Foto: Reprodução Internet

Certas coisas são devidamente apreciadas quando se encontram em níveis elevados de atuação. Assim procede com as emoções e com a sensibilidade. O que vivemos no interior da alma e o que deleitamos com os sentidos da visão, da audição, do tato, do paladar e do olfato tem uma incidência marcante sobre nós quanto maior é seu gradiente de força. Seguindo essa lógica, um perfume intenso ou um gosto amargo deixam seus registros em nossa sensibilidade a ponto de não se dissiparem integralmente no ato, mas, ao contrário, de fixarem seus efeitos em nós, deixando um rastro em nossa memória. Um som suave, ainda que seja agradável ao ouvido, é menos lembrado do que um som distorcido ou “sujo”. Estados elevados nos atraem.

Existe, portanto, uma estética das exaltações, em que o volume alto é o dado material e objetivo mais atrativo aos sentidos do que um volume reduzido ou moderado. Estamos falando propriamente da música e não de um ruído que estoura de súbito nossos tímpanos. A música é a única dimensão artística em que o som prevalece como centro nevrálgico. O sistema nervoso da música é o som. Mas, quando falamos de rock, esse som não é e nem pode ser suave. O que define o rock, desde a sua origem, é justamente a exaltação do volume sonoro, a capacidade de conduzir a sensibilidade auditiva para o domínio das alturas. Se o som é a dimensão artística da música, e se o rock é a música em um nível exaltado, deduz-se que a exaltação é a sua dimensão e que ele não se faz a conta-gotas ou em dosagens mínimas. Rock é sinônimo de excesso.

Do mesmo modo podemos dizer que o amor é a dimensão exaltada de uma emoção. Quando quero abordar esse tema não me vem à cabeça outra referência senão Spinoza. Mestre no assunto, o filósofo holandês nos prova o que tento dizer nesse breve ensaio, a saber: que o amor é um estado máximo das disposições emocionais. Na obra Ética Spinoza nos fala que a alma se alegra e que, ao se encontrar assim, ela se dispõe de forma ativa, ou seja, ela se agita e se expressa nessa agitação. A alegria que a alma sente, ou por alguém ou por alguma coisa, fornece ânimo ao pensamento e, como alma coexiste com o corpo, então o físico também se anima, excitando todas as partes que o compõem a se moverem e dinamizarem a vida.

Conforme a tese spinozista – a qual me filio – o amor representa a alegria por tudo aquilo que nos fortalece. Quanto mais alegre se acha a alma, mas forte é. Por isso, a exaltação é uma condição sine qua non da emoção do amor. Pois, ao atingir um estado elevado da alegria, ou seja, ao sentir que potências de vida afloram e querem dar vazão expressiva do seu estado, a alma se vitaliza e está disposta a amar. Tanto no rock como no amor, a exaltação funda a existência e substancia uma experiência estética e um sentimento da alma. Quando ambos se alinham, quando tais exaltações se acasalam, nasce aquilo que chamamos de balada.



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A balada nasceu na Idade Média, quando os compositores anexavam letras poéticas a determinados arranjos instrumentais, cujo ritmo ralentado combinava com um canto apaixonado, provocando o intérprete a se destacar pela agudez de sua voz. Daí se via a exaltação presente tanto no desempenho vocal quanto nas letras poéticas. Som e emoção eram elevados à potência que se expressaria a ponto de nos comover e de nos impressionar os ouvidos. No rock, a balada se definiu pelos mesmos critérios: letra poética, de conteúdo romântico, tecida por um instrumental em que predominam estruturas harmônicas feitas no piano ou no violão.

O cantor baiano Raul Seixas figura entre os ícones da música brasileira e se destacou no rock, endossando (e ampliando) a campanha já iniciada pela Jovem Guarda. No plano musical, conhecemos Raul pela série de canções pesadas que compôs, em que a guitarra vibra em intensidade, realçando (sem limites predeterminados) a altura do volume, como faziam os grandes nomes como Little Richard ou Chuck Berry. No plano poético, porém, Raul demonstra uma habilidade impressionante para escrever letras bem construídas, enigmáticas do ponto de vista temático, já que lhe interessavam “viagens” astrais, experiências místicas, profecias e imagens cataclísmicas, zombarias ou mesmo críticas e desconstruções ao modelo moral burguês e cristão. Mas, dentre todas essas preciosidades, pouco se fala do Raul compositor de baladas.

O “maluco beleza” era um apaixonado. Sendo “maluco” transferiu a voltagem elétrica de seu pensamento, os delírios poéticos, para canções ralentadas, em que a instrumentação e a voz tomam uma forma diferente. Amante de muitas mulheres, Raul fez como Vinícius de Moraes e escreveu canções para cada uma. Os estados exaltados de alegria dessa alma transbordante não poderiam se satisfazer apenas com gritos e revoltas do rockabilly que tanto lhe influenciaram. Era preciso transferir a exaltação da alma para uma balada, desacelerando o ritmo nervoso para encontrar uma pulsação que combinasse com sua paixão.

