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Foi no entardecer de 8 de julho de 2014 que o menino perguntou ao seu pai: “pai, por que o brasileiro só ama o seu país na Copa do Mundo”? O pai, mesmo atropelado em suas dores, disse: “eu lhe explico, é uma questão de sufixo, meu filho”!

O barulho dos torcedores ainda tomava conta daquela casa. O som, em sua exuberância de ser brasileiro, rasgava o ambiente numa sinfonia que parecia não acabar. Ele brotava de todos os lugares! Era a insistência de um drama que atordoava, entoando a presença real de um canto, com a força lancinante de uma espada que faz tremer até mesmo o mais corajoso dos homens. Uma voz única, cortante, capaz de desafiar os deuses que se plantam na borda de um horizonte divino.

Que grito era aquele? Muito longe de acalmar, ele acirrava as dores de uma ferida, de uma dor anunciada. O canto materno celebra o som que porta o dom de aplacar a dor de um filho. Mas, aqui, nada poderia anestesiar a profunda dor, o profundo desamparo que pegou de viés cada membro daquela família. Um clima atordoante, tinto de uma desesperança dolorosa, anunciava o vazio de algo que escapava, que não viria. As perdas que emanam das derrotas se traduzem numa falta, numa espécie de rombo, o que não traz de volta aquilo que se foi. Ou melhor, aquilo que teria sido! O clima era de uma profunda desilusão.

As vozes que ecoavam, secas, saiam de dentro da televisão. Uma multidão de torcedores insistia, em pé, sem se atrever a pensar o acontecido: o grito uníssono de amor à nação brasileira corria à deriva. Olhares cegos se cruzavam buscando o sentido perdido de uma expectativa abortada. Nada a testemunhar! Pura negação! Os golpes eram desfechados sem dó nem piedade. Os gols do adversário soavam como os acoites desferidos por uma maldição gélida demais. O barulho ruinoso anunciava o placar de uma desgraça impingida pelo time adversário: a cada gol sofrido, o som das chicotadas aumentava mais. O grito anômalo dos torcedores era o grito de alguma coisa que não estava ali. A procura de uma identidade perdida? Não sabíamos a sua verdadeira razão. Mas os torcedores estavam lá!

O pai, que aos poucos se levantava bem no meio da sala, ele mesmo já não suportava mais o peso da decepção. Doído, curvado sob o domínio de algo inominável, quase sem conseguir manter-se de pé, lança um olhar de tristeza que ficaria nos registros mais íntimos daquela família!

Os torcedores, todos aqueles presentes no estádio, não acreditavam no que estavam vendo. Uma cegueira coletiva tomou conta de todos. O grito de guerra avançava e parecia não querer parar. Eles continuavam a cantar! Verdadeiros guerreiros que urravam numa arena, prontos para o seu recomeço: a decepção de uma melancolia não era capaz de estancar o sangue daquele massacre. A dor de todas as dores, tristeza sem fim, o anúncio de uma derrota frente à seleção alemã, dentro da nossa própria casa. Que maldição!

Meu Deus, de pé, eles insistiam gritando: “eu sou brasileiro, com muito orgulho e muito amor…” Era realmente isso: somos uma nação apenas na época da Copa do Mundo! Há uma falta de noção do sentido máximo de uma nação. O brasileiro não consegue amar o seu país. Mesmo porque, quando verdadeiramente se ama o seu país, o orgulho se faz presente nos detalhes. A coisa vem da origem. O respeito, isso abre as portas para um ato de responsabilidade. A cada momento de uma construção meu dever ético se dirá presente. A noção de nação implica numa oferta de si mesmo na arquitetura de uma cidadania!

O pai já não aguentava mais tamanho sofrimento. Ele queria buscar o reconforto da sua dor sozinho. Com os olhos marejados de lágrimas, dirigiu-se para o seu quarto, queria ficar a sós com a sua perda. Mas o filho, preocupado e insatisfeito com a resposta que o pai lhe dera, seguiu os passos do pai. O menino sabia que o seu pai amava o futebol. Foi em direção a ele, deu-lhe um forte abraço, e se cobriram com a bandeira do Brasil.

Em seguida, disse: “chora não, nós vamos ganhar a próxima”. O pai, um homem maduro, alguém que sabe que não é possível se alimentar de ilusões, disse: sim, meu filho, mas isso vai demorar muito, e eu não acredito que estarei vivo para comemorar essa próxima conquista”! E, olhando para o filho querido, disse: “vamos falar sobre o sufixo”?

Médico, Psiquiatra e Psicanalista. Especialização e Mestrado em Psiquiatria (UFRJ); Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Brasília, Rio de Janeiro e Vitória; Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP); Editor-chefe da Companhia de Freud Editora

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