Creio que a máxima que Milton Nascimento cantou, em “Nos bailes da vida”, nunca foi tão bem incorporada por um artista como no caso do grande Gonzaguinha. A canção composta pela dupla Nascimento e Brant, lançada em 1981, postulava o seguinte: que o artista, essa “alma repleta de chão”, “tem de ir aonde o povo está”. Amigo do cantor mineiro desde a época do Movimento Artístico Universitário, o MAU, Gonzaguinha entendeu na prática o conteúdo da mensagem; e, ao longo de uma carreira que durou mais de vinte anos, não fez outra coisa senão correr Brasil a fora na intenção de conquistar o pão, o sonho e o povo. Velava no imo peito do artista a gana por “buscar o caminho que vai dar no sol”, desde jovem.  

Em 22 de setembro de 1945, no Rio de Janeiro, veio à luz Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, filho de Luiz Gonzaga e de Odaleia Guedes dos Santos. Ambos os genitores eram envolvidos no ofício da arte. O pai, é bem verdade, dispensa apresentações: é simplesmente o rei do baião, cantor, compositor e instrumentista nordestino popularíssimo. A mãe que, na canção “Odaleia” (1978), chamava de “menina da luta”, de “morena catita” era “a cantora esquecida das noites brasileiras” que morreu de tuberculose dois anos depois de seu nascimento. Como na época Gonzagão percorria o país em turnês e não pôde assentar em casa e acolher o filho, por rejeição de Helena, sua mulher na época, deixou Gonzaguinha aos cuidados dos compadres Leopoldina de Castro, a Dina, e Henrique Xavier, o “baiano do violão”.

                No convívio com os padrinhos, no Morro de São Carlos, aprendeu a apreciar a vida e a arte. O baiano Xavier tocava nas calçadas de Copacabana ou na zona do mangue. Observando o empenho profissional do padrinho, e longe do pai, Gonzaguinha foi se sentindo mais atraído pelo violão do que pela sanfona. O ambiente caseiro foi, sem dúvida, o foco de maior influência musical. Incentivado pelos pais adotivos, ouvia os fados de dona Dina (que era de origem portuguesa), bolero, samba-canção e sertanejo; sem falar nos breques de partido alto que naturalmente ouvia entre um beco e outro na voz dos sambistas da Unidos de São Carlos. Com isso, enriqueceu-se no gosto artístico tendo, assim, uma infância rara para um menino pobre. 

Dividido entre a música e a peraltice, Gonzaguinha forjou sua personalidade à margem do território do morro, metido entre cabrochas, malandros, lavadeiras e trabalhadores. A rotina do “moleque Luizinho” – apelido de infância – não se diferenciava dos meninos de seu tempo. Em diversas canções Gonzaguinha se reportou à própria vida. Em “Moleque” (1973) cantou as agruras da infância e de seu espírito irrequieto: “de mão, de pé, pau cajado, no tapa, na briga me acabo/Revolvo, reviro, decido/ E mesmo no ganho ou perdido, me amigo ao amigo inimigo, me livro do mau e do perigo/ De bicho pelado que trança ideias de uma vingança que é pra me cuidar”. Demonstrava, desde aí, que o saber cuidar de si, aprendido nas lições da marginalidade local era fato decisivo para tudo o que viria pela frente em sua vida.

O moleque Luizinho cresceu levando pedrada, tomando “teco” de estilingue, caindo de fuça na quina da cama e levando consigo uma ferida no olho que lhe tirou 80% da visão. Mas a audição, boníssima, compensou o estrago. Aos poucos nascia um cantor – que, a despeito do talento inegável, o artista recusava ser: “sempre toquei um instrumento e poderia chegar a tocar bem, sendo um músico profissional, coisa que não sou. Sou um compositor e um intérprete que também toca violão, mas não sou músico nem tenho intenção de me arvorar a sê-lo”.[1]

A juventude deixou para trás as travessuras e Gonzaguinha apegou-se, enfim, ao violão, vindo a compor as primeiras canções. Mas, pressuroso em definir um futuro acadêmico ao filho, Luiz Gonzaga tirou-o do morro e levou-o para morar com ele, na Ilha do Governador, na intenção de matriculá-lo em alguma boa escola. O pai o queria doutor, como era de praxe. Mas notava o rapaz desinteressado da carreira e agarrado à música. A madrasta Helena, como não o aceitava, implicava com o jovem e fazia ventilar o boato de que Luiz Gonzaga não era o pai biológico. Gonzaguinha perturbou-se e revoltou-se com aquela relação silenciada. Até que, em uma conversa franca, o pai abriu o jogo e lhe disse a verdade: era seu pai apenas em registro civil.

