Figura no mínimo insólito o fato de que o sentimento de gratidão que nutrimos por certo artista se deva à existência de um simples par de tênis. Assim se passou com um dos maiores atores do Brasil: Chico Anysio. A trajetória que o conduziu ao início da vida artística nos prova que tudo se deu exatamente dessa forma. “Sou artista porque esqueci os tênis”, declarava Chico, com orgulho. Uma justificativa como essa nos causa estranhamento, por nos levar a pensar que um artista é o que é por causa de sua memória desatenta. É bem verdade que o talento extraordinário de Chico Anysio não dependia de esquecimento de tênis. Se um artista fosse feito somente da matéria talento e não de circunstâncias vividas, então consideraríamos seu esquecimento como sendo mais uma das centenas de piadas que ele contava tão bem. 

No entanto, não é verdade. Há vários caminhos que levam ao nascimento de um artista. Muitos são trágicos, como o caso de Grande Otelo ou Frida Kahlo; outros, porém, são banais: se dão em um esbarrão na livraria, no elevador etc. Então, consideremos a validade do esquecimento do par de tênis, porque banalidades são milagrosas. Chico relatava o seguinte:

Eu voltei para casa porque tinha ido jogar bola, mas o campinho tinha mudado de local, e precisava jogar calçado. Encontrei minha irmã Lupe e um amigo dela, Oromar Terra, saindo para fazer um teste na Rádio Guanabara. Fui, me empolguei e logo estava imitando 32 vozes de artistas da época. Depois disparei a ganhar os programas de calouros no Rio de Janeiro e São Paulo. Com pouco tempo, já não me aceitavam mais. [1] 

Pela banalidade, por um fato tão vulgar – que é, a bem dizer, a própria fonte originária da comédia – veio à tona a oportunidade para que o jovem Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, com dezesseis anos na época, se apresentasse pela primeira vez em um programa de rádio. Era o ano de 1947 e a rádio representava o principal veículo de comunicação e de entretenimento nacional; se não era o principal, era pelo menos aquele que melhor alcançava as massas e as envolvia com atrações mais variadas, entre elas os programas de calouros.

Natural de Maranguape, no interior do Ceará, Chico Anysio migrou para o Rio de Janeiro, em 1944, com a família, logo após o incêndio que destruiu toda a frota da empresa de ônibus do pai, o senhor Francisco Anysio de Paula. Na tentativa de reerguer a vida, a família lutou como pôde. O adolescente Chico, conhecido ainda por Oliveirinha, sofreu para se adaptar à nova vida demasiadamente urbana, distante dos canaviais da serra e do pai (que havia ficado em Ceará). Mesmo tendo sido muito cobrado pela mãe, tornou-se rebelde. Era frequentemente violentado em casa. Além disso, odiava a escola. Reprovou duas vezes, embora fosse muito inteligente. Lia de tudo, mas principalmente romances policiais, já que sonhava em ser criminalista.

Entre desobediências e crimes de Agatha Christie, Chico Anysio desenvolveu aquilo que formou o mais notável traço de seu talento de ator, a saber: a capacidade mimética. Se, desde Aristóteles, sabemos que a possibilidade de imitar (bem) é a base formadora de todo belo fazer artístico, então foi por seguir esse modelo antigo que Chico Anysio se destacou em seu trabalho. Nem todo trabalho cênico, de ator, é mimético. Mas, na maioria das vezes, sim. E quando o é, nos comovemos, rindo ou chorando, graças a esse poder de recriar a vida diante de nossos olhos.

Ninguém imitava pessoas com tamanha perfeição como Chico Anysio. Sua energia modeladora de seres foi sendo, desde a infância, pouco a pouco aquecida, como se ele fosse uma espécie de usina criadora; que, em consequência da força cinética que guarda, usa o corpo do ator como suporte de exposição. Chico dizia, muitas vezes, brincando: “não sou ator; sou médium” E, ainda assim, ele se considerava menor que outros grandes atores cômicos: “nunca vou ter o talento do Walter D´Ávila, ser engraçado como o Brandão Filho ou um ator competente como o Oscarito. Tenho que inventar alguma coisa para mim.” [2]

Decerto, Walter D´Ávila, Brandão Filho e Grande Otelo (não citado, mas impossível de ser esquecido), eram cômicos pela naturalidade de suas máscaras. Criavam o efeito do riso pela forma clownesca de atuação, ou seja, quando a máscara do comediante não concentra apenas em uma parte do corpo, o nariz (como era o caso do palhaço), mas representa “a máscara de um corpo inteiro”.[3] Chico não era o clown da TV; pois, se o fosse seria cômico sem artifícios, sem maquiagem, perucas ou dentaduras. Atuaria de cara limpa e repetindo-a em todas as situações, da mesma forma que o faziam seus colegas humoristas. Mas seu caminho foi a invenção.

