Um breve questionário que se faça, visando saber qual é a marca e o signo que evidenciam da melhor forma a infância, vai se satisfazer com uma única resposta: a brincadeira. Sem brincadeira, não há infância. Um conceito deduz o outro, como do sol deduzimos a luz. Se ambos os conceitos são correlatos, então infância é brincadeira, por uma ordem lógica. Mas o que é brincar? Que ato é esse? Como se configura? É inato na criança, de modo a se considerar a brincadeira um impulso, uma natureza? Ou não; ou a brincadeira é uma criação, um artefato da cultura, um trabalho que começa na educação, no cultivo familiar e se prolonga no mundo?

O brincar é uma linguagem ou uma natureza? Ou é os dois em tempos distintos? Algo que se aprendeu ou algo que carece sempre de um motivo, de uma circunstância exterior? Seja como for, acreditamos que a brincadeira é tanto uma quanto a outra realidade. Ela deriva da natureza infantil e é um ensino, algo transmitido, cuja influência orienta essa natureza. Enquanto natureza, o brincar é a relação autêntica da criança com o mundo; é a pulsação fisiológica e psíquica que forma a engrenagem inconsciente do ser-infantil. Nesse aspecto, a brincadeira compreende noções de inventividade, de alegria, de distração, de descoberta, de desafio, tendo como mola propulsora a interatividade da criança com o meio em que vive.

Na qualidade de linguagem, a brincadeira é o que a criança entende, organiza, classifica, nomeia, distingue, combina, compõe etc., como sendo motivo e finalidade para o prazer de interagir e de expressar suas forças internas. No domínio da linguagem está implicada a presença de uma série de códigos e de símbolos que a tradição ou a tecnologia fomentam. Se a criança se interessa pela boneca ou pelo carrinho, se ela se atrai e manipula o código que representa a forma de interatividade com o mundo, então se trata do domínio da cultura e não da natureza. Por isso, não é natural que um menino jogue bola e a menina faça “comidinha”. É, sim, um jogo de linguagem, muitas vezes hierarquizado e categorizado segundo induções.

O presente artigo aborda o conceito de brinquedo dentro de uma certa tradição para compreender que depende sempre da cultura que uma brincadeira se mantenha viva na relação da criança com o mundo. O impulso de brincar lhe é sempre vivo, salvo o caso de algum distúrbio depressivo. Enquanto o aparelho mental responde de forma funcional e ativa aos comandos do princípio do prazer, então uma criança necessariamente terá que brincar. E a relação de seu brincar com os meios de brincar? Como tal impulso se liga à cultura, à tradição?

O brinquedo é, ademais que a instrumentalização da alegria inata infantil, um produto cultural carregado de referências e símbolos. O fio que une o princípio motor do ato brincante com o meio com que se brinca é a construção de identidade, pois o ser-criança, ao brincar, se constrói. Mas que referências e símbolos estão disponíveis nesse jogo? A necessidade de se reconhecer como esse elo construtivista se realiza se faz mais ainda presente e urgente quando observamos que a referência de identidade é eurocêntrica e, portanto, colonialista.

A escritora africana Chimamanda Ngozi Adichie nos alertou para o “perigo de uma história única”, quando observou que sua infância – tendo sido de uma menina negra habitante de um país quente, se alimentando de manga do pé e não de maçãs – fosse induzida a ler Branca de Neve. Que sentido há nessa indução tão desconectada? Não existem outras vozes, outras narrativas nas quais se espelhar?

A infância brasileira está impregnada de um repertório linguístico que devemos à diáspora negra. Muitas brincadeiras são de origem africana como amarelinha, queimada, cinco Marias, batata quente, e outras que marcam a infância, sem nem mesmo terem sua origem reconhecida. Que intenções estão implicadas nesse não reconhecimento? É bastante plausível que ele seja fruto de um projeto de esquecimento/servidão que suplanta outro projeto que é o de memória/domínio. O colonialismo nos levou a tal condicionamento, de modo que é de interesse político, fundado na luta de forças, que algo seja apagado ou seja tingido de outra cor.

reconhecer-se negro é o que está em questão no empalidecer da cor. Bonecas, que são símbolos de identidade, de espelhamento, de autoconceito e de autoestima das crianças, se acham entre os instrumentos brincantes em que esse projeto de apagamento se efetiva com força. A boneca é a miniatura de um ser humano que ilude a criança pela imagem que ela representa. Tal representação enseja uma estética sustentada por um engessado paradigma de beleza. Imita-se o ser humano. Mas ele deve ser louro, de cabelos lisos e olhos azuis. Temos aí a Barbie. Muitas meninas têm ou querem ter uma. Mas será que por “escolha” ou por indução?

Nas escolas populares, crianças etnicamente diversas não elegem o paradigma eurocêntrico; ao contrário, são pressionadas a isso, por falta de identificação, por carência de modelos amplos de representação; também por causa da fabricação massificada da imagem padrão. O projeto de apagamento prevê que, afastando a identidade de seu reflexo, aquele que não se encontra no grupo étnico dominante não se veja ou que se iluda quanto a sua imagem. A criança preta passa a se ver como branca, ainda que a pele contrarie esse autoconceito.

Abayomi são bonecas que conectam a identidade com a cultura, de uma forma africana e não de uma forma eurocêntrica. Por isso mesmo são signos de resistência, não só da identidade preta, como uma história de resistência das mulheres africanas. Conta-se que, nos navios negreiros, as mães foram separadas dos seus filhos. Para dizer que estavam vivas, arrancavam retalhos das próprias saias e, apenas com nó, faziam as bonecas. A boneca era feita com malha preta, sem costura e sem detalhes de olhos e boca, para representar as diferentes etnias africanas. Reparavam, assim, a dignidade materna quebrada e se mantinham unidas. Além disso, mantinham acesa a chama da memória da mãe África.

Havia na boneca um sentido de manutenção e de cuidado. Abayomi, em iorubá, significa encontro precioso. Encontro com a memória, para que, na viagem longa e tortuosa para uma terra desconhecida, aquele amor e aquela identidade não se apagassem com o tempo. A boneca acalentava a dor daquele segundo parto: a distância. Para não se esquecerem de sua natureza materna, as mulheres confeccionavam aquilo que substituía de forma lúdica o amor apartado.

A boneca era útil não só para avivar a afetividade e os elos comuns, mas uma forma de encher de significado aquele espaço melancólico e insalubre que era o navio negreiro. Homens e velhos também brincavam. Aquele instrumento improvisado não só arrancava alegria dos corações, pelo fato de poder se produzir uma boneca com as próprias mãos e com material reutilizável, mas também porque, pelo fato de ser brinquedo, a boneca abria espaço à fantasia.

A África pode ser esquecida, mas ela, em si, não é esquecimento. Sua cultura é rica, na medida em que concebe meios de fazer a memória da história e da ancestralidade persistir. Enquanto a criança tiver brinquedos que se identifiquem com sua realidade, a construção de seu ser não será um apagamento, mas um reforço, no presente, de seu passado. No presente, a identidade se revela, naquilo que pensamos, queremos e imaginamos. No passado, se encontra, no corpo e na alma de outros seres, identidades que se ajustam e se correlacionam com a nossa.

A boneca Abayomi exerce o poder de encontrar o passado ancestral com o presente diário de cada criança preta que, observando sua pele no espelho, enxerga a mesma cor rebatida na superfície. A boneca é preta e o espelho, então, revela uma criança preta e não mais empalidecida por um projeto silencioso e pernicioso de destruição da diversidade. Sendo a criança um alvo da indústria cultural, facilmente cooptada, então é de extrema relevância que a boneca Abayomi venha se tornar protagonista e não seja mais vista como o “estranho”.

A estética do estranho e do exótico é um olhar eurocêntrico que se posiciona de cima, apontando o dedo julgador para baixo, a fim de apequenar o que é diverso. Por isso, todos os modelos negros são modelos invisíveis ou inexistentes. A partir do momento em que a boneca negra se faz presente, a identidade é constantemente afirmada, desde a infância. Assim, meninas negras, que reproduzem o argumento colonialista, dizendo que o “bom” é sinônimo de “liso”, “branco” e “azul”, são conscientizadas (e não induzidas) a desfilar suas africanidades.

Não basta sabermos que uma boneca tem o poder engrandecedor de unir o presente ao passado e de reforçar a memória. Faz-se emergente que a memória que a boneca suscita seja projeto e vença aquele do apagamento, através de estudos sobre a África, primordiais para a criança refletir com orgulho no espelho (autêntico) da identidade, tradicionalmente renegado e embaçado pelo eurocentrismo que rege a cultura, nos valores e nas instituições. Por isso, identificar-se com o passado requer inserir novas diretrizes sobre antigas bases.



Toda manhã o resumo do Rio de Janeiro

2 COMENTÁRIOS

  1. Meu nome é Diva. Sou Arteterapeuta e faço diversos trabalhos com as Abayomis!

    Recomendo, por favor, assistir a entrevista com a Educadora, Artesã e Criadora das Bonecas Abayomis que se chama Lena Martins na TV Cultine. Vamos corrigir essa história absurda e divulgar o que é verdadeiro!
    Gratidão!

  2. Olá Filipi, boa tarde! Me chamo Valeria Rodrigues, Nou Pedagoga, bailarina de afro Contemporâneo e artista plástica. Como mulher negra que honra suas origens, sempre contei a história das Abayomis com essa versão que você trás no seu belicismo texto e jamás pensei em questionar-la, até porque me confortava saber que minha Tata, uma dessas crianças raptadas em África e trazida para o Brasil como escravidão. Entretanto, recentemente, me interei de uma versão de que a boneca foi criada por uma artesã pernambucana que vive no Rio na década de 80. Lena se chama a senhora! Que pelo que parece, não foi quem criou essa história!
    Desde então, estou pesquisando para descobrir a origem dessa história de que as bonecas vieram com as mulheres escravizadas nós navios negreiros. Vc teria fontes da onde posso buscar essa informação mais pautada na história dos nossos ancestrais?
    Gratidão desde já pela sua atenção!

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