A obra The Wall (1979) do Pink Floyd foi, ao mesmo tempo, experiência musical, no formato de ópera-rock (como foi Tommy, do The Who), e filme. O projeto de filme iniciou concomitante ao álbum, porém, apenas estreou três anos depois, em 1982, sob a direção de Alan Parker.  Sobre a concepção do trabalho, Nick Mason, o baterista da banda, revela que ele partiu durante a turnê do álbum Animals, em 1977. Em virtude do “incidente da cusparada” em que um fã “perdeu a paciência e insultou” Roger Waters (já que este não atendeu a um pedido para que tocassem uma música que estava fora do repertório), a banda se recolheu, efetivamente, do cenário. Confirmava-se, então, o mesmo diagnóstico feito pelos Beatles: “que estabelecer qualquer tipo de conexão com o público estava se tornando cada vez mais difícil.”

Pink Floyd optou por uma pausa de dois anos, já que os integrantes estavam esgotados da longa turnê de 1977. Mesmo temoroso com a relação violenta e deificada entre artista-público, o episódio “desconcertante (…) serviu para alimentar a criatividade de Roger”. Tanto que Roger aproveitou a situação para desenvolver “o esboço para um espetáculo baseado no conceito de um público separado de seus ídolos tanto física quanto mentalmente.” Assim, surgiu o projeto The Wall, segundo a opinião de Nick Mason, “é uma obra que representa uma grande quantidade de material que abarca diversos meios: o disco, os concertos – realçados com projeções, efeitos cênicos e acessórios diversos – e um filme”.

 O álbum/filme conta com um drama musicado sobre a vida de Pink, um artista do rock. Nas canções e no roteiro do filme escritos por Roger Waters narra-se o conflito de Pink com a função de popstar que ele desempenha. Em turnê pelos EUA, o artista se isola no quarto de hotel, amargurado pela traição da esposa e enfadado com o público que o devota. Envolto por drogas e profundamente deprimido, Pink destrói o quarto todo num acesso de fúria para, depois, raspar a cabeça e a sobrancelha. No sofá, absorvido em seus pensamentos, congela-se defronte à televisão assistindo imagens de guerra. Quando entram no quarto, encontram-no desacordado, “confortavelmente insensível”. No hotel, depois de ser receber injeção aplicada pelos enfermeiros, Pink é levado para apresentar-se no show. A droga produz efeito e ele sobe no palco vestindo uniforme nazista, proferindo um discurso totalitário e incitando o caos.

 É evidente que o conjunto álbum/filme fala por si: trata-se de uma obra biográfica em que Roger Waters plasma, numa ficção, o processo psicótico vivido por Syd Barret, ex-integrante do Pink Floyd. Bem como The Wall é a tradução dos conflitos neuróticos que o próprio Roger Waters viveu entre família. A base poética que sustenta roteiro e canção, na verdade, é a forma com que as sombras do pai (Eric Fletcher Waters) e da mãe (Mary Waters) povoam o imaginário do artista. Consiste significativamente na obra floydiana a morte do pai, na Segunda Guerra, quando o mesmo tombou na batalha de Anzio (1944) contra as forças nazistas e a depressão da mãe, em função do luto que ela teve que esconder de seu filho Roger, durante a infância.

 O interesse desse artigo é se pautar no que não é evidente na obra, ou seja, na relação psicológica entre Water e a família, nomeadamente com sua mãe Mary. O que havia de latente em Roger Waters para que canção e filme viessem a efeito mais por um desejo egoísta do que propriamente um alinhamento estético entre os integrantes da banda? Como resposta, busco no conjunto da obra de Sigmund Freud a referência teórica, o conteúdo filosófico e psicanalítico para compreender o conceito The Wall e o indivíduo Pink em sua floração/retenção psíquica.

 Sem embargo, podemos inferir que aquilo que Freud chamou de Complexo de Édipo encontra-se latente no comportamento do personagem Pink. Em resumo, o Complexo de Édipo representa um distúrbio, uma neurose, que se desenrola no nível psíquico inconsciente. Ele surge de um fluxo intenso, profundo e involuntário do aparelho psíquico (mental) e se situa na camada amoral de um indivíduo que é o Id. O Id é o princípio do prazer; representa a localidade anciã da alma que “contém tudo o que é herdado, que se acha presente no nascimento, que está assente na constituição” da nossa pré-personalidade; enfim, é nossa zona instintiva.

  Na superfície da individualidade, à luz do mundo externo, visível e tangível a todos está outra da vida psíquica que é o Ego. Construído pela história e pelo ambiente, o Ego é a parte do aparelho “equipada com órgãos para receber estímulos e com disposições para agir como um escudo protetor contra estímulos”.  Id é princípio de prazer que cegamente visa a livre satisfação e expressão dos instintos (de vida e de morte). Ao passo que o Ego é o contrário, a saber: princípio da realidade que, fisiologicamente, na figura da racionalidade corporal, sente, computa, armazena, organiza, evita, se adapta, etc., estímulos mundanos quaisquer.

