Assim indagou Vinícius Moraes em seu poema intitulado “Fim”: “será que cheguei ao fim de todos os caminhos e só resta a possibilidade de permanecer?/ Será a Verdade apenas um incentivo à caminhada/ Ou será ela própria a caminhada?” Talvez estejamos equivocados no pensamento por considerarmos a verdade de determinadas coisas como sendo o término de um processo; como se, no final de um movimento retilíneo uniforme, estivesse alocada a resposta ou a confirmação sobre o que uma coisa é, da mesma forma como se passa quando assistimos a um filme, envolvidos em seu desenrolar e ansiosos pelo revelação final. 

Por costume (creio que diria o filósofo David Hume) somos conduzidos a essa forma de pensar, atribuindo ao “fim” um valor que encerra nele mesmo uma verdade total, em torno do qual tudo se converge. Não há efetivamente nada que comprove que a verdade é uma revelação final. Em face disso, outra questão me atravessa: tudo sempre caminha para o fim? Sim. A física aristotélica é certeira e imbatível quanto a isso. Mas a verdade se acha lá, no fim? Prefiro que não. Adoto de bom grado a provocação do poeta e creio que a verdade esteja no processo, independente do fim e do começo que, nesse caso, são meros acidentes do percurso inteiro. 

Na observância do percurso histórico traçado pela banda The Beatles podemos notar que a tese viniciana faz sentido. A verdade sobre um dos maiores conjuntos musicais de todos os tempos – se quisermos encontrá-la – não esteve sempre, desde o início, nem precisou ser descortinada com um “gran finale” apoteótico. Ela trilhou os mesmos passos que a banda ao longo de seus oito anos de existência. Mesmo que, em 31 de dezembro de 1970, Paul McCartney tenha anunciado oficialmente o fim da banda, a verdade não precisou vir à tona. O fim endossou o que já havia sido germinado desde o começo. Segundo a declarou Ringo Starr, a caminhada acumulou “momentos de amizade e carinho entre quatro pessoas. (…) Uma intimidade realmente impressionante. Apenas quatro caras que realmente gostavam muito um do outro.” 

Foi longa e sinuosa a estrada de uma banda que não esperou o fim para terminar, mas que terminou e recomeçou muitas vezes antes do fim. Por isso, entender o que levou os Beatles ao fim requer agrupar todos os “fins” que durante o processo lhes serviram como impulso à caminhada. Creio que tenha sido isso o que motivou Beatles enquanto artistas, a saber: o fato de que muitos “fins” deram margem a vários recomeços e retomadas. No entanto, se buscamos investigar qual foi a ordem causal que originou o fim, podemos nos precipitar na maquinação de teorias da conspiração que vão desde a suposta intromissão de Yoko Ono até mesmo da presença incômoda de Allen Klein, o último empresário da banda. A própria Yoko considerou que ninguém “seria capaz de abalar quatro pessoas fortes como eles mesmo que tentasse. Acredito que outra coisa aconteceu. Tenho certeza de que não foi nenhuma força externa.” 

Yoko tem e não tem razão, porque diversas causas concorriam para o fim da banda. Causas internas externas que não se davam em separado, mas em movimento paralelo. A banda acirrou a crise em 1969, comunicou a separação à imprensa em 1970, mas, desde 1966, razões emergiram de dentro e de fora estimulando os anos seguintes a serem tortuosos e desafiadores. Portanto, alguns fins deram começo ao começo do fim derradeiro, de modo que, a título de esclarecimento, convém elencá-los um por um. Dentre eles, identifiquei quatro que englobam situações ocorridas na fase que vai de 1966 a 1970. São eles: o fim do bom-mocismo, o fim dos concertos, o fim do empreendedorismo profissional e o fim da unidade de grupo.  

Com o fim do bom-mocismo se encerra na carreira da banda a unanimidade de gosto que vinham mantendo com o público, desde os primeiros anos da conhecida fase “iê-iê-iê”. Ao redor do mundo, a banda era cultuada de forma incendiária pela juventude da primeira metade da década de 60. A galopante vendagem dos discos Please, please me e With de Beatles – ambos de 1963 – provocou um imprevisto frenesi erotizante nas meninas e um encantamento nos meninos. Por onde a banda passava deixava rastros de confusão e de aglomeração. O cineasta Robert Zemeckis ilustra bem esse fenômeno no hilariante filme Febre de Juventude (1978). 

