita uma despoluição, onde seriam tratados de forma biológica antes de seguirem seus cursos em direção às lagoas do Guandu. Em relação ao polo industrial, teria que ser exigido que os resíduos fossem tratados”, ele afirmou ao Jornal O Globo.

Ottoni assessora o Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente (Gaema), do Ministério Público Estadual, que investiga a prática do crime contra as relações de consumo por causa da crise da geosmina. O órgão informa que os documentos apreendidos na sede da Cedae e na estação do Guandu estão sendo analisados.

Já a agência reguladora Agenersa aplicou multa de R$ 5,7 milhões à companhia. A empresa pode recorrer, mas tem até a próxima segunda-feira (09/11) para apresentar a Licença Ambiental da estação do Guandu e/ou o Termo de Ajustamento de Conduta que alega ter assinado com o Inea.

A Bacia do Guandu abastece oito municípios e cerca de nove milhões de pessoas da Região Metropolitana do Rio. A Cedae garante que, desde fevereiro, não há alterações com relação a gosto e odor na água que produz. Afirma também que realiza testes diários e que os resultados estão dentro dos padrões.

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