Fazendo a corte

Da série de artigos, reportagens e entrevistas que a Folha de São Paulo fez em 26 de novembro de 2007 sobre os 200 anos da vinda da Família Real de Portugal para o Brasil. Acompanhe o índice aqui.

Originalmente publicado aqui.

Fazendo a corte

A Folha visitou os palácios de Mafra e Queluz, onde vivia a família real antes da partida para o Brasil, para apurar o que restou da imagem de dom João 6º e da antiga opulência


Ao chegar a Mafra e encontrar o local deserto, sem mobília, o general francês teria perguntado: "Mas que rei tão pelintra é esse que vive neste palácio?"


RAFAEL CARIELLO
ENVIADO ESPECIAL A PORTUGAL

A funcionária responsável por acompanhar os visitantes gira uma chave do tamanho de um revólver e abre a pesada porta de madeira que, com cerca de quatro metros de altura, dá acesso à área interna do Palácio de Mafra, já anunciado numa placa à entrada como "o mais importante monumento do barroco português", construído por ordem do rei dom João 5º, no início do século 18.

"Tal magnificência só foi possível devido ao ouro do Brasil, que permitiu ao monarca pôr em prática uma política mecênica e de reforço da autoridade régia", diz o mesmo aviso, que, além da bandeira do país, traz impresso o símbolo da União Européia.

Palácio de caça e de férias localizado a 40 km de Lisboa, a construção opulenta só serviu efetivamente de moradia para a monarquia portuguesa com o príncipe regente dom João 6º, e isso por apenas um ano. Dali saiu no final de novembro de 1807, fugindo para o Brasil, enquanto Portugal era invadido por tropas napoleônicas.

A imagem que deixou para trás -e que perdura até hoje- tem grande dose de ambivalência. Celebrado atualmente pela historiografia portuguesa como o autor de uma estratégia sofisticada, responsável pela manutenção da integridade da família real e, em última instância, da futura autonomia portuguesa, seu gesto ainda divide opiniões entre os habitantes do país -enquanto permanece, para muitos, a caracterização de um soberano tolo, feio e covarde.

É de forma no mínimo ambivalente que ele é apresentado, por exemplo, aos visitantes de um dos principais monumentos nacionais portugueses.

Domingas Filipe, 46, a guia que acompanha a reportagem, repete, ao início do caminho pelos corredores internos do palácio, a declaração de que tudo que seria visto dali por diante -40 mil metros quadrados de construção, 4.300 portas e janelas, 880 salas – só foi possível "com o ouro do Brasil".

Ainda no primeiro salão, em homenagem a Diana, a deusa da caça, explica que dom João 6º viveu no palácio até "transferir toda a corte para o Brasil quando fomos invadidos, em 1807".

Domingas garante que tais informações, sobre o ouro e a fuga, são repetidas a todos os visitantes.

Por isso mesmo, afirma, é freqüente ouvir reações dos portugueses sobre o gesto do monarca. "Há alguns que dizem que dom João 6º era muito rude, que teria deixado o país ao abandono", explica. Outros -como ela própria, acrescenta- "acham até que foi uma estratégia bem pensada".

"No fundo, acho que ele fez o que os britânicos mandaram. Os britânicos são o que chamamos em Portugal de "amigos da onça". Mas a verdade é que, desde que os franceses não pudessem prender o rei, não podiam dar o país como conquistado."

O taxista Alexandre Pedro, 75, que trabalha na praça local, discorda de Domingas. "Acho que não fez bem. Se era o rei, tinha que ter ficado e ajudado a defender o país", ele diz.

A idéia de covardia e de abandono dos portugueses foi explorada no calor dos acontecimentos pelos próprios franceses. Na edição de 4 de dezembro de 1807 da "Gazeta de Lisboa", espécie de diário oficial da época, que era impresso, ainda naqueles dias que se seguiram à invasão, sob a inscrição "com privilégio de Sua Alteza Real" (o que indicaria conhecimento e eventual censura do príncipe regente), o general Jean-Andoche Junot anuncia aos habitantes locais:

"O meu Exército vai invadir a vossa cidade. Eu vinha salvar o vosso porto e o vosso príncipe da influência maligna do Reino Unido. Mas esse príncipe, aliás respeitável pelas suas virtudes, deixou-se arrastar pelos conselheiros pérfidos de que era cercado, para ser por eles entregue aos seus inimigos. Atreveram-se a assustá-lo quanto à sua segurança pessoal. Os seus vassalos não foram tidos em conta alguma, e os vossos interesses foram sacrificados à covardia de uns poucos cortesãos."

Corredor de 232 metros

Na primeira edição do "Correio Braziliense", editado em Londres após a fuga da família real para o Brasil, de junho de 1808, é reproduzido o decreto em que dom João comunicava aos seus vassalos a decisão de partir para o Brasil.

"Vejo que pelo interior de meu reino marcham tropas do imperador dos franceses e rei de Itália, a quem eu me havia unido no continente na persuasão de não ser mais inquietado, e que as mesmas se dirigem a essa capital", escreve ele no texto datado de 26 de novembro de 1807.
A seguir diz ser ele próprio, e não seus vassalos, quem é perseguido pelas tropas invasoras, usando um argumento oposto ao de Junot -ou seja, dizendo que fugia para manter a segurança dos portugueses- como justificativa para sua decisão.

"Conhecendo igualmente que elas se dirigem muito particularmente contra a minha real pessoa, e que os meus reais vassalos serão menos inquietados ausentando-me eu deste reino, tenho resolvido, em benefício dos mesmos vassalos, passar com a rainha minha senhora e mãe e com toda a real família para os Estados da América e estabelecer-me na cidade do Rio de Janeiro até a paz geral."