Um ator inventivo é, necessariamente, excelente mímico; artista capaz de incorporar a diversidade de tipos que se apresentam à imaginação. O humor anysiano não toma como ponto de partida a retórica do palhaço que não “faz graça”, mas que já é cômico naturalmente; Chico faz a graça; ele é um fabricante do humor e seu recurso é a imitação de tipos, a caricatura.

“Como eu fazia imitações e isso foi o que me deu o primeiro cachê artístico entre calouros, disse: Achei! Vou ser aquele que faz vários. E a ideia era nunca aparecer da cara limpa na televisão. Isso me trouxe um sucesso inconcebível”, revelou Chico.[4] Do programa de calouros Papel Carbono, da Rádio Nacional, na década de 40, até a Escolinha do Professor Raimundo, na Rede Globo, na década de 90, Chico Anysio percorreu uma estrada de idas e vindas em diversas rádios e emissoras. Passou pela Rádio Nacional, pela Rádio Mayrink Veiga, pela Rádio Tamoio, Rádio Vera Cruz, Rádio Tupi, etc., trabalhando como ator de rádio e como locutor.

O que causava admiração em Chico era seu trabalho mimético. Na década de 40, na Rádio Guanabara, por exemplo, trabalhou no programa Parece, mas não é, onde apresentava “sozinho ao microfone, fazendo todas as vozes”.[5] Essa versatilidade se mostrava ao vivo, sem improviso, a partir de piadas preparadas e escritas pelo próprio artista em que os tipos interagiam entre si, criando uma rede de imitações distintas e divertidíssimas. Não vingou o programa, que durou apenas um mês. Mas, dali em diante, Chico entenderia qual seria a sua fórmula enquanto artista, o seu diferencial em relação ao humor que era feito desde então.

Em 1952, foi reintegrado ao corpo de rádio atores da Mayrink Veiga. Lá trabalhou com Cid Moreira, Antônio Carlos, Abel Pêra e Haroldo Oliveira. Este último, inclusive, atuava na Escolinha do Professor Raimundo, no papel do professor que sabatinava os alunos em sala de aula. A Escolinha compunha um dos quadros do programa A Cidade se diverte. Chico, por outro lado, trabalhava em três programas, apresentando Este Norte é minha sorte, Me dá o meu boné e Ângela Maria canta. Foi um momento em que ganhou experiência e aprendizado na rádio.

Não tardou e o elenco que trabalhava nas rádios foi transferido para a televisão, no fim dos anos 50. Chico assumiu suas funções de redator e apresentador na TV Rio, convivendo com artistas do rádio, do cinema e do teatro de revista. Aproximou-se do imponente diretor Carlos Manga, conquistou sua admiração e assumiu o papel do professor Raimundo, na Escolinha, que agora tinha sido adaptada para a TV. No rol dos comediantes estavam Ary Toledo, Castrinho, Walter D´Avila, Chico Anysio dividindo cenas com as divas do “rebolado” Consuelo Leandro, Virginia Lane, Dercy Gonçalves e Carmem Verônica. Tratava-se do exitoso programa Noites cariocas, dirigido por Carlos Alberto Nóbrega, que ia ao ar todas as sextas-feiras, à noite.

Com o advento do videotape e sua exportação para o Brasil, a TV Rio pôde recorrer a um artifício excelente: a gravação de programas. Assim, “Chico visualizou no videotape probabilidades exponenciais para expandir os domínios de sua arte.” Havia “a possibilidade de reunir um naipe de personagens, de uma só vez, em um só programa”.[6] O artista confessou:

Vi abrir-se a chance de realizar definitivamente meu sonho. A ideia do Manga era juntar todos os meus personagens num programa só. Uma coisa inédita no mundo. Eu falaria comigo, passaria por mim etc. Péricles do Amaral foi contra. O fato de Péricles ser o diretor artístico da TV Rio tirou a chance de a TV bancar a ideia. Unimo-nos os três. Walter, Manga e eu e criamos a Zoom, uma produtora independente. O Manga e eu compramos na Mesbla a fita para gravar o primeiro programa.[7]  

