Diários constituem um gênero literário bastante singular do ponto de vista estético e artístico. Eles podem ser “romances escritos sob a forma de diário” ou “diários que acabam sendo lidos como romance”, segundo nos fala o colunista Renato Prelorentzou. Isso dependerá, no mais das vezes, da intenção do escritor e do modo como o público recepcionará a obra. O que vale é que o diário contém em sua estrutura compositiva a linguagem das circunstâncias. Nele não se usa a voz como que para expor emoções ou pensamentos pré-organizados. O escritor cria enquanto vive, dentro da própria rotina da vida, enumerando, descrevendo, reunindo e decupando situações que não formam um enredo, mas uma trilha de acasos.  

A escrita é sem projeto, sem destino, entra no ritmo dos encontros,  dos desencontros e dos imprevistos. É a tentativa de alinhavar em frases curtas o movimento impalpável do tempo. Como ele nos escapa, como não se sabe falar sobre ele, mas vivê-lo, conforme dizia Agostinho, então o diário tenta, nesse fracionamento dos dias e das horas, capturar o que de essencial acontece nas esquinas contingentes da existência. Apenas uma escrita nômade como essa, às vezes extensa, às vezes aforismática, para dar conta da espontaneidade que nos envolve, cuja dimensão efêmera só ganha sentido ao ser escrita com precisão e rapidez. 

O argelino Albert Camus (1913-1960)filósofo, romancista, dramaturgo, encenador e jornalista, autor de obras-primas como O mito de SísifoO estrangeiro e A peste e ex-integrante da resistência francesa, fez um excelente uso do diário no conjunto de sua obra. Recorreu a esse expediente em 1949 quando, saindo de Paris, partiu em uma expedição pela América do Sul, passando por toda costa litorânea do Atlântico até desembocar no Rio de Janeiro. A rotina de viagem pela Cidade Maravilhosa foi narrada no diário com aquele mesmo apuro literário e a mesma argúcia filosófica que lhe eram peculiares.  

Antes de desejarmos boas-vindas ao ilustre escritor e intelectual, convém apresentar o sumo de seu pensamento filosófico, mesmo porque algo dessa filosofia lhe fez companhia durante a viagem e foi decisivo para a experiência em terra brasilis. Desde a juventude como escritor (aos 25 anos, quando escreveu as anedotas que compõem O avesso e o direito), Camus se interessava pela ideia do Absurdo. Atento a sua própria experiência de vida na Argélia, ele reconheceu que aprendeu muito sobre si mesmo, sobre seus limites e fraquezas. E, na qualidade de filósofo, ampliou esse conhecimento “sobre os seres” e mais ainda “sobre seu destino.” 

Segundo Camus, o absurdo é uma experiência intersubjetiva, uma relação entre os seres e o mundo, a partir do momento em que, por distanciamento (e não por proximidade), os seres sentem e pensam que algo está em desacordo profundo. Absurdo é a desarmonia existente  entre “o que somos” e “o mundo tal como é”. Extraído do vocabulário musical, a palavra “absurdo” implica em desafinação ou em algo de difícil apreensão auditiva. Ou seja, o que Camus nos mostrou nas suas primeiras obras foi que existe algo na relação homem-mundo que, além de não ser compreendido, de não ser capturado pela percepção, também desafina e cria um descompasso em que os seres não estão ajustados ao mundo em que vivem. 

Na medida em que somos seres lógicos, encerrados em “certezas e regras de vida” que satisfaçam a razão e que justifiquem “um otimismo e um sentido social”, que nos concedam uma crença que somos livres para agirmos e querermos as coisas da forma como a fazemos, e, repentinamente, algo quebra brutalmente essa frequência, desafinando a canção e nos ameaçando com o risco de doença ou morte, então o absurdo se mostra em toda a sua força. 

Esse conjunto de fatores aniquiladores, que rompem com a falsa noção de liberdade, que desvelam a fraqueza humana diante de tudo o que retira os direitos à felicidade é o absurdo em sua expressão desumana. O absurdo não está em nosso pensamento. Não é uma conjectura. Mas sim uma relação fundamental entre o humano e o desumano, entre o desejo de felicidade e as incertezas, mistérios e imprevistos que a vida nos reserva e que supomos saber dominá-los.  

Na juventude, Camus entendia que uma das maneiras de entrar em sintonia com essa desarmonia tão inevitável entre o homem e o mundo era se lançar na vida como um estrangeiro, como um viajante, já que, nessas condições, sentimos a angústia e o vazio de estarmos sós, em um cara-a-cara conosco, libertos dos “pontos de apoio”, das bengalas viciantes da rotina, dos cenários pré-montados pelas crenças. Na viagem, “nada de familiar se fixa”, disse Camus. O ser está despojado de si e entregue ao mundo, onde tudo lhe é ao mesmo tempo fascinante e hostil. 

Em junho de 1949, munido desse espírito de absurdo, Camus partiu em viagem para a  América do Sul. No navio, já vivia o sentimento estranho de que o mundo é denso e surdo aos apelos humanos. Mas, como não poderia deixar em branco aquele desconforto, registrou tudo em seu diário: “No mar. Dia exaustivo. (…) Até mesmo a natureza é inimiga.” No entanto, o mar evoca “um sentimento de calma, uma melancolia vigorosa” que “vêm das águas.”  

