Uma das piores privações que este longo período de quarentena proporcionou aos brasileiros foi a de não poder se desfrutar das festas dos santos juninos. O ano de 2020 ficará registrado como aquele em que um vírus calou a força de um “arraiá”. Independentemente de ser ou não ser cristão, se arraigou em nossa cultura tão diversa a tradição das festas de Santo Antônio, São João e São Pedro. Por isso, sua ausência é sentida. Apesar de representarem heranças do colonialismo português, as festas juninas (ou joaninas) foram incorporadas à paisagem afro-indígena, alterando o aspecto europeu de sua origem. O brasileiro imprimiu um sotaque próprio (caipira) que se tornou marca registrada da festa, especialmente no Nordeste.

Ainda que o Carnaval encante com sua efusão e criatividade, das festas populares, as juninas, encabeçam a minha preferência, desde a infância. Há muitos elementos que tipificam a festa e tornam-na um evento inesquecível por sua singularidade. A começar pela gastronomia, que enriquece os sabores com suas delícias: canjicas, munguzás, cocadas, pés-de-moleque, pamonhas, pipocas, bolos de milho, quentão, etc. Depois pelas danças animadas, que englobam tanto a quadrilha quanto o forró, o coco, o baião e o xote. Por fim, de minha parte, o fator mais atrativo é a decoração. Balões, fogueira, barracas e elas, as pequenas damas, as bandeirinhas.

As miúdas bandeirinhas não só ainda provocam em mim um fascínio por sua plasticidade e colorido, bem como atraiu o olhar de um dos artistas mais importantes da história do Brasil. Falo de Alfredo Volpi (Lucca, 1896 – São Paulo, 1988). Pintor, muralista e desenhista, Volpi nasceu em Lucca, na Itália, na comuna da antiga região Toscana, terra natal do genial Puccini. Em 1898, condicionada pelo grande movimento migratório, a família Volpi se mudou para o Brasil residindo em São Paulo. O deslocamento de uma cidade provinciana como Lucca para uma metrópole do porte de São Paulo foi bastante favorável para o pequeno Volpi.

 Da mesma forma que ocorre com os grandes gênios, o talento de Volpi aflorou logo na mocidade. Aos quinze anos, já demonstrava interesse pelo uso de cores e tintas, de modo que rapidamente se ocupou com a pintura, decorando frisos, florões e painéis das casas da alta sociedade paulistana. Na juventude, Volpi tratava a arte de forma meramente técnica e fabril. Não lhe despertava ainda o desejo de ser pintor. Por sua condição imigrante, não havia tempo de pensar na arte de forma ideal. Havia a urgência de se formar em alguma escola técnica para trabalhar o quanto antes. Então, os pais o inscreveram na Escola Profissional Masculina do Brás. Paralelo a isso trabalhou em outras funções, como marceneiro, entalhador e encadernador.

Nos anos 20, desenvolveu uma pintura menos decorativa e menos “ingênua”, que chegou, inclusive, a ser exposta em coletivas. Até que, nos meados dos anos 30, travou contato com outros artistas paulistanos. A maioria deles se encontrava na mesma condição social de Volpi: eram imigrantes italianos, de vida humilde e que, atados a uma esperança limitada, não iam além da realidade proletária das fábricas. Pintavam por hobby. Entre eles se encontravam, Fúlvio PenacchiAldo BonadeiAlfredo RizzottiMario ZaniniClóvis Graciano e Humberto Rosa. O tempo para se dedicar a pintura se espremia entre um trabalho ou outro. Volpi e Zanini pintavam paredes, enquanto, por exemplo, Graciano era ferroviário e Penacchi açougueiro.

Mas, a insistência no projeto de pintar com regularidade e profissionalismo, os levou a formalizar um grupo que se reunia no palacete Santa Helena, onde era instalado o atelier de Zanini e Francisco Rebolo, na praça da Sé. As limitações proletárias faziam com que os pintores só pudessem exercer o ofício nos finais de semana ou nas folgas. O Grupo Santa Helena, como ficou conhecido, se reuniu nesse local até os anos 40 e lá desenvolveu não só uma coletividade artística, bem como uma estética pictórica bastante particular, uma vez que se mesclavam elementos do legado modernista, deixado pelo pioneirismo da Semana de 22, com elementos da arte tradicional, mais propriamente da pintura impregnada do estilo ornamental, decorativo.

Volpi e os amigos tiveram que lutar contra o preconceito da sociedade paulistana. Havia uma rejeição ao trabalho dos santahelenistas que exalava forte odor xenofóbico, porque estes eram menosprezados por serem imigrantes e proletários. Mario de Andrade os chamou de “artistas proletários” em forma de saudação e reconhecimento de que naquele grupo havia um diferencial. Dessa forma, graças à opinião crítica de Mário, autorizou-se que o grupo fosse inserido no círculo dos artistas modernos brasileiros e rapidamente ganhasse notoriedade.

