Brazil Eye

O pai, dirigindo-se ao filho que ainda o abraçava, ambos recobertos com a bandeira do Brasil, disse: “O verdadeiro problema dos brasileiros está na falta de noção de nação. Você precisa guardar isso dentro da sua alma”.

O filho, atordoado com as duras palavras do pai, aguardava ansiosamente a história do sufixo. Já havia estudado sobre o tema na escola. Sabia, sim, que sufixo é o elemento de formação de palavras pelo processo de derivação, ou seja, é o pode vir no final de uma palavra, fazendo nascer uma outra. “Pois bem”, continuou o pai, já desperto de suas tristezas, “o sufixo de nação é ‘ano’ ou ‘ês’. Vamos lá, você vai entender melhor, esse é o pulo do gato: Você tem Americano, Australiano, Italiano, Africano, Mexicano, ou Francês, Português, Japonês… e por aí vai”! Daí, olhou nos olhos do filho, como se quisesse se certificar se o mesmo estava preparado para ouvir o que tinha pela frente. O pai se preocupava, ele não queria desiludir aquele menino, alguém que tinha uma vida para viver.

Já fazia noite e a tristeza de 8 de julho de 2014 crescia no peito dos brasileiros, cravando a marca de uma estranha dor mesclada de vergonha e de decepção!

Uma derrota humilhante nos tirou de uma Copa do Mundo dentro da nossa casa! A maior de todas as tristezas! Igual àquela de 1950, frente aos uruguaios? Não, foi muito pior, resultado vexaminoso, humilhante, pois sofremos uma goleada histórica. Fomos arrasados dentro da nossa própria casa. E o mais desagradável foi que o time adversário, visivelmente, deixou de fazer mais gols para não nos humilhar ainda mais! Veja, “o país das chuteiras” se fazendo aniquilar diante dos seus torcedores.

A desgraça por vezes caminha de mãos dadas com a piedade: os deuses alemães souberam jurar a infame trilha do velho ditado “não se bate em cachorro morto!” Por isso mesmo eles foram éticos, dadivosos, pois nos permitiram fazer o chamado “gol de honra”. Que vergonha, meu Deus!

Mas eles também nos presentearam com algo muito importante. Esse time alemão – diga-se, uma equipe que sabe honrar os verdadeiros preceitos dos valores éticos dos quais comungam uma nação -, nos deixou um legado histórico. Vale ressaltar: um legado somente tem valor de transmissão quando a arrogância cede, abrindo as portas para a humildade, que é o único meio de se fazer um bom uso das suas insígnias. Essa equipe nos colocou frente a frente com a nossa falta de noção do sentimento de respeito. Ao nos impingir essa derrota memorável, eles nos alertaram para a necessidade de honrarmos a nossa própria pátria, os nossos valores, em todos os sentidos! O sentimento de honra, isso que fundamenta a noção de uma nação, tem a sua origem numa seriedade – aqui, no sentido de fazer série, marcas que se somam, que fazem com que os pilares de um país se tornem sólidos! O rombo que eles provocaram deixou a maior de todas as heranças: precisamos despertar, acordar de um tal “berço esplêndido”, construir uma base educacional verdadeira, como sendo a única condição de apreender os conceitos, os valores, os conceitos de uma moral e de uma ética que não seja canalha. É hora de apreender os conceitos!

O filho, ali quieto, junto ao pai, justo no quarto onde fora concebido, queria algo mais de seu pai. Faltava alguma coisa que justificasse esse tal do sufixo na falta de noção de nação: queria que o pai falasse sobre o ‘eiro’ de brasileiro. Ele queria ouvir a voz do pai, buscava uma resposta à sua pergunta, mas já começava a entender onde o pai queria chegar: que o brasileiro não dá nada para o seu país, ele só tira. Desejava a todo custo colocar o pai para falar, pois ele sabia, desde de velhos tempos, que o pai, ao falar, deixava suas tristezas de lado. O pai, que tinha o dom das palavras, disse ao filho: “vamos falar do brasileiro, do sufixo das profissões, isso que está na base de tantos e tantos desfeitos nesse país”.

Médico, Psiquiatra e Psicanalista. Especialização e Mestrado em Psiquiatria (UFRJ); Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Brasília, Rio de Janeiro e Vitória; Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP); Editor-chefe da Companhia de Freud Editora

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