“Sozinho e (…) perdido”, apequenado pela grandeza opulenta do mar, pelo “horizonte sem homens”, Camus se fixou nas manchas das ondas,  a fim de revisitar um conceito já laborado em O mito de Sísifo: o suicídio. A sensação diante do mar, essa “terrível ardência” que gera na alma, sugere o grande conflito da filosofia existencial, pois o mar é “apelo de vida e convite à morte.” A vida vale a pena ser vivida, mesmo com tudo que sugere de desumano? Nesse mesmo clima de reflexão e de abandono Camus revive a melancolia, mas também percebe “forças renascerem pouco a pouco diante desse futuro desconhecido e dessa grandeza que eu amo.” 

De 30 de junho a 15 de julho, a “dor de ser”, a “miséria dos dias”, a “tristeza profunda” acompanharam Camus – que viajou sozinho, sem mulher e filhos – e o dispuseram de tal forma a reviver as contradições da existência, pois esse sentimento se dá sob um plano de vida “pesado e fervilhante” como o mar. Mas, na madrugada de 15 de julho, ele desembarcou, com o “espírito mais distendido” e se deparou com as “luzes do Rio correntes ao longo da costa, o Pão de Açúcar com quatro luzes no topo e no topo mais alto das montanhas que parecem esmagar a cidade, um imenso e deplorável Cristo luminoso.” No Rio, “a natureza sufoca o homem.” 

Camus observou o belo traçado da Baia de Guanabara e deduziu num golpe só a geografia da cidade inteira: “na medida em que a luz nasce, vimos melhor a cidade, fechada entre o mar a as montanhas, extensa em comprimento e interminavelmente esticada. (…) Estamos no meio de enseada e as montanhas fazem em torno de nós um círculo quase perfeito.” Como não poderia deixar de ser, o encantamento pela cidade partiu primeiro de sua natureza e não de seus costumes: “a riqueza e a suntuosidade das cores que brincam na baia, as montanhas e o céu, fazem o mundo calar, mais uma vez.” Depois desse frisson estético, “o calvário começa.” 

Entrevistas, fotos, jantares, encontros. Afinal de contas, era o autor do célebre livro A peste, um dos papas do existencialismo, quem desembarcava na capital federal. Camus se hospedou em um quarto na embaixada francesa. Em sua primeira incursão pela cidade, compreendeu a falha de caráter que nos condena. Odiou o trânsito: “os motoristas brasileiros são doidivanas ou sádicos. A confusão e a anarquia desse trânsito só são compensados por uma só lei: chegar primeiro, custe o que custar.” Na mosca! 

Também se sensibilizou com o contraste social: “o mais impressionante é fornecido pela ostentação de luxo dos palácios e dos edifícios modernos com as favelas, às vezes a cem metros do luxo, espécies de bairros degradados pendurados no flanco das colinas, sem água nem luz, onde vive uma população miserável, negra e branca. (…) Nunca luxo e miséria me pareceram tão insolentemente misturados.” Ainda assim, segundo soube, os cariocas “se divertem muito.” 

Foi assim, tomado de estranhamento, como um autêntico filósofo do absurdo, que Camus experimentou os contrastes da existência sob o pano de fundo do Rio de Janeiro. No segundo dia de viagem, Camus se encontrou com Abdias do Nascimento, “o ator negro”: “devemos partir para uma macumba.” Dado que o pai-de-santo da casa não permitiu sua visita, Abdias se prontificou a levá-lo até um terreiro na baixada, em Caxias. No caminho, Abdias explicou o que era a macumba: são “cerimônias cujo propósito parece constante: obter a descida do santo em si por meio de danças e cantos. O objetivo é o transe.” Além disso, “o que distingue a macumba de outras cerimônias é a mistura da religião católica e dos ritos africanos.” 

Camus assistiu à sessão de braços cruzados. Todavia uma das entidades lhe advertiu para que os descruzasse, a fim de que “o espírito descesse.” Pela narrativa do diário, parece ter sido uma gira do “vermelho e selvagem” Exu. Barracão cheio, dançarinos em êxtase, tambores, fumaça de cigarro, poeira, calor. Camus absorvendo ali um “ar irrespirável”, desproporcional, absurdo e, no fim, concluiu: “eu amo a noite e o céu, mais ainda que os deuses dos homens.”  

Nos cinco dias que passou no Rio, percorreu “de carro (…) os jardins da Tijuca, a capela de Meyrink, o Corcovado, a baía do Rio.” Encontrou-se com o poeta Murilo Mendes, “espírito fino e resistente, um dos dois ou três que realmente observei aqui.” Apresentou uma conferência para mais de 800 pessoas em uma sala sobrecarregada. Assistiu Dorival “Kaïmi” “um Negro que compõe e escreve todos os sambas que canta o país”, tocando no violão “as mais tristes e emocionantes canções.” Prestigiou, no Teatro Ginástico, a companhia de Abdias, em uma montagem de Calígula, a primeira peça que escreveu. Estranhou um elenco negro atuando como romanos e sensualizando o que seria o “jogo cruel” da tragédia.  

Antes disso, o “fiel Abdias” conduziu Camus ao samba em “uma espécie de gafieira popular iluminada (….) em neon.” No samba, na macumba ou passeando de trem pelo subúrbio, Camus compreendeu a diversidade étnica do Brasil inserida para além do paradigma racista europeu: “só existem os Negros, aproximadamente – mas aqui isso significa uma grande variedade de coloração.” Ele se surpreendeu “em ver como esses Negros dançam lentamente, com um ritmo molhado.” Excitou-se com as ancas de uma negra passista, mas também se entediou com isso e reconheceu que assim é a vida, seja como rotina seja como viagem: um jogo fátuo, onde milagres – quando se dão – duram pouco. No entanto, essa viagem consistiu em ser “a coisa mais importante que se passou desde um número considerável de anos.” 

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