Encantei-me quando soube que a expressão “janela da alma”, a mesma que psicólogos costumam usar para se referir às potências do olho humano, era de autoria de nada mais nada menos do que Leonardo da Vinci. Admirador de longa data do artista e do cientista italiano, confesso que me alegrei ao saber de outra genialidade assinada por ele. Encontrei a expressão em uma coletânea de anotações esparsas de Leonardo, que versavam sobre os mais diversos temas (pintura, estética, anatomia, botânica, hidráulica, fisiologia etc.). Foi lá, em Os Cadernos de notas, um tratado humanista que une ciência e arte, que pesquei essa enigmática frase.



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Na opinião de Leonardo da Vinci, os cinco sentidos que compõem a estrutura corporal são auxiliares da alma. Cada um desempenha uma função específica que responde estímulos externos capazes de afetá-los. O sentido corporal é a apreensão do que se estende no ar, de modo que cada sentido reage à forma como a matéria alcança o órgão sensível. A audição e o olfato, por exemplo, se afetam com modulações soantes e exalantes no ar, mas não é o som nem o odor que tocam no órgão sensível, mas a própria modulação do ar. Aristóteles dizia que o som em contato com o ouvido não produz sensação sonora; é preciso, antes, que haja um distanciamento entre o órgão sensível e aquilo que ele é capaz de perceber. 

Leonardo notou que os sentidos, ao manterem o jogo com as modulações aéreas ou terrenas (no caso do tato e do paladar), formam aquilo que ele chamou de sentido comum; que nada mais é do que a faculdade intelectual humana. Entre o sentido comum e os órgãos de percepção há uma comunicação intrínseca. Segundo ele, “as imagens dos objetos circundantes são transmitidas aos sentidos e estes as transmitem ao órgão de percepção. O órgão de percepção por sua vez as transmite ao sentido comum e por meio desse são gravadas na memória e retidas mais ou menos distintamente segundo a importância ou poder do objeto.” 

Convém não perdermos de vista o fato de que, entre os intelectuais do Renascimento, existe a crença na relação entre corpo e alma que torna os órgãos de percepção estritamente conectados às funções psicológicas. Se os sentidos são auxiliares da alma, significa que eles são prestadores do serviço psíquico. De influência platônica, Da Vinci cria que o corpo “serve à alma, como o capitão serve ao seu senhor”; a alma, mantida num posto hierárquico, ocupa um lugar de soberania pelo fato de ser tudo aquilo que Platão a concebia: o ser imortal, imutável e indivisível apto a raciocinar, refletir, julgar, memorizar, imaginar e se emocionar.  

O sentido comum, aquilo que forma intelectualmente a imagem do que atravessa os órgãos de percepção, aquilo que a memória guarda do que foi percebido, não é uma parte do corpo, mas sim uma propriedade da alma. E se a memória retém como precisão as imagens das coisas que nos circundam, é graças ao olho. O olho consiste em ser o órgão de percepção sensível que, mesmo blocado ao lado dos outros sentidos, possui posição de destaque. Da Vinci o considerava “o órgão principal” porque é o olho quem serve à alma da melhor forma. 

Do que é capaz do olho? Para Da Vinci, o olho é servo da alma de uma forma suprema porque ele captura do mundo externo mais qualidades materiais do que os outros sentidos. Em suas pesquisas, Da Vinci notou que o olho captura e computa dez qualidades dos objetos, a saber: “a luz e a escuridão – a primeira serve para descobrir as outras nove e a segunda para ocultá-las – a cor e substância, a forma e posição, a distância e proximidade, o movimento e o repouso.” Por essa razão versátil da competência ocular, o olho é o órgão por meio do qual “o entendimento pode ter a mais completa e magnífica visão das infinitas obras da natureza.” 

O olho não é um modesto órgão prestador de serviços; ele é “a janela da alma” que abre as potências psíquicas para o mundo. Ele é a força projetiva orgânica que lança o inorgânico para o exterior, que torna o inconsciente consciente para si ou para outros. A janela deixa entrever algo e esse algo são os domínios íntimos que a alma traz consigo. Apesar de tal concepção, a abordagem de Da Vinci não é psicológica, mas científica. Ele se interessou apenas pela potência sensível do olho em virtude de ser um órgão a serviço do intelecto da alma.  