A idolatria da beatlemania desenhou uma imagem idealizada dos integrantes da banda. Na opinião da maioria, ainda que fossem músicos de rock, que flertassem com um ritmo que (ainda) era marginalizado, os quatro rapazes eram enquadrados dentro de um esquema conservador da sociedade cristã ou protestante. Não se esperava nenhum comportamento que transgredisse esse bom-mocismo que foi construído em cima deles. No entanto, bastou uma declaração perspicaz de John Lennon para que essa imagem fosse fortemente demolida.  

                Em 1966, disse o guitarrista dos Beatles à jornalista Maureen Cleave “que os Beatles eram mais populares do que Jesus”. Ao se difundir na mídia, o pensamento de Lennon foi interpretado à revelia. “A repercussão foi grande”, disse George Harrison. Ainda que Lennon não tenha querido se comparar à pessoa de Jesus – e sim ao fato de que os Beatles “estão tendo mais influência sobre os garotos do que qualquer outra coisa, inclusive Jesus” – os efeitos negativos de sua declaração se fizeram notar na reação violenta nos EUA. As províncias do Sul queimaram discos em fogueiras e demonizaram a banda, tendo inclusive a adesão dos membros da Ku Klux Klan, que se engajaram em expulsar a beatlemania usando “táticas diferentes”.   

“Tudo acabado para os Beatles”, diziam. Pelos rumores que circulavam esse fim parecia verdade. A mesma medium espirita que previu a morte de Kennedy anunciava “aos jornais que os Beatles morreriam num acidente aéreo”. George Martin confirmou: “durante todo aquele tempo eles estavam recebendo ameaças de morte”. Graças à rusga surgida entre banda e público se aumentou a possibilidade de ataques terroristas. Na tentativa de atenuar o problema, Lennon se defendeu: “não importa se não gostam dos discos, da nossa aparência, ou o que digam. Têm o direito de não gostar de nós e temos o direito de não termos nada a ver com eles”.  

O fim dos concertos veio em seguida, se consolidando à guisa de um questionamento vital feito por Paul e registrado no documentário Anthology (1994). Ele se perguntou: “quanto tempo dura o que é bom? Quanto tempo dá para manter as coisas? Todas as turnês que tínhamos feito tinham sido ótimas. Mas estávamos ficando fartos porque fazíamos isso há muito tempo. Torna-se extenuante”. A turnê, embora proveitosa do ponto de vista profissional, mantendo “a música viva”, gerava um descompasso na banda, pois não havia nem comunicação com o público nem comunicação entre os membros, já que durante aqueles “quatro anos de gritaria” da beatlemania isso foi impossível. Ter feito o último concerto em Candlestick Park representou, segundo Harrison, um “grande alívio” por “não ter que passar por aquela loucura”.  

A “curtição ingênua” dos primeiros anos deu lugar ao aborrecimento. “A beatlemania generalizada estava cobrando o seu preço”, disse Harrison. Lennon, por sua vez, desabafou: “podíamos ter sido estátuas de cera pelo que fizemos de bom lá. Ninguém ouvida nada, nem mesmo uma batida básica, porque estavam todos muito ocupados se rasgando uns aos outros.” Nas palavras de Ringo, “houve muita conversa” em torno desse fim dos concertos. Pensava-se “que ali acabava tudo, assunto encerrado. Mas fomos adiante”. Outro perigo, por outro lado, ameaçava a banda depois daquele afastamento: o conflito angustiante do “como” fazer agora. 

Aquele fim deu nascimento a um recomeço brilhante. Na sequência, em 1967, vieram os conceituais álbuns Sargent Peppers and Lonely Hearts Club Band e Magical Mystery Tour, onde a banda se descobriu ainda mais fértil e inspirada do que nunca, flertando artisticamente com o cinema, com a música indiana e com o Surrealismo; além de, felizmente,  se realinharem a um novo público, absorvendo elementos da onda flower power dos hippies e desbundados. Mas esse recomeço esbarrou com outro fim que foi o fim do empreendedorismo profissional.  

Quando retornaram da viagem à Índia, foram golpeados com a trágica morte de Brian Epstein, o empresário que acompanhava a banda. O empresário administrava as finanças da banda, mas, em agosto de 1967, aquela liderança importante partiu, vítima de uma overdose acidental. Na opinião de Harrison, “naquele tempo todo mundo morria por acidente porque se tomava estimulante e/ou anfetamina com álcool”. Sua morte causou um impacto no equilíbrio da banda, pois “ele cuidava de tudo. Acho que depois foi a caos”. Aquele foi um dos mais difíceis “fins” da banda, pois “você fica sem saber o que fazer”. “Paul”, segundo narra Lennon com certa amargura, “tentou continuar como se Brian não tivesse morrido. (…) pensava que devíamos nos sentir gratos pelo que ele fez, por manter os Beatles em atividade.” Ledo engano. 

