A expressão toxicidade se irradiou em diversos manuais de felicidade espalhados por aí. Tomou, pela repetição do uso, o corpo de um conceito eudemonológico. Na boca de alguns especializados, é a queridinha, a “cereja do bolo”. Em geral, quando dela ouvimos falar é porque se apresenta em textos de cunho psicológico se reportando ao caráter frustrado e/ou violento de um comportamento disfuncional e, portanto, infeliz. Pessoas tóxicas infectam ambientes com seus transtornos emocionais e seus desamores. No entanto, o contrário também é verdadeiro. O ambiente, devido ao seu alto grau e frustração e de violência, é capaz de timbrar sobre nossa alma impressões indeléveis. A toxicidade paira no ar em espaços privados e públicos nos quais resulta insuportável viver.



Toda manhã o resumo do Rio de Janeiro

O poeta e ensaísta Charles Baudelaire (1821-1867) eivou-se dos eflúvios tóxicos da cidade de Paris, onde viveu durante quarenta e seis anos. E isso se deu porque o poeta, na pessoa de Baudelaire, abandonou o idealismo que há séculos engessava a criatividade, que fazia da poesia um artesanato de escritório, e se deixou levar pelo presente, pelo acontecimento, pelo hoje. Não havia outro caminho se não sair dos gabinetes e, fazer o que anos mais tarde fariam os impressionistas na pintura, a saber: experimentar a fugacidade, o feérico, a multidão, a vida urbana. De acordo com a especialista Gilda Bittencourt, toda a obra de Baudelaire focaliza “a vida parisiense contemporânea (…) retratando o espetáculo insólito das ruas da metrópole” e “descrevendo um espaço mundano, vibrante e modernizado.”  Foi então que Baudelaire deu nascimento a uma “nova poética”, a um novo olhar criador.

No esquema social definido pela nova ordem que vigorou na segunda metade do século 19, Baudelaire incorporou a figura do flâneur. O flâneur era aquele que vagava pelos largos quarteirões da cidade, travando contato com as pessoas e com os espaços públicos, no ímpeto de experimentar as novidades, os novos prazeres e de sentir que Paris era aquela em que grandes movimentos políticos e artísticos se arvoravam em uma velocidade e em uma diversidade impressionantes. No entanto, conforme disse sabiamente Schopenhauer, quando o ímpeto não acha mais ao seu dispor algum motivo onde desafogar sua fome de felicidade, então tudo se torna entediante.

Abrir-se e lançar-se ao frisson da cidade tem, no entanto, suas consequências. Mesmo com todo o esplendor da modernidade, com a cartografia urbana traçada e apinhada de carros, de bondes, de burgueses, de operários, de mendigos, de prostitutas, de desempregados, de amantes, de adúlteros, de ébrios de toda espécie, a cidade exala seu odor tóxico e logra infectar aquelas almas mais suscetíveis.  Ao mesmo tempo em que ao poeta se descortinou a modernidade, se descortinou o tóxico que ela emana: o tédio. Na obra de Baudelaire, ele traduz tédio cunhando o conceito spleen; que, dito de outro modo, quer dizer sentimento intoxicado diante do mundo. Não se trata apenas de um mal-estar do sujeito moderno com a cidade, mas de como nenhuma distração na cidade pode privar sua subjetividade da intoxicação do tédio – que aqui ganha uma dimensão mais existencial do que social.

Em As flores do mal, Baudelaire descreve o modo como o spleen infecta a alma: “quando pesa o céu” e a “tampa grave e baça” pousa “sobre o espírito a gemer aos tédios e açoites”, “vertendo um dia negro e mais triste que as noites”. “O tédio”, diz Baudelaire, é “fruto da morna incuriosidade”, ou seja, da apatia que nos leva a não achar mais nada interessante porque nem toda diversidade é capaz de dar conta de algo que a vontade e o ímpeto nunca encontram de saciedade. Se nada sacia, tudo desencanta, então todos os dias são “dias tão mancos”, para os quais há algo que nunca se completa. E que desconhece limites; o tédio “assume proporções da imortalidade”. Por causa dessa potência tóxica, o tédio rebaixa o sujeito moderno à condição existencial de “pobre matéria viva” que  dorme “o seu sono profundo.” A cidade, que lhe parecia um oásis de oferta, se torna um Saara, de onde nada brota.