  Entre o puro prazer e a racional realidade, o desejo e os territórios, aloca-se outra camada da vida psíquica que é o Superego. Ele é “uma terceira força que o Ego tem que levar em conta” que se forma no “longo período da infância” como um “agente especial no qual se prolonga a influência parental.” O Superego atua de dois modos: ele castra a relação umbilical entre o indivíduo e o prazer e sublima esse prazer, elevando-o num nível moral e social. Trocando em miúdos, enquanto o Id é o território materno, em que o Ego se alimenta, se recolhe e imerge no leite do amor, o Superego é o território paterno que afasta, pela ordem e pela lei, o indivíduo da dependência da mãe, do instinto de se acolher continuamente no calor do seio.

  Ainda que seja objeto de amor, o pai é a castração que coloca limites. O Superego, na figura rigorosa da moralidade, da sociabilidade e da religiosidade repete o padrão paterno e castra o Ego na formação da personalidade. Por isso, tanto o rigor da lei quanto a imagem do pai são repelidas porque forçam o indivíduo desejante a encarar responsabilidades. Édipo, como na tragédia grega, matou sem saber o pai e desposou-se da mãe. Logo, por Édipo, a mãe seria uma fonte inesgotável de prazer, mas a sombra do pai subleva-se como cumprimento da lei.

  No caso de Pink, o pai morreu na guerra. A mãe sofre a melancolia da perda. Como consequência, se afasta do filho. O Complexo de Édipo é derrubado, mas forçado pelo luto. A mãe corta o vínculo com o filho porque ama o pai e o filho, enciumado, quer ser um herói de guerra, identificando-se com o pai. Como o objeto de amor morreu, resta a sombra paterna que se introjeta na alma e ocupa a vida psíquica do Ego. Pink cresce enrijecido e reprimido na escola, como mostra Another Brick in the wall. Na verdade, o “muro” é essa proteção egóica, o sistema de defesas que o menino deve montar para o adulto sobreviver em um mundo sem acolhimento.

 Na sequência do álbum/filme, a canção Mother sucede o luto e a repressão. Pink é rejeitado pela mãe e sofre, na escola, a vergonha de ter sido ridicularizado e agredido pelo professor autoritário que, nesse caso desempenha a função negativa do Superego. O duro sistema escolar quer esmagar o Id e, por isso, zomba do menino que escreve poemas. Não é lícito ser artista, mas sim “apenas um tijolo no muro”, uma expressão apática da normalidade.

  A mãe aparece, então, em um momento de carência. Inconscientemente, Pink quer regressar ao ventre, à fase umbilical. Tanto que no filme, o ator Bob Geldorf espreme-se na cama, em posição fetal. O Pink adulto, tomado por um Id violento e reprimido, exprime o instinto de morte. O corpo do astro de rock apela pelo carinho materno que já não tem mais. Mesmo que ele tenha projetado a sombra da mãe na esposa, é a mãe real, e não ideal, que ele quer.

   Na canção Mother, Waters escreveu apelos primais, retornos impossíveis para a região psíquica vedada pela dura defesa de um Ego em distúrbio, em neurose. O muro não permite a passagem do princípio do prazer, por isso Pink adulto é como o Pink criança: ausente do pai e agredido pelo professor; é o Pink inapto para conciliar respeito e amor, já que o pai, que é a lei, morreu; e a lei, na figura da moralidade, é agressiva. Pink adoece num processo que leva da neurose à psicose, do luto ao instinto odiento de morte, devido à violenta forma como o Complexo de Édipo, a satisfação da libido infantil foi castrada para dar lugar à maturação do Ego.

 Mother é a conversa imaginária entre mãe e filho sobre a ameaça da ação moralizante da sociedade: “Mãe, você acha que eles vão jogar a bomba? Mãe, você acha que eles vão gostar dessa música? Mãe, você acha que eles vão tentar me castrar? (…) Mãe, eu deveria confiar no governo? Mãe, eles vão me colocar na linha de fogo?” No que a mãe responde, não enquanto ela própria, mas enquanto a voz do Id falando para um Ego neurótico: “Acalme-se agora, filhinho, não chore. (…) A mãe vai manter você bem aqui, sob sua asa. Ela não vai deixá-lo voar, mas poderá deixá-lo cantar. Mamãe vai manter o filhinho bem quentinho e confortável”.

 Consoante à ideia freudiana, o Superego, o “muro” que nos protege dos outros e de nossos impulsos, conforma-se com heranças da infância; ele traz a genética do pai que nos castra e, ao mesmo tempo, da mãe que nos transfere instintos de amor e ódio. A mãe de Pink canta: “mamãe vai passar todos os seus medos pra você (…) mamãe vai ajudá-lo a construir o muro”. Do vínculo familiar, por transferência, Pink construiu um modo neurótico e psicótico de estar-no-mundo. Graças à alienação da escola, à pressurização das demandas de uma sociedade disfuncional, um indivíduo promoveu caos e destruição. Daí, movido pelo instinto de morte, um muro se ergueu separando a pessoa de seus desejos e os desejos de sua responsabilidade.

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