Raul era o “maluco”, a “metamorfose”, o “social alternativo”, mas nunca escondeu suas fragilidades afetivas. Em “Eu quero mesmo” (1977) revela: “por muito tempo eu sentia vergonha das coisas que eu sinto” e “nunca falava ‘eu te amo’ por medo de alguém me gozar”. Mas, decidido a se abrir ao amor, conclui: “eu quero mesmo é falar de amor! Eu quero mesmo é sentir teu calor!” A canção não é uma balada, embora evoque intimidades da alma; ela apela ainda para o rock iê-iê-iê, mas nos apresentando um Raul que tem algo a mais para se expressar.

Esse cantor, que cora de vergonha ao falar de amor, diz na balada “Coração noturno” (1983) que o coração tem uma “quentura” e que ele “bate 4 por 4”. Ou seja, a alma se exalta no amor e aquece o corpo do cantor; porém, o corpo responde de forma “noturna”, quer dizer, “sem lógica e sem nenhuma razão”. Raul alegra a alma consigo mesmo: “guardo cada pedacinho de mim pra mim mesmo” “rindo louco, louco de euforia”. A exaltação desse coração noturno também se vê em “Coisas do coração” (1983), composta junto com a ex-mulher Kika. Nessa balada folk Raul mostra que o coração louco e ilógico quer “falar de coisas que não disse ainda não/coisas do coração”. “Paixão e nada mais”, apela o afetuoso Raul, ciente de que o amor é afeto da euforia que torna os indivíduos “famintos um do outro como canibais”.

Além disso, o amor é um estado exaltado de alegria que se comunga, que não se sente apenas consigo mesmo. Então, o amor próprio de “Eu quero mesmo” dá lugar ao amor-partilha em “Coisas do coração”: “cada um de nós é resultado da união/ de duas mãos coladas numa mesma oração.” Já na balada “A maçã” (1975) Raul extrapola o nível da comunhão e as fronteiras monogâmicas se quebram em nome de um amor moderno, plurilateral. No ensejo da paixão, Raul aproveita para traçar definições conceituais ao dizer que o amor é um “morar dentro” do outro e é algo passível de escolha. “Morar no outro” é: “ser tua alma, ser teu corpo, tudo enfim”; é transmutar o “eu” tornando-o também um “não-eu”.

Na mesma canção, Raul assinala em tom de advertência que esse morar no outro não significa cárcere ou isolamento na relação ser-amado/ser-amante: “amor só dura em liberdade”. Aquele que ama e habita o outro que não é ele, ou seja, o seu amado, deve romper as correntes da privação e libertar o outro, não de dentro de si, mas de dentro de uma concepção rígida de amor. Raul nos mostra que essa privação é o modo vulgar de amar, o “amor de todos os mortais” que é “tão pobre”. Tal amor é pobre porque a tradicional relação ser-amado/ser-amante não se entrega ao amor enquanto tal, como um prazer exaltado, ou, como Raul fala em “Eu sou egoísta” (1973), ele não se desafia às turbulências do lema “eu quero é ter tentação no caminho.”

Na balada “Sessão das dez” (1971) Raul propõe um inusitado bolero para ilustrar o caso de amor anedótico entre um amante brejeiro do interior, que chega em Ipanema “inocente, puro e besta”, e uma moça da cidade grande. A alma desse ser-amante é contagiada de alegria nos encontros com o ser-amado nas sessões das 10 do cinema. Da pipoca oferecida no cinema pela moça é um salto para o casamento e depois é outro salto para o desapontamento, quando o ser-amado abandona o ser-amante inocente: “curtiu com meu corpo/ por mais de dez anos/ e depois de tal engano/ foi você quem me deixou”.

A balada folk “A hora do trem passar” (1973) não frisa a exaltação do amor, mas nos atenta para o fato de que todo movimento que se eleva, decai; que o amor é ferrovia, uma máquina feita para andar nos trilhos que se bifurcam oferecendo alternativas ao ser-amante: ou “apagar as luzes” e “ficar perto de você” ou “aproveitar a solidão do amanhecer pra ver tudo aquilo que tenho que saber”. Porém, se o caminho feito escolhe a proximidade, e não a solidão, mesmo assim ele chega ao fim: “tudo já passou”.

“Ângela” (1980) é a balada mais bela composta por Raul e é dedicada à sua ex-mulher KiKa. Mais uma vez Raul enfatiza o amor como pertencimento, como “sensação sem nome”, como “sede” da alma. O amor é o estado exaltado de alegria impossível de negar: “eu que me achava o rei do fogo e dos trovões, cedi às tentações, as tentações de Ângela”. Outra mulher de Raul, Lena Coutinho, é o ser-amado que se torna inspiração poética para a balada country “Fazendo o que o diabo gosta” (1988). Com pitadas de humor Raul, já adoecido e hospitalizado, revela que o amor é uma entrega de “medos”, “erros” e “segredos”, e uma partilha de pequenas e simples coisas: “divido minhas guimbas com você”. O desafio de amar, de ter a alma exaltada de alegria, consiste também em saber viver em conflito, quebrar a cara, “pra se lamber depois”.

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