A tecnologia de gravação, aliada à ousadia do trio Manga-Anysio-Clark, fez nascer o piloto do programa Francisco Anysio Show. Segundo relata Chico, “pela primeira vez, era realizado um programa de humor com 50 figurantes, travellings, grua, três câmeras, muita movimentação, uma verdadeira superprodução”.[8] Carlos Manga preferiu alterar o nome do programa rebatizando-o: “Chico Anysio Show é melhor, soa melhor, tem ritmo”.[9] E o ritmo pegou. A partir do ano de 1960, a TV Rio passou a transmitir o programa todos os domingos, à noite até 1963, um ano antes do golpe militar. Fez um sucesso estrondoso, tornando-se uma febre: “muitos cinemas cancelaram as sessões das 20h aos domingos por falta de público.”[10]

A crise veio com as tensões políticas do momento. O programa perdeu audiência e Chico saiu da TV Rio, transferindo-se para a TV Excelsior, depois para a Tupi e para Globo, indo e vindo diversas vezes. A fase instável de contratações durou de 1964 a 1970. Chico não estacionava em nenhuma emissora. Por fim, em 1973, recebeu “carta branca para trabalhar” e estreou na Globo o programa Chico City, em parceria com outro excelente comediante, Arnaud Rodrigues. Sob a direção de Augusto César Vanucci, o programa não consistia em uma sucessão aleatória de quadros ou esquetes, mas sim em uma unidade dramática que era toda centrada num tema.

Aproveitando a base de um programa apresentado na Excelsior (Oh, Nordeste da peste), Chico Anysio compôs uma espécie de folhetimde humor. Convocou um elenco de peso, que contava com mais de vinte atores, para coadjuvar com seus personagens. entre eles Zezé Macedo, Claudia Gimenez, Lupe Gigliotti, Berta Loran, Lucio Mauro, Rogério Cardoso, Wilson Grey, Felipe Carone, Castrinho, Roney Cócegas, Tião Macalé, Walter D´Ávila, Cininha de Paula e outros que seguiram leais a Chico Anysio ao longo da carreira dos programas exibidos.

Fazendo troça em cima da popularidade da novela O bem-amado (que era transmitida no mesmo período), Chico City apresentava a rotina de diversos personagens moradores de uma cidade fictícia no Nordeste, tal como a mítica Sucupira inventada por Dias Gomes. Chico City era “um microcosmo do mundo”, segundo explicava seu autor; era um recorte territorial brasileiro em que o público experimentaria, através de caricaturas e mimeses, a comédia da vida pública e privada. Antenado em tudo o que acontecia de novo, Chico plasmava os fatos em piada.

Sendo assim, transferiu sua visão crítica para uma forma reduzida de mundo, a fim de expor a sociedade em que vivia, satirizando seus tipos componentes. Cronista, pôs em evidência um cenário corrupto orquestrado pelo prefeito Canavieira, envolvido com superfaturamento de obras públicas. Parente seu, o professorRaimundo, mantém viva a escolinha. Entre outros moradores importantes havia o jornalista Setembrino, oponente político do prefeito; o rabugento aposentado Popó; Pantaleão, outro velho aposentado, caçador, que em sua cadeira de balanço contava “causos”; Veio Zuza, o preto velho que dava consultas e Baiano, cantor que satirizava a regionalidade de Caetano Veloso, ao lado de outra sátira feita por Arnaud Rodrigues, o Paulinho Boca de Profeta, com quem fazia dupla troçando dos Novos Baianos.

Quando o programa foi colorizado, em 1977, as gravações de Chico City passaram a ser externas, no caiçara bairro de Sepetiba, zona oeste do Rio de Janeiro. A cidade cenográfica cresceu e Chico criou, então, novos personagens, como Jesuíno, vulgo Profeta, que difundia ensinamentos filosóficos através de parábolas e o coronel Lidu, fazendeiro influente, amigo de Portela (Milton Gonçalves) a quem sempre indagava, usando uma expressão pessoal, viciosa e divertida, quer dizer, um bordão: “Portela! Quando é que tu volta pra Mangueira?”

Aliás, os bordões eram outros recursos presentes na fábrica de humor anysiano, além da imitação de tipos. Os bordões deixavam marcado na memória do telespectador um código linguístico que determinava o tempo do riso. Bastava escutá-lo para se fazer graça. O público também poderia reproduzir o bordão nas ruas e reforçar duplamente a força expressiva da caricatura. O bordão era o mais fiel canal de comunicação do personagem com o público. Chico Anysio fez isso perfeitamente com as falas inesquecíveis de mais de duzentos tipos.