Uma vez intrometida no corpo, a alma está “presa”. Mas o olho, sendo janela, a liberta, criando uma linha de escape que parte de dentro para fora em busca de um respiro: “graças ao olho, a alma permanece contente na prisão corporal, porque sem ele uma prisão assim seria uma tortura.” O corpo é limitado em sua extensão e sabe da restrição em se apossar de coisas cujas dimensões são intangíveis. Entre o corpo e o mundo se encontra uma fenda. E o olho age na intenção de preencher esse espaço abissal. A alma, por meio do olho, toca no universo. O olho, diz Leonardo, “abarca a beleza de todo o universo”; ele é “o príncipe das matemáticas” que mede “as distâncias e a magnitude das estrelas.” Além disso, graças à imaginação, engrandece o mundo, pois “pode reproduzir e recompor formas perdidas aumentando as que estão nele mescladas e reduzidas a um pequeno espaço.” 

Apesar de poética, a tese de Leonardo é insuficiente. Para o que nos concerne nesse artigo sublinhamos apenas o aspecto projetivo do olho, ou seja, o fato de que ele é uma janela que orienta intelectualmente a alma no sentido do mundo. No entanto, foi preciso que outro autor nos mostrasse uma perspectiva tão ou mais atrativa que a do velho italiano. O arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa (1936), autor do belíssimo Os Olhos da pele – a arquitetura e os sentidos, contraria bastante o conceito renascentista de inspiração platônica.  

Segundo ele, o olho não é mais pensado como um órgão de percepção hegemônico, porque os sentidos que orientam o corpo no mundo exterior não são dependentes do que a visão determina. Pallasmaa demonstra que a sociedade contemporânea sofre a “crise da visão”, já que o paradigma que nos tutoreou, de Platão a Schopenhauer, caiu por terra. A mistificação da cultura ocular transformou o olho até mesmo em “protótipo orgânico da filosofia”, como disse Peter Sloterdjirk, pois os olhos “não apenas conseguem ver, mas também podem ver a si próprios vendo”, ou seja, ele nos faculta a capacidade reflexiva. Ver é conhecer. Mas será? 

Decerto os olhos lançam luz sobre os objetos e sobre o próprio ser que vê, mas nem por isso são as únicas janelas da alma. O “privilégio epistemológico dos olhos” é uma ilusão, pois todo o restante do corpo deve ser considerado no que diz respeito ao conhecimento. Ao longo de séculos a crença no fato de que o olho não só abre a alma para o mundo, mas também garante isoladamente a verdadeira ciência das coisas, além de ingênua é injusta, pois reduz a intelectualidade a um só sentido, mesmo que todos os demais colaborem para isso. Pallasmaa observou que, no momento em que nossa cultura centralizou a experiência ocular, valorizando mais o voyeurismo das coisas visíveis do que a sensibilidade das coisas escutadas, degustadas e respiradas, desmerecemos a atuação de um importantíssimo órgão de sentido, a saber: o tato.  

Para o antropólogo Asheley Montagu, a pele “é o nosso órgão mais antigo e mais sensível, nosso primeiro meio de comunicação e nossa protetora mais eficiente. Até mesmo a córnea transparente dos olhos é coberta por uma camada de pele modificada.” Sendo assim, o olho não converge para si a história dos sentidos, pois todos os sentidos são especializações táteis. O tato é “o pai de nossos olhos, nosso nariz e nossa boca”, pois as experiências sensíveis desses órgãos devem necessariamente passar pela aderência mais ou menos intensa da pele.  Não é mais o olho o sentido diretor do corpo, o órgão mais adulto e mais responsável, o farol que ilumina o mar plúmbeo e cerrado da existência; mas sim a pele, o tato, o corpo como um todo, já que a pele encobre todas as partes de nossa anatomia tanto interna quanto externa.  