Há, no entanto, um paliativo para o tédio. Em suas aventuras pela cidade de Paris com os amigos, também poetas, Gustave Le Vavasseur, Ernest Prarond, Auguste Dozon, Gerard Nerval, Baudelaire descobriu o Club des Hashishins, um grupo de simpatizantes e fumantes de haxixe freqüentado por Balzac, Gautier e Banville. Aos dezenove anos, por seu temperamento libertino e boêmio, Baudelaire já tinha sido deserdado pela mãe e pelo padrasto. Contando apenas com a parte da herança do pai, com a ajuda da qual pôde durante a vida esbanjar luxos e desfrutar de uma vida de frugalidades e desperdícios. Sem domicílio fixo, passou a morar em pensões e hotéis, entre eles o formoso Hotel Pimodan, construído no século 17 e situado na rive droite do Sena, local onde os membros do Hashishins se encontravam. O curioso é que o hotel só tinha por locatários gente boêmia e diletante, afinada à índole do artista, conforme explica o escritor Jean-Baptiste Baronian na biografia Baudelaire.

As reuniões dos haxixeiros ocorriam sistematicamente no apartamento do pintor Joseph-Fernand Boissard que, com boa conversa, música e afinidades artísticas e estéticas, atraía um grupo de jovens para, acima de tudo, apreciar o haxixe. Baronian relata que “não é qualquer um que freqüenta o belo apartamento ocupado por Boissard e seu faustoso salão de música decorado com espelhos, painéis de madeira pintados e sedas de Lyon.” Era um grupo seleto, “escolhido a dedo”, que incluía a nata marginal da intelectualidade francesa. Entre os haxixeiros, encontravam-se os célebres pintores Eugène Delacroix e Honore Daumier, bem como médicos e escritores.

Fugir da intoxicação entediante da cidade requer incorporar novos ritos que sejam capazes de atiçar no sujeito moderno um “estado excepcional do espírito e dos sentidos”; estado de alma esse que, sem exageros, podemos chamar de “paradisíaco se comparado às pesadas trevas da existência comum e cotidiana”, segundo as palavras de Baudelaire. Baronian diz que Baudelaire “estava sempre disposto a entusiasmar-se, a extasiar-se, a conquistar novas volúpias, a acreditar na beleza das coisas”, mesmo a despeito do tédio em que vivia causado pela “besteira francesa” e que, conforme suas próprias palavras, “sofria tanto há vários anos.” O culto ao haxixe era uma dessas tentativas de burlar o tédio e de ativar esse estado excepcional da alma, que ele chamou de gosto pelo infinito, um gosto por sentir a “elevação constante do desejo, uma tensão das forças espirituais voltadas para o céu”. O uso do haxixe era de exclusivo fim medicinal, pois se tratava de uma “dieta apropriada para fornecer” uma “saúde moral, tão radiante e tão gloriosa”, uma “verdadeira graça, como um espelho mágico onde o homem é convidado para a ver-se belo, isto é, tal como deveria e poderia ser, uma espécie de excitação angelical.”

A lógica que compõe a tese da moralidade dos haxixeiros se embasa no fato de que uma vez que “as coisas da terra são muito pouco reais” e “a verdadeira realidade só existe nos sonhos” é preciso elevar o estado da alma. Mas, para isso, o sujeito moderno deve deliberadamente submeter-se à “exposição de volúpias artificiais” que, com efeito, transcodificam o real em sonho, avizinhando e emparelhando a linguagem onírica da linguagem cotidiana. Se nos debruçarmos nas linhas narrativas de O poema do haxixe, escritas por Baudelaire junto com O poema do vinho e O comedor de ópio (que, depois, reunidos, formaram o livro Paraísos artificiais, publicado em 1860), compreenderemos a dimensão moral e física da experiência que leva o homem a “criar o Paraíso através da farmácia, das bebidas fermentadas”, depravando o “sentido do infinito” em alguma espécie de embriaguez.

