Sentimentos não se escolhem; eles simplesmente nos acossam, nos golpeiam e nos enredam em suas tramas muitas vezes insondáveis. Despertamos certa manhã tão animados, com os olhos brilhosos, tomados por uma esperança que irradia da alma e contagia quem se encontra por perto. Fomos escolhidos pela alegria como se tivéssemos recebido o calor e o magnetismo do sol como dádiva. Na verdade, a alegria brotou de algum objeto que cruzou nosso caminho, sem que o desejássemos. Desde um pequeno pássaro que, intrépido, pousou em nossa janela, até aquela declaração de amor sincera, qualquer que seja o contato breve ou demorado conosco nos inflama de energia, excita pele, olhos e ouvidos fomentando sentimentos alegres.

O filósofo Baruch de Spinoza foi certeiro, em “Ética”, ao dizer que “se uma coisa aumenta ou diminui, facilita ou reduz a potência de agir do nosso corpo, a ideia dessa mesma coisa aumenta ou diminui, facilita ou reduz a potência de pensar da nossa alma” ou que “a alma pode sofrer grandes transformações e passar ora a uma maior perfeição, ora a uma menor”.  Nesse trecho Spinoza prepara o leitor introduzindo-o na lógica que está por detrás dos sentimentos. Como nos acossam, conforme disse acima, como não há deliberação de nossa parte, decidindo estar ou não estar alegre, eles contribuem com algo de determinante.

O corpo absorve ou se apodera de objetos que lhe rondam. Conforme é a natureza desse objeto, o corpo se anima, ou seja, sente-se mais ou menos potente para agir. No entanto, a alma não lida com as coisas fisicamente, se não por imaginação ou desejo. O corpo sendo animado, a alma também se anima no pensamento. Por isso, imagens diversas e potentes lhes despertam na mente. Assim decorre a alegria: a alma é transformada por algo externo cuja influência lhe reserva um nível de perfeição de seu estado mental, ampliando a disposição para pensar.

No entanto, a tristeza se opõe a esse estado de perfeição maior que é a alegria. Algo que se nos aproximou física ou mentalmente rebaixou a energia ativa do corpo e a energia pensante da alma, desmobilizando um indivíduo e possibilitando um inevitável e, portanto, inelegível, enfraquecimento do pensamento. Não escolhemos o estado de tristeza, porque o buscamos, mas porque certas coisas nos buscam e nos acertam caímos em estado de tristeza. Não transformamos o estado alegre em triste, mas somos por ele transformados. 

Séculos mais tarde, o neurologista e psiquiatra Sigmund Freud transferiu parte da estrutura psicológica dos sentimentos desenhada por Spinoza para sua teoria psicanalítica. Em “Luto e Melancolia”, Freud não só nomeia, bem como distingue os dois estados de tristeza decorridos de um sentimento de impotência. Deveras, a tristeza constitui um rebaixamento de forças, pois, como afirmou Spinoza, entristecer significa “a paixão pela qual a alma passa a uma perfeição menor”; e, sendo assim, a alma, sentindo o corpo fraco, motivado por algum objeto enfraquecedor, percebe a transferência física e se põe igualmente desmotivada; não mortificada, mas sim reduzida em sua perfeição.

 Freud é ainda mais contundente que Spinoza e entendeu que a tristeza é causada pela sensação de morte. Se a morte é externa, se alguém morreu ou se alguma coisa morreu em alguém ou em algo, cujo valor se preza acima muitas coisas, então entristecemo-nos e vestimos o manto do luto. O luto encerra um “estado de espírito penoso” referente “à perda de alguém que se ama”; que gera, por consequência, “a perda de interesse pelo mundo externo” e a incapacidade de “adotar um novo objeto de amor”. O mundo perde o sentido para o “ego” do ser enlutado, constando-se nele “inibição e circunscrição” da libido.

O que Freud chamou de libido, Spinoza estabeleceu um equivalente conceitual que foi o apetite ou conatus; que, em outras palavras, quer dizer o mesmo, a saber: potência de viver. Libido ou conatus graduam-se de acordo com os estímulos que recebem, de modo que podem aumentar ou diminuir, projetar-se ou introjetar-se. O luto entristece porque o objeto de amor foi arrancado da presença de um ego acostumado e plenamente identificado com esse ser. Logo, o ego se vê diante de uma lacuna intransponível e insubstituível porque se deu aí a retirada das “ligações com aquele objeto”, forçando a “posição libidinal” mudar de frequência desejante.

melancolia, no entanto, é o sentimento entristecido que o ego tem a respeito de si, como se ele próprio, vivo, estivesse moribundo diante do mundo. Ou seja, a sensação de morte, quando melancólica, convém ao indivíduo que, de alguma maneira, cortou o laço de identificação, o fio desejante que o atava às coisas que amava. Esse laço, Freud afirma que se constrói graças à “energia catexial”, ou seja, à relação ideal e inconsciente que o ego tem com seu objeto de amor. Freud declara que, na “morte” ocorrida na relação entre o ego e seu objeto, “não podemos ver claramente o que foi perdido”, mesmo que o ego “esteja cônscio da perda que deu origem à sua melancolia”, ele “sabe quem ele perdeu, mas não sabe o que perdeu nesse alguém.” Caminhando nas sombras, o melancólico é alimentado de uma tristeza sem nome.

música, com o contributo da poesia,é a arte em que a tristeza do luto ou da melancolia se expressam de maneira ainda mais intensa do que em outras linguagens artísticas. O artista tem como premissa a sinceridade naquilo que transmite. Por isso, ele há de sentir de verdade a tristeza, quando a sente e quer exprimi-la. Ademais, mesmo triste, com a energia libidinal rebaixada, a arte cria obras de extrema beleza; isto porque, na verdade, reforçando as palavras de Spinoza, a tristeza não é a imperfeição da energia, ou a ausência total da mesma, e sim a tristeza é uma perfeição menor, que diminui a energia, mas não a inibe inteiramente.