Paul tentou tocar o barco até onde pôde naquela dupla função (artista-empresário), mas ninguém ali entendia de verdade de administração para se assumir enquanto tal. Confessou Harrison: “tudo o que sabíamos fazer era compor, gravar discos e ser os Beatles, com êxito” . Mas “ser os Beatles com êxito” consistia viver como no poema de Drummond: com o sentimento de carregar o peso do mundo nos ombros. Não era fácil manter a qualidade artística, compondo com regularidade e inspiração e ainda gerenciar finanças. Mais difícil ainda quando, no meio do processo turbulento, um ser alheio invade o estúdio e cria uma atmosfera desconfortável.  

Lennon conheceu Yoko em uma exposição em 1968, se apaixonou por ela e a introduziu no seio do processo criativo de White Album. O fim da unidade de banda começou ali; porém, não por causa exclusiva de Yoko, mas em virtude do que ela representava, ou seja, uma ruptura na amizade. Paul disse que “o problema para nós é que houve uma invasão da nossa estrutura de trabalho. Sempre tínhamos sido só nos quatro no estúdio. (…) Esse tinha sido o esquema em toda a nossa carreira de gravação” Pelo fato de que estavam apaixonados e não passavam um momento sequer separados, Lennon concluiu que “todo mundo parecia paranoico”, menos eles.  

Por ser artista conceitual, Yoko estimulava Lennon a se experimentar mais. No estúdio não opinava na frente da banda, mas sugeria de modo privado, ao pé do ouvido de John. Afirma Mikal Gilmore, da Rolling Stones, que John queria que Yoko fosse a quinta componente; mas, como não era bem vinda, a ideia não foi adiante. A solução foi lançar o esquisito álbum Two virgins, em que ambos aparecem nus na capa, provocando ainda mais a dissidência artística entre Lennon e dos demais membros. Aliás, a quebra na unidade da banda já vinha ocorrendo, independente da presença alienígena de Yoko Ono. White Album selou esse momento quando a dupla Lennon/McCartney passou a compor em separado, cada um em um estúdio.  

Mikal Gilmore diz que, no White Album, “os estilos vocais e de composição dos dois estavam mais fortes e mais variados do que nunca”. Paul passeava pelo folk e rock e John, pelo blues.  Sem poderem suportar aquela convivência tensa, “cada um tratava os restantes como se fossem seus músicos de apoio”. Ringo, descontente consigo, em um ataque de insegurança, saiu da banda por duas semanas. Mas, depois de um novo acolhimento, retornou aos trabalhos. Vale dizer que a insegurança quanto ao talento foi um dos fatores que mais promoveu o fim da unidade. Enquanto Paul era “organizado, meticuloso e valorizava a habilidade”, Lennon “tinha poucas regras” e, “apesar da autoconfiança, era menos seguro a respeito do próprio trabalho”.  

Daí veio o fatídico ano de 1969. Quando tudo parecia que ia terminar, um novo recomeço. A banda se meteu no Twickenham Film Studios animada pela ideia de gravar outro trabalho, que seria registrado em vídeo. A banda se enclausurou no inverno e compôs o que veio a ser o álbum Let It Be. Mas, se em White Album a unidade da banda estava ruída, em Let It Be a situação chegou às favas. Naquela altura, disse Lennon, “já não podíamos continuar. Tinha chegado o ponto que já não era criar magia. A câmera na sala conosco fez a gente ter consciência de que a situação era falsa”. Com Paul se assumindo autoritário e exigente, o fim transcorria sob um fundo de alienação: “não percebemos que estávamos nos separando enquanto acontecia”. 

“Havia muitas discussões acaloradas”, disse Ringo. Em uma delas, George agrediu fisicamente Lennon. George quis sair. Mas, depois de uma reunião, retornou à banda; e, como celebração, voltaram a tocar juntos no icônico concerto do telhado, onde se viu, pela última vez, os quatro juntos e em perfeita harmonia. Mas, segunda pensa Mikal Gilmore, a ansiedade de Lennon pôs fim ao recomeço, mesmo que Abbey Road tenha vindo depois de Let It Be como uma bela catarse. Depois que se casou com Yoko e o disco estava acabado, Lennon saiu da banda. “Ficou óbvio que era um ponto sem volta”, admitiu Paul. E era. O fim derradeiro chegou porque, segundo disse Harrison, “o grupo tinha que se autodestruir”. E o fim não era nada “importante”, pois a magia da banda perdura: “você tem todos os discos aí, se quiser recordar”.  



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