Quando novembro desponta uma consciência especial se faz valer na agenda do mês. Ainda que extrapole os limites festivos, a consciência negra está aí para nos fazer enxergar com uma lente ainda mais polida o que é a negritude em termos de potência e de expressão. Considero impensável tematizar sobre a consciência sem que entendamos o que é estar consciente e o porquê disso tudo. Por uma razão que esbarra nas margens do racismo estrutural que cerca nossa cultura brancoeurocêntrica, me desobrigo usar o predicativo “negro” para implicar uma qualidade à consciência dos indivíduos afrodescendentes. Chamarei de “preta” ou “afro” a consciência que luta por afirmação e reconhecimento de sua identidade e de seu ser.

Aprendi com os imprescindíveis filósofos Spinoza e Nietzsche que consciência é, em primeira instância, um instrumento fundamental para a manutenção de nossa vida. Através da consciência um saber se realiza diante de nossa percepção. O imediato, o que aparece e toma forma de um fato ou evento, as coisas que nos rodeiam, que nos acossam, que se avolumam sobre nós se iluminam e tudo ganha clareza. Estar consciente é ter a capacidade de se deixar levar pela transparência de tudo. Ademais, consciência é um meio de se fortalecer. Com a consciência o indivíduo incrementa vida em função da pura necessidade de se tornar mais forte. O saber não é a causa do viver, mas nos prepara para que esse viver seja intenso e amplificado.

Com a consciência preta não poderia ser diferente. O que significa essa consciência se não a necessidade vital de se munir de forças? Afirmar-se enquanto preto é sublinhar o que de preto é preciso buscar para se tornar cada vez mais forte. Logo, a consciência preta é um esforço ético que conduz o indivíduo afrodescendente para o encontro de suas próprias raízes. Sendo preta essa consciência é potente; e ser uma consciência preta é estar disposto a recuperar as fontes originais em que se alimenta esse ser, esse indivíduo atravessado pelo sangue da África.



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Se é na base que uma consciência se fortalece, ou seja, se é voltando-se para o que um indivíduo tem de mais enraizado em si, que é sua vida e sua memória, então uma consciência há de se ater às suas ancestralidades. Uma consciência preta não é (apenas) um saber histórico de sua trajetória no mundo, bem como é um saber do que a história não atinge ou altera com sua sequência caótica ou lógica de acontecimentos; uma consciência preta é uma iluminação do transcendental. Em algures já li que o importante pesquisador Fanton escreveu que consciência é transcendência, portanto, é elevação do estado de vida. Corretíssimo. Mas consciência também é transcendentalidade, quer dizer, força que atravessa todos aqueles que estão aptos a ela; ou, então, força que carrega uma diversidade de tempos e espaços de modo a não pertencer a tempo e espaço algum, sendo uma consciência imemorial, indistinta e aberta.

Orixás são exemplos de ancestralidades. Ancestralidades são campos energéticos intemporais que incrementam direções, velocidades e intensidades; portanto, ou atuam como forças transcendentais que transitam no mundo, nos planos da Terra, na horizontalidade da imanência da vida; ou como forças transcendentes; por isso, conduzem a consciência para um nível vertical de potência. Uma consciência preta implica nisto: saber-se enquanto indivíduo atravessado por ancestralidades que te fortalecem na vida e te preparam para um destino divino na Terra.

Um orixá, conforme diz Pierre Verger, não é um santo, um daimon, um guia protetor, um anjo de Deus. Orixá é uma divindade que um dia se fez carne e se tornou corpo, impregnando com seu campo energético a vida humana, deixando na Terra seu rastro de potência, quer dizer, seu axé. Na Terra, cada orixá, ao tomar alguma dimensão tangível, uniu-se à criação divina, fazendo-se fenômeno nos rios, nas matas, nas cachoeiras, dominando raios, chuva, fogo, água, minérios, etc. Também se expandiram com sua energia nas áreas de conhecimento humano, como a agricultura, a caça, a pesca, a arte, a medicina, as ciências ocultas, a metalurgia, a guerra, etc. Assim, o passado incalculável da África e de todos os seus territórios se expressa em cada um dos orixás e com tudo o que de energético esse ancestral pode transmitir a cada um de nós.