É digno de nota também ressaltar a caracterização como efeito da qualidade mimética do trabalho de Chico Anysio. As barbas de Pantaleão e Profeta não são as mesmas. As dentaduras do suposto funcionário da Globo, o Bozó e de Lobo Filho, o locutor, idem. O mesmo se passa com as perucas, com os figurinos, com a maquiagem. A equipe responsável pela caracterização é um elemento decisivo para o excelente resultado das caricaturas de Chico, porque cuidava da diferenciação dos tipos a partir de sua forma visual, de seu shape cômico. Por isso, mesmo que imitasse diversos locutores (Lobo Filho, Milton Gama, Cisso Romão), no trabalho de Chico a diferença era marcada não só pela modulação da voz, pela modulação físico-gestual (atributos comuns ao ator), mas também no meticuloso design da caracterização.

Chico City durou até 1980. Em seguida, entre shows e breves paradas, Chico Anysio estreou novamente o Chico Anysio Show, com a direção de Gonzaga Blota, em 1982. Nesse nova fase, agora em que o programa era transmitido às quintas-feiras, via satélite e simultaneamente para todo Brasil, Chico explorou ao máximo sua técnica mimética, criando outros marcantes e carismáticos personagens. Nos anos 80, brilharamRuy de Todos os Santos,o Painho, um pai-de-santo homossexual muito querido e consultado que, em horas de fadiga, soltava o bordão: “Aff! Tô morta!” Outro tipo homossexual explorado no programa era Haroldo, o personal trainer que tentava disfarçar o jeito afeminado ao lado de mulheres que o assediavam, mas era advertido pelo amigo Leon (Paulette) a “voltar para o reduto” e reassumir o nome de guerra: Luana. “Mordo você todinha”, dizia com voz anasalada Haroldo, soltando seu bordão.

Aliás, a capacidade que Chico tinha de diferenciar a mimese do homossexual e a mimese da mulher era impressionante. Ao imitar mulher, Chico não caía na armadilha da interpretação cênica em que o ator masculino gesticula falsamente, afeminando-se e misturando feminilidade com afetação. Neyde Taubaté, a apresentadora do Jornal do Lobo; e Saloméde Passo-Fundo, a gaúcha que travava conversas pelo telefone com o então presidente da república João Batista Figueiredo, fazendo comentários sarcásticos sobre a situação econômica do Brasil, em pleno processo de redemocratização, são personagens verdadeiramente femininas.

Na politicamente incorreta década de 80, tiveram destaque no programa também o alcóolatra machista Nazareno que usava o bordão “Ca-la-da!” para espantar a esposa feia e lacrimosa, enquanto flertava com outras mulheres; e diferenciava-se, na interpretação e na caracterização, de outro alcóolatra, o Tavares, em conflito com a mulher Biscoito, pelas mesmas razões de Nazareno; Alberto Roberto, o ator canastrão que trocava as palavras, que pesava nos “r” e “s”, se acreditava “símbalo sexual” e irritava o diretor de TV com seu estrelismo; o pastor evangélico Tim Tones, que satirizava o fanatismo religioso, pedindo para “passar a sacolinha” a fim de recolher os dízimos dos fiéis; e, por fim, Bento Carneiro, o divertidíssimo “vampiro brasileiro”, com sotaque caipira, que vinha “do aquém do além, adonde que veve os mortos” e que não assustava ninguém e praguejava a todos dizendo que a vingança “sará maligna”.

Em 2008, no programa 3 a 1, da TV Brasil, ele declarou que “a comédia é a mais bonita das artes. (…) Porque a comédia faz do comediante um médico do espírito. Não sei de nada melhor do que botar mil, duas mil, cinco mil (…) pessoas felizes”. E ele estava coberto de razão. Somos gratos a todos os artistas do quilate de Chico Anysio porque eles nos curam do tédio e do peso dos dias. Assim como outros brilhantes atores, por serem os cronistas de nosso tempo, como dizia Shakespeare, Chico é indispensável, é insubstituível para a saúde espiritual. “Porque no humor, todos nós somos insubstituíveis. Nunca mais vai existir um Oscarito, um Grande Otelo, um Mussum, um Rogério Cardoso, um Zacarias, um Francisco Milani. Nunca mais.” [11]


[1] ANYSIO, Chico apud ROCHA, Natércia. Chico Anysio. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2007, p. 19.  

[2] Idem, p. 

[3] GRADIM, Filipi. Artigo “Respeitem meu nariz” publicado pelo Jornal Diário do Rio, 2020. 

[4] ANYSIO, Chico apud ROCHA, Natércia. Chico Anysio, p.9  

[5] Idem, p. 21.  

[6] ROCHA, Natércia. Chico Anysio, p. 29.  

[7] ANYSIO, Chico apud ROCHA, Natércia. Chico Anysio, p. 30.  

[8] Idem, p.31.  

[9] Idem, ibidem.  

[10] Idem, ibidem.  

[11] ANYSIO, Chico apud ROCHA, Natércia. Chico Anysio, pp.11-12.

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