Se Aquiles e Perseu são mitos cuja origem se perdeu no imaginário de um povo, já não se pode falar o mesmo sobre o lendário Batman; dele, por sorte, tem-se ciência de sua filiação. O primeiro registro de sua aparição foi em 1939, pelas mãos do escritor/roteirista Bill Finger e do desenhista Bob Kane, nas páginas da revista Detective Comics #27. Inspirado em personagens como O Sombra e Zorro, Batman originalmente foi concebido pela dupla Finger e Kane nos mesmos moldes das sensacionalistas e artisticamente despretensiosas revistas pulp fictions, isto é, carregado por uma atmosfera noir que mesclava gêneros literários como a ficção científica, o terror, a fantasia e o romance policial.



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Nos nove primeiros anos de sua existência editorial, Batman conviveu ao lado de outros super-heróis da DC Comics sem que o público soubesse qual era a sua origem. Foi então na revista Detective Comics #47, em 1948, que sua biografia veio à tona. Nos quadrinhos dessa edição, é de conhecimento geral que Batman é Bruce Wayne, nascido em 1916, filho único do empresário bilionário Thomas Wayne e de Martha Wayne, sua esposa. A saga dramática do personagem se inicia quando, aos 8 anos de idade, depois de saírem às pressas de um espetáculo de ópera, Bruce e seus pais foram surpreendidos pelo ladrão Joe Chill. No calor da hora, Chill atira nos pais do menino, matando-os, e deixando Bruce órfão. A partir dali, Bruce será criado pelo mordomo e tutor Alfred Pennyworth até que alcance a maturidade e se torne Batman.

Traumatizado pela morte estúpida dos pais, Bruce se enche de ódio e de espírito de vingança. Ele atravessa a juventude alimentado por esses sentimentos negativos como forma obcecada de compensar a dor da perda e de vingar outras famílias. Por conta disso, prepara-se física e intelectualmente para revidar o mundo criminoso da cidade de Gotham, onde vive. Bruce incorpora o vingador e, por isso, abandona a vida de luxo da mansão e vai peregrinar pelo mundo em busca de meios para se aprimorar. De extrema inteligência, Bruce se dedica a aprender técnicas de luta marcial, de teatralidade, de disfarce, de fuga, de criminologia, como também se envolve com criminosos de todos os tipos para aprender com eles a mentalidade da injustiça.

No entanto, todos esses saberes acumulados e unidos à raiva e ao espírito de vingança não bastam para Bruce. Ao retornar de sua estadia no exterior, Bruce retorna à mansão Wayne e é acolhido novamente pelo fiel Alfred. Assume a gerência de uma parte da Wayne Enterprises e, então, com a ajuda de Lúcio Fox envolve-se com tecnologias de veículos, de acessórios, de ferramentas, de armas e de efeitos importantes não só para a eficiência de seus planos de combate ao crime, bem como para promover uma imagem de terror através de seus disfarces.

Ao ver um morcego voando dentro de sua mansão, Bruce inspira-se na ideia de ser um vingador cujas habilidades imitariam ou se aproximariam das habilidades de um animal noturno. Assim, surge Batman, o homem morcego, que por lutar contra o crime sob o manto negro da noite, torna-se o cavaleiro das trevas, aquele vigilante noturno que assustaria os criminosos com o máximo de recursos possíveis e inimagináveis, surpreendendo e desbaratando os maiores delitos. No entanto, a questão desse artigo não é descrever amiúde a biografia de Batman, mas, antes, levantar a hipótese de que Batman, sendo herói, não é justo. E como isso é possível?

Em primeiro lugar, para tocar nesse ponto não me concentrarei no Batman dos quadrinhos, mas fundamentalmente no Batman cinematográfico. Interessa-me o herói filmado e dirigido pelo talento de Christopher Nolan; mais precisamente na excelente película Batman Begins (2005). O que pretendo compreender é se esse homem morcego é ou não é um herói justo. Até que ponto ele é justo? Ou, se a hipótese for negativa, até que ponto ele não é justo? E se ele é injusto de que modo essa injustiça se manifesta?

De que Batman é um herói não restam dúvidas. Mesmo que não tenha sido modelado como um herói trágico ou épico como nos padrões literários da Grécia clássica, ele definitivamente é um herói; pois, na verdade, efetua ações heroicas, quer dizer, assume tarefas difíceis, quase impossíveis, desempenhando-as com força, coragem e determinação; ele não esmorece ou desiste e, implacável, não deixa pedra sobre pedra. Todavia, Batman está longe de ser o herói clássico que luta contra forças da natureza restaurando o equilíbrio que havia sido abalado por alguma intemperança ou imprudência humana. Ele não é Perseu; e, assim, não precisa dar conta do que o destino mitológico lhe traçou sem nenhum direito de escolha.

 Batman, ao contrário, encarna o protótipo do herói moderno e, por isso, não age determinado por destino ou imperativo divino. Existe na ação de Batman espaço para uma escolha capaz de mudar o curso da história. Batman é conduzido, conforme diz Ducard, por uma “vontade de agir” que supera qualquer virtuosismo: “o treinamento não é nada/ a vontade é tudo”. Essa vontade se dirige não para criaturas mitológicas, mas para a realidade diária do crime. Batman pretende, então, lutar contra os “monstros” do crime, com aquilo que lhe está próximo e tem que conviver a contragosto e marcado por uma “raiva que vai sufocando a dor”.

