Foto: Felipe Lucena

O céu do Rio de Janeiro, normalmente azul e ensolarado é para todos. Mas, dependendo da parte da cidade onde você se encontra, a vista para ele pode ser atrapalhada por muitos fios. E esse está longe de ser o maior dos problemas do excesso de cabeamento em postes.

Bem mais comuns nas zonas Norte, Oeste e favelas, os inúmeros fios, de acordo com especialistas, podem causar situações como: maiores chances de rompimentos ocasionados por ventos, chuvas, desgaste do tempo, quedas de árvores, vandalismo, acidentes de trânsito etc; manutenção mais trabalhosa, resultando em maiores períodos de interrupção; riscos à vida de técnicos que trabalham em grandes alturas; riscos de acidentes quando os cabos se rompem; maiores chances de furtos de cabos e equipamentos ou até mesmo de energia (gatos), além de aumento na necessidade de manutenção e custos.

Poste na Rua Vinte e Quatro de Maio. Foto: Alba Valéria Mendonça/G1

“Obviamente a Zona Sul e o Centro apresentam menos fiação aérea, por serem áreas melhor cuidadas. O projeto Rio Cidade fez essa intervenção nos eixos que foram objeto do projeto. Mas mesmo na Zona Sul as ruas secundárias têm fiação aérea”, comenta o arquiteto e urbanista Roberto Anderson.

O problema já poderia estar sendo solucionado. Ao menos, reduzido. Na última gestão de Eduardo Paes (PSD) foi decretado (Decreto 34442/2011) um prazo para as concessionárias fazerem a transição do cabeamento aéreo para o subterrâneo em toda a cidade até o fim de 2016. O que não aconteceu.

A situação foi para a Justiça. O Supremo Tribunal Federal decidiu que o Município do Rio não podia exigir o aterramento dos cabos elétricos na cidade uma vez que o custo do procedimento seria significativo para as concessionárias. Em 2020, o município recorreu da decisão, contudo, o processo transitou em julgado e não cabe mais recurso, informou a Secretaria Municipal de Planejamento Urbano junto à Procuradoria Geral do Município.

A Light, responsável pela distribuição de energia elétrica na cidade do Rio de Janeiro, informa que “possui a maior rede subterrânea da América Latina. Essa malha subterrânea contempla a Zona Sul e o Centro do Rio de Janeiro, além de grande parte da Barra da Tijuca, parte da região da Grande Tijuca e regiões centrais de bairros da Zona Norte, da Baixada Fluminense e do Vale do Paraíba. Estes locais têm em comum a grande densidade de carga que dificulta a instalação de uma rede aérea. Por exemplo, no Centro da cidade, com grande crescimento vertical, é inviável a colocação de postes com vários transformadores necessários para suprir aquele bairro e, por isso, a necessidade de implantação de rede subterrânea nesta região. Cabe esclarecer ainda que o custo de construção da rede subterrânea pode superar em mais de 10 vezes o da rede aérea e, caso isto aconteça na concessão da Light, ele seria, em sua maior parte, obrigatoriamente, por regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), repassado aos clientes dos 31 municípios atendidos pela companhia. O custo também depende de uma série de fatores, tais como tipo de solo onde vai ser construído, topografia, entre outros. Outro ponto importante é que o enterramento da rede resultaria na realização de obras por toda a cidade, impactando, inclusive, na própria iluminação pública, que hoje, em alguns locais, é compartilhada com a estrutura da rede da Light”.

As empresas Claro, Oi, Tim e Vivo, que têm seus sinais de telefonia, TV e internet passando por cabos na cidade do Rio, foram procuradas pelo DIÁRIO DO RIO. Tim e Vivo retornaram os contatos, informando queo posicionamento das operadoras seria feito via Conexis Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel, Celular e Pessoal.

Ao DIÁRIODO RIO, a Conexis disse que “o setor de telecom utiliza, na prestação de seus serviços, cabos aéreos e também cabos em dutos enterrados, sendo a maior parte aérea, cerca de 90%, sustentada nos postes de energia. A instalação dessas infraestruturas é um processo dinâmico e a escolha entre fazer enterrado ou em poste obedece a disponibilidade, por exemplo, de dutos subterrâneos, mas, principalmente, fatores técnicos, resultando assim em situações distintas em cada bairro. A expansão ocorre, portanto, em razão da demanda por novos serviços, disponibilidades e alternativas técnicas”

Foto: Felipe Lucena

“A fiação aérea é um enorme problema para a paisagem da cidade, que deseja manter seu título de Patrimônio Cultural Mundial e é um polo turístico. Nas áreas protegidas, as Apacs, a fiação passando junto aos imóveis é uma interferência muito ruim na ambiência dos bens protegidos”, frisa Roberto Anderson.

Outros locais pelo mundo solucionaram a questão. “As cidades têm buscado realizar a troca das redes aéreas por subterrâneas na medida em que implementam planos de revitalização arquitetônica nas áreas mais antigas. O ideal seria que as regiões em expansão já nascessem dotadas deste tipo de instalação. Barcelona, Londres, Amsterdã, Paris e Washington possuem quase toda a sua rede de distribuição de energia subterrânea. Já no Brasil temos um longo caminho a percorrer, com destaque para o Rio de Janeiro, com cerca de 11%, São Paulo com 10% e Porto Alegre com 9% de redes de energia subterrâneas”, conta Cláudio José Marques de Souza, coordenador do curso de Engenharia Elétrica da Universidade Veiga de Almeida (UVA).

5 COMENTÁRIOS

  1. Nos estamos discutindo um assunto que infelizmente não vai mudar, nas principais vias da Zona Norte é um festival de fios pendurados ou caídos sem nenhuma ordenação e o pior não temos a quem reclamar. O 1746 da prefeitura não resolve e as concessionárias idem, a Oi é o pior exemplo disso, aliás, boa parte dessa fiação é de seus telefones fixos que já ficaram mudos a muito tempo.

  2. As concessionárias acusam o desvio de energia como culpado, empresas de serviço de internet, telefonia, e não tem como investir em enterramento da rede. Caramba, até parece que deixam de lucrar um Real nas cobranças, todo possível prejuízo e mais um pouco, dão distribuidos nas planilhas e repassados aos consumidores. Daí eu, você que temos um consumo regular e correto, pagamos a diferença, como não tem dinheiro?
    A prefeitura tem que se impor!

  3. Bela reportagem.
    Hoje passei por Botafogo e me espantei com a quantidade de fios aéreos.
    Em alguns lugares possuíam barrigas dada a quantidade de fios.
    Como sempre, o STF tomando decisões justas e isentas. Kkk
    Acho que os ministros nas suas viagens ao primeiro mundo deveriam levantar um pouco a cabecinha e observar a paisagem urbana.
    Mas será que os deuses do Olimpo olham para o céu?

  4. As empresas de telefonia poderiam ir fazendo gradativamente por bairro e no mínimo retirarem restos de fios cortados que ficam pendurados, causando um efeito visual e técnico horrível.

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