Revisitando há dias a monumental discografia de Gilberto Gil, animado pelo vigor poético de suas canções, entreguei-me ao devaneio. A simples audição de Amarra o teu arado a uma estrela despertou-me a imaginação. Ocorreu-me a possibilidade de um encontro entre nosso baiano Buda Nagô e o sociólogo polonês Zygmund Bauman. Atravessou-me a pergunta que sonhadores e ficcionistas tendem a fazer a si mesmos: “por que não? E se..?” Ignoro se Gil esbarrou por aí com Bauman e com ele se sentou em algum café, quando este ainda se achava no mundo dos vivos; ou seja, antes de 2017. Curioso seria se algo assim tivesse acontecido. Como também me admiraria que algum bisbilhoteiro tivesse registrado um evento desse porte. 

Gil me conduziu a Bauman pelo sentido literário da canção; ao passo que Bauman me conduziu a Gil pelo discurso. Ao ouvir Amarra o teu arado a um estrela, de forma despretensiosa, pensei: Bauman está aqui metido entre os versos. E, depois, ao consultar a imbatível tese de Bauman constatei: Gil cantou esse modo de pensar. Em um primeiro momento a relação intrínseca entre ambos parecia-me apenas provável. Mas, ao aprofundar as imagens criadas por Gil em sua canção e compreender a linha de argumentação de Bauman, o provável deu lugar ao certo; não o certo de que houve encontro físico, mas sim um encontro astral e transcendental.

Já é lugar-comum a conexão entre pensamento crítico, seja filosófico ou sociológico, e a arte. Por isso, o que me surpreendeu não foi pinçar traços compatíveis entre os dois. O mais interessante em tal incrível agenciamento foi detectar que espécie de traço em comum era esse. Capturei a coexistência em Gil e em Bauman de certa fome de utopia, de certo ardor da alma. Em entrevista, Bauman proseou livremente sobre esse tema, tomando como partida a incisiva e problemática pergunta do interlocutor: “é possível pensar ainda em um resgate da utopia?”[1]

“Para que a utopia nasça”, declara Bauman, “é preciso duas condições. A primeira é a forte sensação (ainda que difusa e inarticulada) de que o mundo não está funcionando adequadamente e deve ter seus fundamentos revistos para que se reajuste. A segunda condição é a existência de uma confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo”.[2]

De acordo com suas palavras, entende-se que a ideia de que as “utopias morreram” é falsa, por duas razões: a) Bauman afirma que a utopia é nascimento; e, portanto, tem primazia sobre a morte; e b) se a utopia ainda é pensada, difusa ou inarticuladamente, é porque nunca morreu. A conclusão inicial que se pode chegar de tal distinção do problema é a de que a utopia não morre, mas unicamente é animada pela pulsão de vida. A vitalidade da utopia é o fato de que ela é o fruto de um princípio nascente que dá ignição ao motor da história.

O que nasce com a utopia é o desejo de reforma, que só penetra o coração humano com seu magnetismo e sua eletricidade e só preenche de significado o espírito ao constatar que esse não é o melhor dos mundos possíveis e, portanto, que frustram-se nossos desejos de felicidade todas as vezes em que pensamos assim. A frustração funda um movimento em direção ao justo: reivindica-se não um mundo perfeito, mas um mundo reformado, e, por isso, revisto.

Bauman aponta para a causa da ideia de “morte das utopias”, que seria, na verdade, o domínio massivo de uma tipologia formadora do caráter humano. Conforme vimos, a ideia de que morreram as utopias é demasiado mal articulada; e, ademais, dotada de artimanhas argumentativas ideológicas. Ideológico porque tal assertiva só funciona para um certo tipo de comportamento dentro da sociedade, a saber, o comportamento caçador. Apenas o caçador acredita que utopias estão fadadas a morrer ou já morreram faz tempo e hoje só restam as cinzas da história. É dele a autoria do discurso que só guarda semelhança com seus interesses.