A visibilidade se reduz à tatilidade. Ver é um modo de tocar. Se a janela da alma se abre ao mundo com os olhos, a alma não raciocina, reflete ou julga aquilo que vê nesse mundo exterior; ela não tenta submeter o mundo inteiro à perspectiva do olho. Antes, para Da Vinci ou para Platão, a visão era considerada dominante e dominadora. Subjaz na estrutura do olho um “desejo de poder”, como afirma David Michael Levin; o olho quer “agarrar”, “fixar” e “considerar como concreto e a totalizar”. Deveras isso é natural, já que, como viu Da Vinci, o olho captura diversas qualidades materiais. No entanto, quanto mais se projeta, mais o olho se afasta das coisas, pois não são as coisas que se aproximam dele, mas apenas modulações luminosas do ar. Em vista disso, Pallasmaa declarou que o olho é o “órgão da distância e da separação.” 

O tato, por sua vez, “é o sentido da proximidade, intimidade e afeição.” Se o olho é juiz, crítico e policial, pois “analisa, controla e investiga”, o tato “aproxima e acaricia”. Logo, a alma se abre em múltiplas janelas, pelo ouvido, pela língua, pelo nariz, pelos olhos, e sempre na intenção de acariciar algo que, em alguns casos, seria impossível se fazer com as mãos. A mão é só um pretexto de carícia; não é a senhora desse ato tão íntimo e acolhedor que é o toque. Os olhos acolhem como também repelem, sem com isso formular juízos de valor preestabelecidos. Eles o fazem não por intelecção, por raciocínio, dedução ou indução; o fazem por afetividade. 

Na Arte assistimos ao espetáculo da abertura das janelas da alma. Na música, a melodia escancara a alma do cantor e, de mansinho, traços de sua psique nos acaricia os ouvidos e penetramos um tanto em sua vida. Na poesia, igual: o poeta faz roçar palavras e ritmos, tocando-nos à distância e transportando sua alma até nós, que o acolhemos com os ouvidos. No cinema, o transporte é curioso, pois é mediado pelo olho mecânico da câmera que funciona do mesmo modo projetivo, fitando o público, tateando-o à distância, acolhendo-o no escuro da sala. Ali, na superfície do olho da tela, outros olhos anseiam nos dominar; são os olhos dos atores, a máscara expressiva dos intérpretes que, projetada da tela até o público, transporta não só a alma do diretor do filme como também a alma do roteirista e a alma do personagem.  

Os olhos hipnotizantes do Dr. Lecter (Anthony Hopkins), de O silêncio dos inocentes, nos alcançam, projetando-se para fora da cela em que está preso, na direção de nossa alma. Lecter nos encara e nos desconcerta. Sentimos parte da alma do psicopata encostar em nós, pois ver é tocar. Passa-se o mesmo em Sociedade dos poetas mortos, com o professor Keating (Robin Williams). O amor que ele nutre pela docência e pela poesia acolhe os alunos, sem um toque direto, apenas com o brilho contagiante de seus olhos, que também chega até nós. Saímos da sessão comovidos com aquela alma toda aberta.  Isso porque cinema é arte da partilha onde a tela, tal como ocorre na pintura, é a pele que sutilmente nos tateia, que vem até nós, à distância.  

Os olhos de Elliot (Henry Thomas) mirando o alienígena, em E.T – o extraterrestre, acariciam-no e aquela ufologia lúdica nos encosta a alma, através da tela. Poderia me perder enumerando diversos momentos em que, no cinema, fomos tateados sem sentirmos sequer mãos deslizarem em nossa pele. A câmera dirigida propositalmente foi quem nos tocou. Os olhos aterrorizados de Mia Farrow em Bebê de Rosemary veem o demônio recém-nascido deitado no berço; o demônio acaricia a mãe desesperada e nós nos aproximamos do berço, à distância, graças à partilha da atriz conosco. Então, nossa alma, sem vontade ou não, é tocada. No cinema ou na vida, o olho age como se fosse pele e nada vê segundo o modo da abstração, do distanciamento. O olho toca o frio, o calor, o medo, a alegria, a amargura, a doçura etc. e constrói um mundo visionário à base de contatos epidérmicos. Devemos ao tato a nossa visão. 

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