Logun Edé é o orixá que interessa. O que há de valioso nele é sua representatividade e o que ele significa enquanto consciência que o preto deve ter. Para compreendermos a extensão dessa representatividade é válido que conheçamos sua genealogia. Enquanto ente mitológico, Logun deriva de Ilesá, cidade rica e próspera da Nigéria. Abastado desde sua origem, Logun Edé é filho de dois poderosos orixás: Oxum Ipondá, a deusa da beleza, e Oxóssi Erinlé, o deus da caça. De ambos os pais, Logun herdou seu campo de energia e, com isso, formou seu código genético divino. De modo que é da mãe Oxum que Logun é belo, garboso, consciente de si e sedutor e do pai Oxóssi, Logun é forte, viril, estratégico, firme e valente. Logun é o príncipe de Ilesá cujo corpo mitológico irradia luz que impregna tudo com jovialidade, ardor e serenidade.

 Logun não é, por isso, um deus dúbio, como se poderia pensar. O traço mais marcante de Logun Edé é seu axé, quer dizer, sua potência triangular. Logun é divindade metámetá – que em iorubá significa “tríade”. Então, Logun é a potência do pai, da mãe e dele próprio, como a síntese entre esses dois pontos cardinais. A mãe, o pai e o filho: Logun é o orixá que é filho por excelência; e, por isso, é a representatividade mitológica do rebento, do fruto, da colheita. Logun nasce da correnteza do rio, em que Oxum se expande, e da semeadura da mata, em que Oxóssi domina. O que resulta da cópula entre o abebé de Oxum e o ofá de Oxóssi, quer dizer, entre o espelho e o arco e flecha, é na verdade um acontecimento mitológico que, dentro da cosmologia afro, representa gênese da beleza , ou seja, a fertilização da harmonia entre domínios que, mesmo não sendo intercambiáveis, logram conceber um deus encruzilhado.

Logun é a travessia transcendental da mitologia iorubá. O axé desse deus, que é misto, aglomera frentes de energia fluida e incisiva que dão luz a uma força condensada. Logun equilibra tensões concentrando a virilidade do pai Oxóssi, que caça na mata, que é dotado de excelente mira, que vigia e conhece os movimentos das feras e das aves; mas também concentra a afetividade, a sensualidade, a delicadeza e a transparência da mãe Oxum, que vive nas águas do rio. A mata e o rio não se encontram, a não ser em Logun Edé, o belo símbolo da união e da harmonia entre a terra e a água, entre a firmeza e maleabilidade, entre o rigor e a fluidez, entre o que dura e o que passa. O jovem deus que, feito Jesus, é o espírito santo, o deus conciliador, aquele que vem, pelo encanto de beleza e pela afirmação de si, iluminar e vencer.

 Da união elementar terra-água, um orixá nasce para mostrar que é possível que opostos se encontrem e que, com isso, forças antagônicas possam, juntas, conceber uma divindade, a princípio impossível, já que mata e rio não se alinham. Logun é margem que abraça mata e rio; e nessa margem Logun é espelho translúcido das águas, refletindo a riqueza de tudo que está submerso nesse âmbito misterioso e indecifrável. Mas, com essa riqueza, Logun acrescenta a força de quem conhece a animalidade de perto, de quem sabe os limites da força e da coragem.

 Concluo, a partir de Logun, que uma consciência preta deve se compor desses elementos aparentemente inconciliáveis; ou seja, uma consciência que quer se fortalecer, deve saber beber de suas fontes mitológicas, no que a imagem de Logun se faz como extremamente válida. Como frutos de uma aventura ou desventura diaspórica, os negros contemporâneos do Brasil e do mundo, afinados à mitologia iorubá, encontram no brilho intenso do azul turquesa e do dourado de Logun um modo de ser potente. Somos igualmente tripartidos: filhos da mãe África e do pai Brasil, guardamos as heranças de cada uma dessas nações. Mas não somos nem África nem Brasil; somos diaspóricos. Não estamos nem lá nem aqui: estamos no intervalo. Sendo assim, vivemos e lutamos no meio de uma encruzilhada, em que a potência da caça, do ataque, da defesa, da estratégia, como também da beleza, do encantamento, da sedução e da transparência são nossos bens ancestrais, nossa primeira filiação, nossas fontes imemoriais, nas quais devemos sempre nos abastecer como meio de nos apoderarmos de nós e do mundo.

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