Segredos revelados, discussões acaloradas, violões quebrados. Gonzaguinha, abalado com a atmosfera hostil da casa do pai, contraiu tuberculose aos quatorze anos, abeirando a morte. Por fim, curou-se. Entretanto, sendo a relação com Helena conflituosa, Gonzagão mandou o filho para um internato, de onde só saiu aos dezoito anos. Concluiu o ensino básico e se inscreveu no curso de Ciências Econômicas da Faculdade Cândido Mendes, contrariando a vontade do pai. Foi quando iniciou a amizade comdiversos compositores universitários como Ivan Lins, César Costa Filho, Aldir Blanc, Lucinha Lins, Paulo Emílio em torno das rodas de violão e no boa prosa sobre arte e política na casa do psiquiatra Aluízio Porto Carrero, na Tijuca.

                Desses encontros, realizados às sextas, o desconfiado e introspectivo Gonzaguinha extraiu frutos positivos: envolveu-se com Ângela, filha de Aluízio, que se tornou sua primeira esposa e com quem teve os filhos Daniel e Fernanda; enturmou-se com artistas insurgentes que se rebelavam não só contra a ditadura que começava a recrudescer a ação opressiva através da censura e do AI-5, bem como contra aquilo que Ivan Lins chamou de pretensão em “romper as barreiras do mercado, com a consciência de que os festivais não projetavam ninguém”.[2]  

Ao lado dos companheiros, sem mora, Gonzaguinha compreendia a realidade social e política que o cercava, dentro daquele cenário de repressão e de medo armado entre os anos de 1968-1975. A faculdade lhe abriu ainda mais os olhos, alertando-o para o drama da vida do povo brasileiro. A conexão com a realidade não se fazia apenas nos bancos da universidade, mas principalmente nas subidas e descidas, nas curvas e falhas do concreto do morro onde morou. Gonzaguinha diplomou-se de outra forma, não desejada pelo pai, é claro; mas tornou-se doutor em ciência do povo, fosse pelo que estudou enquanto universitário fosse pelo que conheceu em suas viagens pelo país adentro, sozinho ou ao lado pai Gonzagão, quando excursionaram juntos.

                A bem dizer, Gonzaguinha é um ser errante que, por necessidade, precisa se mover, se deslocar, provocar trânsitos e desenhar rotas no espaço. Seu combustível energético é a crença,“o acreditar na alegria de ser, nas coisas do coração, nas mãos um muito fazer”. Vida, paixão e arte o movem internamente, mas externamente é o “cheiro do asfalto” que o atrai para um fluxo de errância mundana. Na canção “Com a perna no mundo”, deixa um recado emocionado à sua madrinha sobre essas forças motrizes e sobre o destino que escolheu para si: “Ô, Dina/ Teu menino desceu o São Carlos/Pegou um sonho e partiu/Pensava que era um guerreiro/ Com terras e gente a conquistar/Havia um fogo em seus olhos/Um fogo de não se apagar”. 

A perspectiva do cantor errante é ver a vida pelo alto, sob o ângulo de quem se situa no morro e contempla o mundo por uma medida mais ampla do que ela é. O cantor errante projeta seu sonho no mundo e não apenas na imaginação porque sua necessidade é um movimento, um deslocar das fronteiras, indo do morro ao asfalto e do sonho à realidade. Errar pelo mundo não é uma fuga, mas uma forma telúrica de conhecimento, de ciência, de sabedoria: “Diz lá pra Dina que eu volto/ Que seu guri não fugiu/ Só quis saber como é, qual é, perna no mundo sumiu”. Em “Por aí” (1977), a errância se mostra em sua natureza de extensão ilimitada: “muito que andar por aí/muito que viver por aí/muito que aprender por aí”, diz Gonzaguinha.

Da mãe/madrinha Dina aprendeu, como diz em “É preciso” (1974), a cantar na mesma proporção que lutar, “levando a luta, cantando um fado, alegrando a labuta” com vistas a conquistar um lugar no mundo enquanto trabalhador. “Pois sem o seu trabalho, o homem não tem honra e sem a sua honra, se morre se mata”. Em contato com a mãe lavando roupa, sustentando os filhos de sangue e os de coração, Gonzaguinha absorveu as limitações da existência na qualidade de pobre; compreendeu que vida honrada só é possível enfrentando a batalha diária para além da ilusão do “filme do Cine Colombo”, onde ia se divertir no Estácio. Mas que não exclui o pobre de desaguar a imaginação desejante “no asfalto do largo do Estácio” ou imitar o deslocamento dos bondes que trilham “avenidas, ruelas e becos da cidade”.