Ciente de que diversos artistas compuseram joias raras tomados pela mais profunda tristeza, enumerei algumas obras com o intento de formar um pequeno inventário de canções tristes. Nesse primeiro bloco, para iniciar, destaco canções enlutadas. “Pedaço de mim”, de Chico Buarque, cantada com o timbre emocionante de Zizi Possi, é a própria lamúria do luto. “Oh pedaço de mim/ Oh metade arrancada de mim/Leva o vulto teu”. “Areia da ampulheta” de Raul Seixas não canta a morte de alguém, mas, no estado gravíssimo de doença em que Raul se encontrava na época em que compôs, a música, a mais triste do repertório do cantor, denuncia a fragilidade de um corpo prestes a morrer: “eu sou areia da ampulheta/ o lado mais leve da balança (…) o boi diário servido em pratos/ o pivete encurralado.”

Enquanto Eric Clapton compôs a bela e triste “Tears in heaven” in memorian do filho morto: “além dessa porta/há paz, eu tenho certeza/ e eu sei que não haverá lágrimas no paraíso”; John Lennon, por sua vez, compôs a autobiográfica “Mother” para duas situações de luto: a morte por atropelamento da mãe e o abandono parental do pai. Visivelmente dolorido de mágoa e saudade, Lennon grita: “Mamãe não se vá/ Papai volte pra casa”. A chilena Violeta Parra, antes de se suicidar em fevereiro de 1967, desiludida de amor, compôs “Gracias a la vida”. A canção, ironicamente, é um hino à vida: “obrigado à vida, que me deu tanto/me deu o riso e me deu o pranto/ assim eu distingo fortuna e falência/os dois materiais que formam meu canto”. No entanto, é com pesar que ela, agradecendo, se despede de si e da própria dor.

No grupo das canções melancólicas, podemos enumerar diversas obras que, por tristeza, evocam objetos de amor do qual elas próprias estão inconscientes do valor da perda. Por isso, essas canções sempre falam de modo obscuro. A dor é genérica, por exemplo, em “Andrea Dória”, da Legião Urbana: “às vezes parecia, que de tanto acreditar, em tudo que achávamos tão certo/ teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais/ faríamos floresta no deserto”.

Freud observou também que o melancólico, em estado agudo, tende a empobrecer o ego, depreciando a si mesmo, validando em excesso a dor ou se deixando levar pela apatia e pela indiferença. Em “Andreia Doria”, Renato Russo canta: “nada mais vai me ferir/ é que eu já me acostumei/ com a estrada errada que eu segui/e com a minha própria lei”. Há depreciação no rock “Creep” da banda Radiohead, onde toda carga melancólica nasce da perda de um amor. O poeta canta o empobrecer do ego: “eu queria ser especial (…) mas eu sou uma aberração/eu sou um esquisitão/ que diabos eu estou fazendo aqui?/ eu não pertenço a esse lugar”.

A melancolia invade os belos acordes e a pungente letra de “Não sei dançar” de Alvin L, cantada por Marina Lima: “às vezes eu quero demais/ mas eu nunca sei se eu mereço/ os quartos escuros pulsam/ e pedem por nós”. Não se sabe exatamente com o quê o poeta se angustia, como também se vê em “Estou triste” de Caetano Veloso: “estou triste tão triste/ estou muito triste/ por que será que existe o que quer que seja?”. O mesmo procede em “Ana Luiza” de Tom Jobim que se pergunta pelo objeto de amor: “em que lago, em que serra, em que mar se oculta?” A musa furtiva se perdeu e a única coisa de que o poeta tem consciência são dos olhos que desapareceram de sua presença. Mas o que de fato morreu aí? Não se sabe.

Zeca Baleiro, em “Bandeira” canta a indiferença do amante desesperançado: “o melhor futuro: este hoje escuro”; e, por causa disso o poeta tresanda a vida que é um “noves fora, zero”: “não quero medir a altura do tombo”. Lou Reed, em “Perfect day”, incorre em uma incoerência curiosa, pois ainda que a letra goze de felicidade (“apenas um dia perfeito/os problemas todos deixados de lado/ passar o fim de semana sozinhos/ é tão divertido”), o andamento da canção é tristonho, como se, na verdade, fosse penoso estar alegre ou que a alegria fosse insuficiente. 

A barra fica pesada na melancolia mórbida de Alice in Chains. “Nutshell” é um soco na alma, o desabafo real de um depressivo crônico: “eu luto, e ainda assim eu luto/ esta batalha completamente sozinho/ ninguém com quem chorar/nenhum lugar para chamar de lar”. E o resumo é: “me sinto melhor morto”. A mesma onda depressiva se encontra em “The same deep water as you” do The Cure: “Nadar na mesma água profunda que você é difícil/os afogados no raso tem menos a perder do que nós”. Todavia, mesmo tristíssima, “Everything hurts” do R.E.M consola a dor humana: “todo mundo se machuca/ às vezes todo mundo chora (…)/quando seu dia é uma noite solitária (aguente firme)”. Assim, entendemos que a vida é parteira da tristeza e a arte ensina a dar voz, com beleza, aos sentimentos cuja potência só nos cabe ressignificar.



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