Após nomear alguns nobres que ficavam para governar Portugal durante sua ausência, dom João 6º pede que os invasores sejam em tudo muito bem tratados. "E que as tropas do imperador dos franceses e rei de Itália sejam bem aquarteladas e assistidas de tudo que lhes for preciso enquanto se detiverem neste reino, evitando todo e qualquer insulto que se possa perpetrar."

A sala onde provavelmente assinou esse decreto fica ao final de um corredor de 232 metros, responsável pela ligação entre o seu quarto e o de sua mulher, a princesa do Brasil, dona Carlota Joaquina. Em toda a sua extensão, há vários quadros em que dom João 6º aparece retratado.

Ao passar pelo primeiro deles, Domingas não hesita em dizer: "Seu aspecto talvez tenha a ver com o fato de os sangues estarem muito misturados. Não sei se sabes, mas o pai de dom João 6º casou-se com a sobrinha".

Como assim, seu aspecto? "Sempre que olho para esses quadros, dom João me parece mongolóide. Ele era muito feio. E o pintor tinha que o favorecer, porque era o rei. Imagina o que seria na realidade."

Shopping Dona Maria 1ª

No salão seguinte, a guia aponta para os móveis ali dispostos, explicando que obviamente eles não ficaram na residência após a fuga -quase tudo que havia no palácio foi transportado com o príncipe para o porto e, de lá, para o Brasil.

Domingas afirma que se conta a história de que Junot, ao chegar a Mafra e encontrar o local deserto, sem mobília, teria perguntado: "Mas que rei tão pelintra [pobre] é esse que vive neste palácio?".

O mesmo procedimento foi tomado no Palácio de Queluz, a uns 30 km de distância e próximo à cidade de Sintra, onde estava, no momento da partida, o restante da família real, incluindo a mãe de dom João. Na cidade há hoje um shopping center Dona Maria 1ª, em sua homenagem.

Rosa Correia, 57, que recolhe os bilhetes à porta do monumento e tem curiosidade sobre a quantas anda a violência no Brasil, não chega a uma conclusão sobre a decisão de transferir a corte para os trópicos.

"Ele talvez se sentisse mais seguro no Brasil àquela altura", diz. "Também é verdade que deveria ter ficado, mas talvez não tivesse coragem."

Lá dentro predominam os estilos rococó e neoclássico, num ambiente bastante distinto da grandeza barroca de Mafra e bem mais aconchegante, com muitos detalhes em ouro e espelhos nas paredes.

Um grupo de atores com roupas de época vem apressado pelos corredores após um ensaio, e uma das atrizes brinca com a outra ao passarem pela reportagem: "Olha aqui a nossa casinha de antigamente".

Na "casinha" há coleções de prataria e porcelanas dos séculos 18 e 19, finos móveis, salas de café e de "fumo". O serviço de chá traz imagens, em cada xícara, da Viena do Setecentos, e um dos serviços de jantar tem gravado em cada peça o monograma "CJPB", que significa Carlota Joaquina, Princesa do Brasil.

A alcunha valia para os príncipes herdeiros, destinados a se tornarem rei e rainha, mas terminou por se tornar mais literal do que eles próprios teriam imaginado.

Também em Mafra, numa das alas do palácio, é possível ver hoje confortos semelhantes aos de Queluz, mas eles foram instalados após o retorno da família real ao país, no século 19. Numa sala de jogos, com mesas de bilhar de mais de cem anos, Domingas aponta um retrato do imperador dom Pedro 2º e tece considerações sobre ele e seu pai, dom Pedro 1º no Brasil, que foi o rei dom Pedro 4º em Portugal.

"Dom Pedro foi buscar essa veia à mãe", ela diz, "de trocar sempre de mulher". "De dona Carlota, dizem que trocava de amante a cada dois anos", continua a guia justamente ao entrar na sala da caça, onde cabeças e chifres de veados são expostos na parede.

Coxas e asas de frango

O salão seguinte é certamente o mais bonito do palácio de Mafra.

Uma biblioteca de sala única, a maior desse tipo na Europa, com estantes de madeira clara e 40 mil livros dos séculos 15 ao 19 encadernados em couro com lombadas douradas. Era controlada pelos franciscanos (Mafra era um palácio, mas também um convento; a residência é na verdade organizada ao redor de uma basílica, e é dela o frontispício característico de todo o conjunto).

Na fuga apressada para o Brasil, os livros ficaram, afirma Domingas. Mesmo o Exército francês não chegou a tirá-los de lá. Uma das lendas que se contam, segundo a guia, é que os frades esconderam a chave que permite a entrada na biblioteca, protegendo-a de um possível assalto francês.

Outra versão afirma que Junot, ao chegar ao palácio e encontrar tudo vazio, nem se deu ao trabalho de percorrê-lo e, assim, descobrir suas obras.

A imagem final que fica de dom João 6º, segundo o relato da encarregada de apresentá-lo aos visitantes, é bem mais positiva do que a de um rei "pelintra" ou "mongolóide".

Domingas pergunta se a reportagem sabe da fama que o príncipe regente tinha de esconder asas e coxas de frango nos bolsos para comê-los mais tarde. Pois o hábito, diz, guarda relação com o fato de o monarca ter sido grande apreciador de música sacra e de gostar de cantá-la com os frades.

Os pedaços de frango eram levados nos bolsos, diz Domingas, para comer enquanto ouvia os frades cantarem ou nos intervalos das peças em que o príncipe-regente acompanhava os religiosos no grande salão da biblioteca, entre madeiras e ouro para lombadas de livros vindos do Brasil.