A pintura de Volpi, antes de alcançar a fase que lhe rendeu total celebridade, ou seja, a fase das “bandeirinhas”, atravessou um processo evolutivo e criativo. A forma volpiana de conceber arte não se afina com a noção de solidez, como se o fazer artístico começasse e terminasse com a mesma natureza. Antes, ela é feita por criadores “que se transformam sempre”, conforme revela em entrevista para a TV Cultura, em 1975-76. No decorrer da carreira, a “natureza foi se transformando” para dar plasticidade ao problema central da pintura que é a luminosidade. Segundo Volpi, “a natureza é a luz”, e se luz é cor, a cor é a raiz do problema.

Vimos a luminosidade colorida nos seus primeiros anos de pintura. Da década de vinte até a convivência com os santahelenistas, Volpi foi, a rigor, um paisagista. Fez de Cambuci, o bairro operário de São Paulo, seu motivo principal, a “extensão de sua pintura”. Retratou “telhados, pombos vadios e terrenos baldios”. O “deus das pequenas coisas” pintou a simplicidade da vida urbana: operários, costureiras, lavadeiras, gente humilde. Viajava com frequência para Itanhaém, no litoral sul de São Paulo. Assim, passou a pintar marinhas.

Nos primeiros anos, sua pincelada é manchada e ágil, seguindo uma tendência impressionista tardia, muito ao estilo de Camille Pissaro ou Cézanne, e, portanto, adepto do reducionismo da paleta de cores. Depois dessa fase figurativa, a paisagem se transformou, simplificando tanto que lhe ocorre, inclusive, se geometrizar.  O interesse de Volpi, nesse caso, não é a luminosidade, nem a figuração; e sim os aspectos formais da pintura: “linha, forma e cor”. Mesmo sem contato com a obra de Cézanne, Volpi parecia tomar o mesmo caminho do pensamento pré-cubista, de modo que a pintura que analisa a realidade torna-se a sua obsessão.

Nos anos 50, expôs na II Bienal de São Paulo e recebeu, por escolha do crítico de arte Herbert Read, o prêmio de melhor pintor nacional. Mas aí sua obra já era um trânsito, em que deixou de ser figurativa e de se ajustar ao molde da mimética da realidade. O que Volpi começou a fazer foi abstracionismo geométrico, em que “a forma, a linha e a cor” constituíam o critério rigoroso da criação. Os artistas concretistas, que vinham ocupando espaço nos anos 50, como Hélio Oiticica e Lygia Clark, se encantaram com a obra de Volpi e o convidaram para primeira exposição concretista no Brasil. O que motivou Volpi a radicalizar seu abstracionismo

Deu-se um salto qualitativo e formal na pintura Volpi, na qual a simplicidade que era sua marca passou a ser expressa através de grandes ou pequenas áreas de retângulos, círculos, triângulos e losangos preenchidas por uma pincelada larga, compacta, sem detalhes, sem gestualidade, por assim, “fria”, como se via no repertório plástico dos concretistas.

No entanto, Volpi, era dotado de um espírito emotivo e lúdico, da mesma forma que Matisse, o qual considerava o “mais pintor de todos”. Havia um contraste de sua natureza com a proposta cerebral dos concretistas. Foi então que ele conseguiu sintetizar as pesquisas formais com um motivo que foi despertado não de fora para dentro, como algo artificial, mas ao contrário, oriundo de uma experiência afetiva, de algo que, por sua forma, provocou um encantamento. Daí nasceu a fase das “bandeirinhas”, expressão que, inclusive, detestava usar.

Ao chegar em Itanhaém se deparou com a cidade enfeitada para a festa de São João. Aquilo lhe arrebatou de tal forma que, sem tardar, foi transferido para a tela. Assim, Volpi, a partir dos anos 50, iniciou a pintura das bandeirinhas, retratando ora as fachadas decoradas, ora a própria bandeirinha, sem relação alguma com o cenário. A liberdade criativa de Volpi o conduz para um trabalho autônomo, em que a pintura não serve mais ao propósito de contar histórias, de ser narrativa de figuras. Não vemos a festa junina retratada, apenas porque seu símbolo está ali sobre a tela. O que vimos é a pintura em festa, em seu habitat natural: linha, forma e cor.

Com a fase das bandeirinhas, que pintou até morrer, Volpi descobriu que a pintura em si mesma é uma narrativa, mas de cores, de ritmos, de planos que se interpõem, se acasalam, se repetem, se modulam, se dispersam, se reorganizam como um corpo vivo. Se a realidade é viva e segue ao sabor do vento, como a bandeirinha, a arte faz o mesmo e de forma redobrada. Tal percepção fina só poderia vir de Volpi, um homem de coração aberto e espírito humilde.



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