Para Bauman o caçador é uma tipologia de caráter formada na era pré-moderna, que “simboliza a presença humana” enquanto existência devastadora. No entanto, antes de se mostrar assim, ele alimenta crenças aparentemente justificáveis e legítimas. Na concepção do caçador o mundo é pura e inesgotável fonte de recursos diante do qual ele desempenha a tarefa de “defender e preservar, por assim dizer, o ‘equilíbrio natural’. A ação do caçador repousa sobre a crença de que as coisas estão no seu melhor estágio quando não estão com reparos; de que o mundo é um sistema divino em que cada criatura tem seu lugar legítimo e funcional.”[3]

Enredado em sua prepotência, o caçador acreditou piamente no legado antropocêntrico de que lhe é incumbida, por Deus, a licença de equilibrar a balança da natureza. Mas não se esperava que esse propósito ingênuo se corrompesse em seu contrário, ou seja, que em vez de preservar, o caçador não protegesse nem defendesse, mas devastasse, tornando-se o pior dos predadores. Ele quer “dominar” a natureza explorando-a cegamente: “a maioria dos caçadores não considera que seja sua responsabilidade garantir a oferta nas florestas para outros, que haja reposição do que foi tirado. Se as madeiras de uma floresta forem relativamente esvaziadas pela sua ação, ele acha que pode se deslocar para outra floresta e reiniciar a sua atividade.”[4]

A crença na superpotência humana iludida com sua legitimidade se outorga o direito de tudo esgotar para autossatisfação. Por isso, “pode ocorrer aos caçadores que um dia, em um futuro distante e indefinido, o planeta poderia esgotar suas reservas, mas isso não é sua preocupação imediata, isso não é uma perspectiva sobre a qual um único caçador, ou uma única ‘associação de caçadores’, se sentiria obrigado a refletir, muito menos a fazer alguma coisa.”[5]

Debilitado por um distúrbio ético predatório, o caçador elimina quem intimida sua força “protetiva”/“equalizadora” e quem invade seu quinhão de terra, pois a “única tarefa do caçador é perseguir outros caçadores, matar o suficiente para encher o seu reservatório.”[6] A mola propulsora da caça é compulsiva; quanto mais se tem, mais quer. Falta ao caçador o sentimento de missão cumprida, de conforto, de gozo com sua própria presa. O prazer pelo que foi caçado logo se evanesce, se liquida. O fim da caça é sinal certo de “derrota pessoal” que os “espíritos empreendedores” temem quando se manifesta ou se aproxima.

O caçador “encapsula o sonho de uma labuta que não termina”; sua crença é também utopia, não-lugar, lugar projetado, idealizado, desejado: o não lugar de um eterno vencedor, de um ser cujo direito divino é “ser feliz” às expensas da natureza. No caçador a utopia “não oferece sentido nenhum à vida, verdadeira ou fraudulenta. Ela apenas ajuda a perseguir o significado da vida longe do espírito da vida. Tendo redesenhado o curso da vida em uma interminável série de perseguições autocentradas, cada episódio vivido como uma abertura para o próximo, ela (a utopia) não oferece oportunidade de reflexão sobre a direção e sentido da sua totalidade.”[7]

Enquanto o caçador segue a roda do desejo frustrado, tentando insanamente manter um equilíbrio que só visa a autossatisfação, outro tipo se arma diante dele como uma oposição. A esse tipo Bauman chamou de jardineiro. O jardineiro é a metáfora moderna da humanidade. Nele uma consciência refletida orienta o sentido de utopia. Diferentemente do caçador, cuja miopia intelectual não enxerga de longe, mas apenas em vista de si mesmo e dos seus próximos, o jardineiro pensa para além da individualidade. Ele assina um contrato social, antes de tudo.

“O jardineiro não assume que não haveria ordem no mundo, mas que ela depende da constante atenção e esforço de cada um. Os jardineiros sabem bem que tipo de plantas devem e não devem crescer e que tudo está sob seus cuidados.”[8] A ética jardineira cuida para satisfazer seu ideal, que na verdade é o ideal coletivo do jardim. No jardim, diferentemente das florestas, em que o caçador devasta, a natureza não está dispersa; a ação não é individualizada, mas em razão de um espaço compartilhado por outros. Partilha-se da mesma terra, desenvolve-se com os mesmos nutrientes que são constantemente postos e repostos. Nada se perde; tudo germina.

“É do jardineiro que tendem a sair os mais fervorosos produtores de utopias.”[9] Se não fosse a incoerência temporal, teria dito que Gilberto Gil leu essa declaração de Bauman para compor a letra de Amarra o teu arado a uma estrela. Assim como o sociólogo, Gil entendeu que é do cultivo da terra que se retiram insumos necessários para produzir grandes utopias. Fez, todavia, uso de outra imagem. Chamou o homem utópico de “lavrador louco dos astros” ou “camponês solto no céu”, cuja luz radiante contagia o espírito com o direito do sonho.[10]

Quando Bauman refere-se à segunda condição para a produção de utopias, ele destaca a força humana que mobiliza as reformas que são necessárias para que o mundo funcione em harmonia, cuidando de todas as plantas que possam desequilibrar não a totalidade da natureza, mas até onde alcança o cercado do jardim. Essa força é o sonho. Na concepção gilbertiana, é de responsabilidade do lavrador preparar o solo da mesma forma que prepara o sonho. Sua loucura, seu oútopos é viabilizar o desenvolver de raízes e rizomas, é assegurar a semeadura e a absorção de nutrientes, não no plano da terra, mas no plano do ideal, onde orbitam os astros.