O “guri” Gonzaguinha é errante; não é um fugitivo; e explica à madrinha: “não se zangue”, pois tendo aprendido a ser malandro, ele não suja as mãos. “Apenas eu quis conhecer a cidade, saber da alegria e da felicidade que vendem barato em qualquer quitanda/ Mas volto arrasado/Tá tudo fechado/ Talvez haja falta/ Não há no mercado”. Esses versos mostram que, de início, o cantor se deparou com muros aparentemente intransponíveis que pareciam impedir que sua música desaguasse no mercado. Tárik de Souza afirmou que, para Gonzaguinha, ao começar a carreira profissional em 1967 e encontrar em 1968 o AI-5 em vigor, “a porta se fechou violentamente” e a repressão se abriu censurando inúmeras de suas canções.[3]

Por essa razão, a música de Gonzaguinha não poderia ser outra senão uma errância, uma necessidade inquietante de criar linhas de fuga no meio da inflexibilidade de uma cultura sufocante. O trabalho artístico de Gonzaguinha se resume a uma caminhada descendente, no propósito de vazar a bolha do mercado fonográfico, agora controlado por censores incultos. Se o Brasil militarizado e iludido com a falsa propaganda nacionalista do milagre econômico tinha ojeriza à imagem pauperizada da cultura, à exposição das feridas sociais que nos molestavam, Gonzaguinha tentava nadar na direção contrária, com a mesma rebeldia que enfrentou o pai.

Foi preciso lutar; e caminhar. E a errância levou o menino sonhador de cima a baixo, na direção de sua realização enquanto homem; também levou o artista ao povo; movimento esse que o interdita do isolamento na torre de marfim da arte em que o imaginário ou a fama correm o risco de encarcerá-lo, e o integra ao quadro da realidade. Esse movimento que conduz o artista para fora Gonzaguinha realiza na composição crônica da vida social, política e cultural do brasileiro; por isso, comunicando-se com este, ainda que os críticos o considerassem impopular.

Talvez o problema fosse porque a linguagem poética de suas canções, às vezes, escapava ao domínio do público, pela recorrente utilização de figuras como ironia, metáfora, aliteração, eufemismo etc. e pela maneira de licenciar o não-dito, o subentendido, driblando a censura. Na qualidade de cantor errante, Gonzaguinha não poderia deixar sua linguagem ser formatada e acorrentada nos moldes simplistas do mercado fonográfico; ele deveria estar atento à necessidade de deslocamento, de desvio, de vanguarda, de marginalidade consciente.

Além dessa cisma, a alcunha de “cantor-rancor” que recebeu nos anos 70, restringiu sua música às estigmatizações preguiçosas que o definiram como o cantor “sofrido”, o autor de arranjos elaborados, de letras densas e dono de uma interpretação carregada.

Mas o artista supera a escuta viciosa da crítica rachada entre o patrulhamento de esquerda (que só exigia dele letras com engajamento político) e de direita (que se incomodava com tanta crítica social). Sua música é viajante e nos convida a um passeio por diversos gêneros, reprocessando no “caldo de cultura”, como disse Tárik, elementos da bossa e da tropicália. Logo, é impossível pensar em Gonzaguinha desprendido de sua incrível versatilidade, de seu mover. Fado, bolero, samba-canção, partido alto, toada, forró, sertanejo. Esse notável artista explorou ao máximo o vocabulário musical que dispunha, principalmente depois que viajou pelo país em turnê, ouvindo e experimentando o robusto material popular, agregando valores herdados tanto de seu pai quanto do legado inteiro da música brasileira. Em entrevista, Ivan Lins reforçou minha fala ao destacar “a pluralidade rítmica, musical, brasileira” de Gonzaguinha.

Nas errâncias do cantor menino estão começos, fins e recomeços. É uma música que, além de estar em movimento, se desprendendo de limites fixados pelo mercado fonográfico, aborda o movimento como tema. Vimos na belíssima “De volta ao começo” (1980), aquela alegria do menino ressurgir na “menina dos olhos” do “menino com o brilho do sol”, disposto a ir “ao fundo do fim”, “de volta ao começo”, para se lançar na vida depois de ser combalido novamente pela tuberculose, em 1975, mas também de ter se reconciliado com o pai, em 1979.

Gonzaguinha atravessa meios, furando os cercos: parte do íntimo, do coração explosivo, do grito contido, do morro, desce, enfrenta censores, plateias vazias, cai na estrada, no sertão e ganha o mundo. Se não tem o sangue, é, antes, feito da mesma materialidade movente e cíclica do pai Luiz Gonzaga: de “mar e terra”, de “inverno e verão, de “chuva e sol”, de “poeira e carvão” andando “por esse país” em uma vida de pura errância artística, cantando sobre o povo e para o povo, como na comovente parceria pai-filho na canção “A vida de viajante” (1979).

O poeta, que não era “do Estácio”, como Ismael ou Melodia, mas poeta do mundo, muda no tempo, nas circunstâncias; mas cuidando, no fundo, em permanecer o menino aberto e humanista de sempre, que “sorri e estende a mão, entregando o seu coração” redescobrindo fontes de amor. O bolero “Começaria tudo outra vez” (1975) endossa a brava peleja: recomeçar desde a base, sem medo, cantando “as coisas todas que já tive, tenho e sei, um dia serei”, pleno de fé, em um momento de abertura, de redemocratização, de liberdade pairando no ar. Retroceder para avançar – esse é o caminho das ondas e de um cantor ciente do devir do mundo.



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