Há uma beatitude que o os seres almejam encontrar para realizarem aquilo que suas volúpias decretam como apetite de poder. Baudelaire, assim como Nietzsche, entendeu isso como embriaguez. O gosto pelo infinito é um incansável ímpeto por se embriagar. Por isso, o poeta reconhecia: “é preciso estar sempre bêbado. Está tudo aí: essa é a única questão. Para não sentir o fardo terrível do tempo que nos despedaça os ombros e inclina para o chão, é preciso embriagar-se sem trégua. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, do que preferirem. Mas embebedem-se.”  O que vale é se dar ao desfrute de viver a experiência deliciosa de um falso ideal de felicidade.  

Se os paraísos não existem ou só existem em um post-mortem garantido por Deus, que o criemos na terra, que façamos dele um dom telúrico, que o subvertamos! Foi com esse propósito, com esse sentido de revolta, que se fez o clube dos haxixeiros: para blindar a ação funesta do tempo, para driblar o tédio de viver nas cidades e para, enfim, se regozijar no braseiro ensandecido de uma droga. O paraíso se abre pelas portas do haxixe. Baudelaire fala de sua procedência: “o haxixe, de fato, nos vem do Oriente; as propriedades excitantes do cânhamo eram bastante conhecidas no antigo Egito, e o uso é muito difundido, sob diferentes nomes, na Índia, na Argélia e na Arábia Feliz.” Acrescenta que “o haxixe, ou cânhamo indiano, cannabis indica, é uma planta da família das urticáceas, semelhante em tudo, a não ser na altura, aos cânhamos dos nossos climas.” É nomeado de diversas formas que variam com seus modos de preparo: “na Índia, banguie; na África, teriaki; na Argélia e na Arábia Feliz, madjound, etc.”

Quanto ao uso, há variáveis, pois “algumas pessoas fumam haxixe misturado com tabaco”, como em Constantinopla, Argélia e na França. Ao passo que, no clube dos haxixeiros, eles seguiam o modo como preparam os árabes, ou seja, extraindo “o óleo essencial do haxixe (…) obtido fervendo os topos da planta fresca em um pouco de água com manteiga. Após completa evaporação da umidade, é filtrado e obtém-se assim uma preparação que tem a aparência de uma pomada de cor amarela esverdeada e que conserva um cheiro desagradável de haxixe e manteiga rançosa.” Para quebrar esse aspecto repugnante, adicionam açúcar, baunilha, pistache, amêndoa e almíscar. Depois disso, convertem o óleo essencial em geléia, o dawamesk. Essa matéria resinosa é, então, distribuída “em doses de quinze, vinte e trinta gramas” e diluída “em uma xícara de café.”

No que tange aos efeitos físicos e psicológicos do haxixe, Baudelaire é taxativo: as “ondas” de “bem-estar e de plenitude de vida” resultam conforme o usuário: “o resultado varia num mesmo indivíduo”. Ademais, a “impaciência infantil” que turbina a curiosidade de quem quer saber como se alcança a elevação do estado de alma, termina considerando a embriaguez do haxixe “como um país prodigioso, um vasto teatro de prestidigitação e mágicas onde tudo é miraculoso e imprevisto.” A loucura do haxixe não repete o percurso da Alice de Lewis Carrol! O mundo não fica “estranho e transtornado”, adverte Baudelaire. Ele se encobre, sim, de uma segunda pele onírica, mas “as viagens” haxixeiras tecidas de real, são delírios “cheios de vida cotidiana, de preocupações, de desejos, de vícios” e “combinam com as de maneira mais ou menos estranha com os objetos vislumbrados durante o dia, que se fixaram indiscretamente na memória.” Não é o sonho de quem dorme, mas de quem desarticula a realidade.

“A embriaguez”, narra Baudelaire, “em toda a sua duração, não passará, é verdade, de um imenso sonho, graças à intensidade das cores e à rapidez das concepções; mas sempre conservará a tonalidade peculiar do indivíduo”, relacionando-se ao temperamento do usuário e sua suscetibilidade nervosa e, consequentemente, de sua disponibilidade psicológica. O sonho é dosado na farmacêutica do haxixe, através da distribuição em gramas do cânhamo resinoso e pastoso, mas ele é graduado, ou seja, ele galga níveis de elevação espiritual que são medidos de acordo com a vida e o cotidiano do sonhador. Artistas, por exemplo, se regozijam do haxixe com um diferencial significativo em comparação a um usuário vulgar. Sendo um “espelho de aumento” das impressões sensíveis e dos pensamentos que assimilamos e/ou concebemos, o haxixe adiciona à personalidade “o sobrenatural na sua vida”.