Gil canta como se fosse eco de Bauman: “amarra o teu arado a uma estrela/e os tempos darão safras e safras de sonho/ quilos e quilos de amor/noutros planetas risonhos/outras espécie de dor”.[11] Assim o faça como condição de reforma do mundo que não está ainda nos eixos e talvez nunca se encontre. No entanto, esse “nunca” não é impeditivo de ação. O sonho é melhor sonhado quando se torna difícil. Gil nos mostra que se faz necessário envidar esforços para dizer “nunca é demais” em vez de “nunca mais”. Sonhar é preciso. Viver não é preciso.

A condição “se” funda uma mudança na consciência que o caçador tem, mas apenas de forma autocentrada. Em Gil, o “se” pensa em vista da terra que se cultiva e se partilha. Como “os frutos produzidos pela terra/ ainda não são/tão doces e polpudos quanto as peras/ da tua ilusão”; e como “os campos cultivados neste mundo/ são duros demais/ e os solos assolados pela guerra/não produzem a paz”, é a vez de a máquina delirante funcionar.[12] O arado é o símbolo do trabalho do lavrador e também a arma argumentativa do homem utópico.

“Os homens lutam e perdem a batalha, e as coisas que eles lutaram para acontecer, apesar da derrota, transformaram-se para não ter o mesmo significado que antes, e outros homens têm de lutar por aquilo que agora se entende por outro nome.” [13] Não há utopia sem luta; ou melhor, sem mobilização para novas lutas. Porque utopia é isto: alimento para nutrir a terra real com organismos ideais, com projetos. O arado de Gil se solta no céu buscando curar a terra violada/agredida por causa da utopia do caçador. O baiano está atento, cuidadoso para que o sentido da vida não se perca em abstrações e mistificações. O divino está entre nós, nessa luta pela reforma entre todos nós: “quanto mais longe da terra/tanto mais longe de Deus.”[14]

O bom arado da terra independe do que Deus concedeu aos humanos por direito. A história não termina na redenção em Cristo: “não creio que o tempo/venha comprovar/nem negar que a História/possa se acabar”, diz Gil.[15] Por mais que perdurem muros absurdos, eles sempre terão fim. A utopia iconoclasta está aí; muito mais prometeica que cristã; indisposta a salvar a humanidade; apenas centrada no cultivo, no preparo de um terreno para o futuro em que caçadores não predominem e, assim, permita-se que haja justiça social e equilíbrio natural.

Ademais de nada vale a existência humana se não pudermos inferir o “não” revoltado a essa criação inacabada que é a obra da natureza; se não pudermos ser a parcela minúscula de deus, que cria seu próprio reino. Albert Camus já tinha ventilado a mesma preocupação de Gil: não mistificar o sentido da utopia; não idolatrar nenhum messias. Tratá-la como desejo humano que está ciente das limitações e da responsabilidade a se assumir. Constrói-se um mundo melhor tendo pés no chão, pisando o mesmo húmus, em coletivo, com olhos voltados para o céu.


[1] OLIVEIRA, DENNIS DE. Bauman: para que a utopia renasça é preciso confiar no potencial humano. Revista Cult, São Paulo, em 9 de janeiro de 2017. Disponível em: Bauman: Para que a utopia renasça é preciso confiar no potencial humano (uol.com.br) 

[2] BAUMAN, ZYGMUND. Idem, ibidem. 

[3] Idem, ibidem. 

[4] Idem, ibidem. 

[5] Idem, ibidem. 

[6] Idem, ibidem.  

[7] Idem, ibidem.  

[8] Idem, ibidem.  

[9] Idem, ibidem.  

[10] GIL, GILBERTO. O eterno deus Mu dança. Rio de Janeiro: Warner, 1989. 

[11] Idem, ibidem.  

[12] Idem, ibidem.  

[13] BAUMAN, ZYGMUND. Bauman: para que a utopia renasça é preciso confiar no potencial humano. Revista Cult, São Paulo, em 9 de janeiro de 2017. Disponível em: Bauman: Para que a utopia renasça é preciso confiar no potencial humano (uol.com.br) 

[14] GIL, GILBERTO. Op.cit.  

[15] Idem, Parabolicamará. Rio de Janeiro: Warner, 1992.

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