Mas como tolerar o fato contraditório de que o principal fundador da Liga da Justiça seja injusto? Ou, então, ainda mais profundamente, como conceber um herói e apartá-lo de um dos seus atributos essenciais que é o senso de justiça? Como pensar heroísmo sem justiça ou como pensar heroísmo com algum sentido absurdo de justiça? O que podemos dizer, de saída, é que Batman, mesmo não sendo um herói mitológico como Perseu ou Thor ou herói sobrenatural como Superman, nem por isso carrega menos complexidade e densidade existencial, de forma que é impossível pensar Batman sem considerar toda a contradição de seu ethos.

Sob a perspectiva platônica de justiça, aquela expressa e definida na obra A República, Batman não é justo. Em primeiro lugar, Batman é injusto porque, segundo a razão, o “homem justo é bom”, conforme afirma Platão; e todo homem bom e justo tem como princípio o fato de que “não é lícito fazer o mal a ninguém e em nenhuma ocasião”. Um homem justo, sendo ou não herói, não pratica o mal, pois “os homens contra quem se pratica o mal tornam-se obrigatoriamente piores”. Logo, ser justo não significa “prejudicar os inimigos e ajudar os amigos”, mas poupar que o mal seja infligido a qualquer pessoa e que se multiplique.

Batman não pode ser justo pelo fato de que sua vontade de agir contra o mundo do crime tem como propósito destruí-lo, ou seja, fazer mal aos inimigos. Primeiro como forma de superação pessoal e depois como forma de causar temor sobre eles. Batman sabe que nele fomenta um “impulso de fazer coisas fantásticas ou terríveis” e que esse impulso opera da forma como Platão define, quer dizer, “impelido pela necessidade de prevalecer sobre os outros”. Na concepção “cavernosa” do senso-comum, em que a verdade se mescla e se esconde no meio das aparências, como em um jogo de sombras, justiça não é o ato conduzido pela lei, “reduzido ao respeito da igualdade”, como diz Platão. Mas justiça é o predomínio do justo sobre o injusto.

Para o Batman que se formou na Liga das Sombras de R´as Al Ghul, a verdade sobre justiça lhe chegou toldada pela aparência de justiça. Ser não é parecer, então, ser justo é bem diferente de parecer justo. Batman, ao longo de toda a sua trajetória como herói, apenas pareceu ser justo, pelo fato de cumprir a lei, mas usando recursos pessoais à base de violência. Em seu ideal de luta contra o crime, Batman aprendeu que deve prevalecer sobre o mais fraco. A fraqueza a ser dominada é o medo. Bruce teme o que está dentro dele, quer dizer, seu poder; por isso, “agora”, diz Ducard, “deve voltar-se para dentro. Para vencer o medo, deve causar medo. Você deve se aproveitar do medo alheio”. Bruce, ao ver o morcego em sua mansão, captou, numa intuição, que causar medo consiste em se tornar um animal noturno que sobrevoa a cidade em busca de criminosos considerados como pessoas inferiores que devem ser detidas.

Batman age como se fosse justo, vigiando, por conta própria, o crime na noite da cidade, mascarado e vestido com um disfarce medonho; mas isso não significa que ele seja justo, pois, conforme a visão platônica que adotamos aqui como referência teórica, o homem/herói justo não pode prevalecer sobre ninguém. Em Batman a predominância sobre o fraco não é apenas na força física, já que ele é mestre em artes marciais e se ampara de uma série de armas e truques. O que torna Batman mais forte e, por isso, injusto, é sua poderosa habilidade para se esconder e fugir, que nada mais é do que o controle que tem sobre o psicológico e sobre o imaginário dos criminosos: “o homem teme sobretudo o que não pode ver”.

Predominar sobre os outros não é justiça, mas injustiça; assim como agir sozinho, na calada da noite, não é uma ação justa, mas sim vingativa, pois seu princípio ativo é pessoal. O ideal de Batman é levado pela crença de que ser justo é estar “preparado para fazer o necessário para vencer o mal”. E a vantagem de Batman sobre os demais é, não só sua maquinaria de guerra, mas principalmente a aparência terrífica de sua voz, capa e armadura. Quem vence o mal pelo terror não é bom; e não sendo bom, não é justo. Ainda que saiba que “justiça tem a ver com harmonia”, como diz Rachel Dawes, ou que “justiça é equilíbrio”, como diz Ducard, Batman paga os criminosos na mesma moeda: violentando e levando vantagem sempre.

Por levar vantagem e não ser nunca destruído, Batman gera nos criminosos um misto de ódio e de medo. Desse modo, acumula inimigos, em vez de vencê-los. Ele é incapaz de restituir a harmonia da cidade na luta contra o mal, como faz o herói clássico. Em Gotham o mal nunca é superado; antes, é perpetuado, aumentado, nunca encerrando o círculo vicioso que corrompe a cidade. Cada nova captura, um novo inimigo: Coringa, Pinguim, Charada, etc. Por isso que Batman, mesmo sendo herói, não é justo; ele parece justo sob a máscara da injustiça.

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