 A experiência narcótica do haxixe, para Baudelaire, se expressa pelo que possui de divino, ou seja, introduzindo o infinito e o sobrenatural no espírito, mas seguindo uma via material, natural e consumível, que gera a “energia acidental das suas sensações” sublinhando o indivíduo enquanto ser, fazendo dele “o mesmo homem” só que “aumentado, o mesmo número elevado a uma potência altíssima.” Esse é o primeiro estágio da droga, onde a força positiva do paraíso é o que domina. Dá-se o momento da hilaridade. “Eis então a felicidade!” – reconhece o poeta. “A felicidade com todas as ebriedades, todas as loucuras, todas as infantilidades” que “cabe numa colherzinha”. Ri-se de uma alegria “bizarra, irresistível, que se apodera de você”; são “acessos de alegria sem motivo, que quase o deixam acanhado”, que “acontecem com freqüência entrecortando intervalos em de estupor durante os quais você procura em vão concentrar-se.” Ideias, nomes e rostos. Tudo esboça uma cena ridícula.

Quem te conduz ao paraíso é um daimon sob a forma de uma matéria oleosa diluída no café e saboreada em uma colher: “o demônio já o invadiu”. Dali em diante é alegria dolorosa de quem foi atacado por cócegas. “Você ri de si próprio, de sua bobagem e de sua loucura.” O ambiente é tomado por uma “alegria pueril” em que as conexões com as idéias se tornam vagas e absurdas, deixando apenas aos cúmplices da loucura a sua compreensão. Depois do riso, vem o torpor, “como um apaziguamento passageiro”. O corpo apresenta “uma grande fraqueza em todos os membros; suas mãos ficam moles e, na cabeça, em todo o ser, você sente um entorpecimento e uma estupefação perturbadores.” O infinito da alegria dá lugar ao infinito dos sentidos: “os olhos crescem e são como puxados em todos os sentidos por um êxtase implacável”; “os lábios encolhem (…), a garganta fecha-se (…), a boca fica ressecada”. O corpo é tomado por um “estado de languidez e assombro que era quase felicidade.”

Após o “desejo de preguiça e imobilidade”, que vem acompanhado de um “frescor nas extremidades (que pode chegar até um frio muito intenso em alguns indivíduos” e um “frenesi mudo”, o usuário de haxixe começa a fase das clarividências, de uma “acuidade superior de todos os sentidos (…) é aí que começam as alucinações.”  Analogias que a imaginação do usuário traz consigo ganham tonalidades diferentes levando-o a uma insólita contemplação dos objetos exteriores; que se manifesta normalmente em toda mente poética, acostumada a “equívocos, enganos e transposições de idéias” só que agora em um grau excessivo e sob um regime incontrolável.

Paga-se caro por todo prazer desmedido. A experiência com o haxixe ensinou a Baudelaire que a ebriedade da natureza aguça no indivíduo seu “olho interior” que “transforma tudo e confere a cada coisa o complemento de beleza que lhe falta para que ela seja verdadeiramente digna de agradar.” O haxixe fornece meios para o espírito recompor o universo; ele é “verniz mágico” que pintamos sobre as coisas. Mas essa ambição do espírito, “em virtude de uma lei incontrolável” faz o individuo decair no inferno do dia seguinte: a indisposição psicológica e a fadiga física, “todos os órgãos, relaxados, cansados, os nervos frouxos, as insistentes vontades de chorar, a impossibilidade de se dedicar a um trabalho seguido.” Intoxicou-se para se livrar do tóxico do tédio, mas no fim o tóxico só variou de forma, pois volta a repetir todo o ciclo. O pós-paraíso ensina que o sonhador haxixeiro “brincou uma brincadeira proibida” ao se deliciar dos bens do céu e da terra “com uma colherzinha de geléia.”

Comente

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui