A pirataria francesa azucrinava o litoral do sudeste brasileiro, quando o então militar português Estácio de Sá (1520-1567) aportou na Baia da Guanabara e montou forte esquema de defesa das fronteiras da colônia. Sobrinho de Mem de Sá, o governador geral do Brasil, Estácio de Sá, junto de sua esquadra, assumiu a função de capitão-mor, expulsando a invasão francesa; que, por conseguinte, resultou na fundação de uma nova cidade: São Sebastião do Rio de Janeiro. O desembarque da esquadra ocorreu em uma várzea, em uma faixa de terra situada entre os Morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, hoje conhecida como Praia de Fora, no bairro da Urca. Data de 1º de março de 1565 o dia em que Estácio ocupou a Fortaleza de São João. 

Lutando contra os franceses, que cismaram durante dez anos em colonizar o Brasil, e contra povos indígenas de língua tupi, nativos da região costeira (os antropófagos tupinambás), Estácio defendeu a costa, garantindo seu domínio sobre o continente e sobre as inúmeras ilhas. A batalha não foi fácil. Os portugueses tiveram que usar de pesada munição e de sagaz estratégia para, em dois anos, derrotarem forças inimigas e assentarem terreno, fazendo do meio indígena, riquíssimo em diversidade, um carioca, quer dizer, um “paradeiro de homem branco.”

Em 1567, quando tudo parecia ter sido vencido, quando uma nova capitania consolidava o poder real português, Estácio de Sá veio a falecer, vítima de infecção causada por flecha envenenada ardilosamente preparada pelos indígenas resistentes. Envolvida em uma situação dramática que dissolveu poderes estabelecidos e promoveu um divisor de águas no colonialismo português, e que levou a morte do capitão fundador, a gênese da cidade do Rio de Janeiro foi inteiramente regida pelas forças cósmicas do signo de Peixes, o signo das emoções.  

Pisciano do segundo decanato, o Rio de Janeiro traz na bagagem de sua longa história de 456 anos diversos traços da personalidade desse signo ao mesmo tempo fascinante e terrível. Sendo um signo de elemento Água, Peixes vibra uma energia psíquica em consonância com as potências aquáticas. Antes de mais nada, antes que prossigamos com o presente artigo, convém ativar nossa imaginação para fazermos qualquer consideração astrológica. Se, por exemplo, projetarmos a imagem da água, o que veremos é simples: uma força movente, cujo sentido se orienta horizontal (oceanos, mares, rios) e verticalmente (quedas d´água, água corrente, etc.). 

Nesses dois sentidos, a água apresenta-se como elemento natural cuja materialidade ilimitada, mais densa e mais uniforme que o fogo, se mantém em constante estado de vertigem: “o ser votado à água é um ser em vertigem.” [1] Conforme diz Bachelard, a água entra em convulsão na troca inesgotável de sua forma material; ela “morre a cada minuto, alguma coisa de sua substância desmorona constantemente”; ela vive uma “morte cotidiana”: “corre sempre (…), cai sempre, acaba sempre em sua morte horizontal (…): o sofrimento da água é infinito.” [2] 

A inquietante transformação da água provoca uma autodissolução e uma dissolução de tudo o que mantém contato com ela. Nada se mantém fixo na superfície da água: está em constante criação. A água morre, mas é também seminal: nutre e fomenta a vida. O velho filósofo Heráclito já defendia não só a mobilidade infinita da água, como também a mudança infinita de quem sofre influências dela. Não nos mantivemos incólumes. A água nos contagia com suas vertigens e o resultado disso é uma atração irresistível ao reino que ela governa. 

Ladeada por litoral magnífico, cercada pela Guanabara (o seio-mar), o Rio de Janeiro é aquático por obra e graça de natureza. Mas não é propriamente essa perspectiva geográfica o tema do artigo. O que impressiona é que o Rio contém traços de psiquismo hidrante, ou seja, características astrais, piscianas, comuns aos nascidos entre fevereiro e março. Acima falávamos da capacidade convulsiva e dissolvente da água. Ao pesquisarmos sobre o comportamento dos piscianos, não é difícil constatar que eles tendem a esse movimento vertiginoso que provoca mudanças e rupturas em todas as estruturas demasiadamente pétreas. Não há nada que a força das águas não modifique com a persistência de sua ação erosiva. Peixes é justamente assim. 

Os peixes não se estagnam e, por isso, são afeitos às mudanças de habitat; movem-se conforme o ritmo das marés, embora tenham forças particulares. O Rio de Janeiro moveu-se de lugar e de estrutura, seguindo o compasso da história. Primeiro foi nação indígena tupi; depois invasão territorial francesa. Mudou para capitania hereditária. Até o fim do século 17, a cidade era pequena que só oferecia plantações de cana de açúcar e a zona portuária onde era feito o comércio de escravos. No século 18, Marquês de Pombal transferiu a capital federal para o Rio, em virtude da corrida do ouro. No início do século 19, a família real se instalou na cidade e, aos poucos, começou um fluxo migratório que aumentou o volume demográfico, especialmente depois da abolição da escravatura, que fez surgir uma nova configuração político-social. 

Sendo pisciano, o Rio de Janeiro adaptou-se bem às mudanças, sem criar resistências, incorporando-se ao estranho, ao novo. Metamorfoseou-se em colônia, império e metrópole. Fundiu-se com o estado da Guanabara. Vestiu diversas roupagens como sabem fazer os peixes mais raros. Há 456 anos vem morrendo cotidianamente, entregando-se às marés: Estado Novo, Ditadura militar, Neoliberalismo. Passamos por diversos governos que abusaram da boa vontade de uma cidade esponjosa e acolhedora. As águas límpidas da cidade foram impiedosamente poluídas por essa longa história de corrupção e de exploração. Piscianos conhecem essa dor. 

Por ser absorvente, expressivo em sua polaridade feminina, Yin, o pisciano não discerne  identidades, tipos, formas. Dotado de um sentimento afável e maternal, os piscianos são aptos a receber quem quer que seja em seus braços: do rico ao pobre, do negro ao branco, do belo ao feio porque assim se manifesta a água. A água ou aceita todos, sem julgar, ou os expulsa, na mesma medida. O oceano, o domínio material dos piscianos, é acostumado a abarcar desde os mais extraordinários seres aos mais terríveis. O Rio, com sua personalidade absorvente, faz de sua extensão territorial comunidade para toda diversidade de vida. O ecossistema carioca reúne na Mata Atlântica um dos biomas mais ricos do mundo. Do vegetal ao humano, sentimo-nos parte integrante do Rio; até quem está de passagem – ou mesmo em condição refugiada. 

O Rio é agregador de valores, assim como faz Peixes: dota-se de energia comunitária. O que o carioca recebe, ele incorpora, se familiariza, confunde com seu ser. Sorrimos para o desconhecido; somos solícitos em ajudar. Pseudo psicólogos, ouvimos lamúrias do estranho ao nosso lado no ônibus; acessamos sua história de vida; quiçá choramos juntos — e choramos! (digo por experiência própria). É porque nos falta prazer em distinguir o eu do outro; o outro é feito nós: “irmão”, “parça”. Ficamos íntimos do garçom, do motorista de ônibus, do porteiro do prédio. O menino do sinal nos chama de “tio/tia”. Ignoramos categorias e formalidades porque a água dilui o que se outorga ao direito de separar, de demarcar, de estabelecer como regra. 

Ademais, o Rio contém em um mesmo território a miséria e a riqueza, sem qualquer constrangimento. Luzes humildes dos barracos da Rocinha, de Cantagalo e Dona Marta compartilham do requinte de São Conrado, Ipanema e Botafogo – e vice-e-versa. A cidade não é fracionada em nichos. Peixes desconhece configuração em que hierarquias sociais/econômicas se apresentem excludentes. Com Peixes, estão todos irmanados em um mesmo mundo que é belo e trágico e que é indiferente ao “meu/seu”. Como bom nativo desse signo, o Rio, circundado por água, comunga diferenças, graças ao enorme amor contido no ventre dos mares.  

Netuno, ao reger Peixes, rege a fundação da cidade. Essa divindade nos inflama com seu patronato astral, pois onde Netuno se encontra, ele “dissolve, lentamente, aquilo que toca.” [3] Netuno é divindade lenta, porém caótica. Em sua infinita modificação de águas, Netuno provoca desde o nascimento da beleza (recordemos que Vênus veio à luz das espumas do mar) até tempestades, maremotos e tsunamis. Há mansidão e beleza em Peixes; bem como fúria e morte. Abrigamos a família de Netuno: delfins esbeltos e sereias sedutoras. Mas também predadores, tubarões que massacram peixes menores. O Rio é o “purgatório da beleza e do caos”, o caldeirão urbano que mistura substâncias: “capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil.”[4] 

O Rio é expert no caos, a cidade “maravilha mutante”. Graças ao fato de ignorar  fronteiras, cresceu sem ordem e sem planejamento. Aterros, favelas, posses, ocupações, invasões. A cidade desconhece o rigor capricorniano que separa limites, que ensina a diferença entre o público e o privado. Peixes dissolve limites. Da mesma forma que o movimento da água, as forças urbanas vão sobrepondo-se, se amontoando, em total cegueira das consequências, plasmando “uma cidade de cidades misturadas (…), de cidades camufladas, com governos misturados, camuflados, paralelos, sorrateiros ocultando comandos.” [5] 

A água oceânica, que é a água pisciana, estende sua densa matéria e, por dentro dela, compõe submundos, dimensões ocultas. No Rio, tais dimensões formam linhas rizomáticas,  forças sorrateiras que governam as marés da cidade: o “submundo de papai”, “submundo dos filhinhos”, “submundo classe média”, o “submundo bandidaço”, “submundo camelô”.[6] 

No entanto, sabemos caotizar com beleza e certa alegria ingênua. O carnaval – festa magna do povo – é o exemplo máximo desse fenômeno. Peixes é o signo da fantasia, do êxtase das imagens, do pulsar musical, do delírio e da alegria. É por meio disso que ele congrega tantos tipos diferentes, a saber, por meio do sonho, da ilusão. Peixes comanda esse prazer ancestral: o de se fantasiar, o de se tornar algo maior do que a realidade. A maior ambição dos piscianos é se tornar mais belo e mais límpido do que é. Daí a força do carnaval. Há uma intensidade dionisíaca nessa cidade que conduz o povo a se jogar no reino das imagens, do faz-de-conta provisório. Mesmo quando não há festa, o carioca provoca um jeito de iludir, de causar esse prazer. Mas aí o que temos é a realidade dos trabalhadores que vivem entre o sufoco e o sonho. O ambulante divertido  que imita vozes no trem ou o gari que dança com sua vassoura na rua.  

A extrema atratividade da água, sua transparência e seu frescor, faz do pisciano uma força magnética que une as diferentes pessoas pela via da emoção. Peixes é fleumático: pensa afetivamente; se relaciona com os outros por páthos [emoção]. Ou simpatiza ou não. Mas sem fazê-lo pela via da práxis, da utilidade; e sim por sinceridade da alma. O carioca é espontâneo, natural. Aproxima-se (e afasta-se) mais por conveniência emocional do que por dever. O carioca conhece o outro de modo bem pisciano: pelo faro, pelo sentimento; se une ao outro apenas se a sintonia tiver sido fina. Ele se defende e ataca quando a atmosfera não é favorável às emoções.  

Essa mesma fluidez aquática em que tudo pode ser e varia conforme o movimento das marés, combinada à alta umidade atmosférica, torna o carioca um ser-por-aí, distraído, evadido, informal, displicente. A maioria dos encontros entre cariocas acontece por força do cosmos. “À primeira vista”, dizem Carvalho e Câmara, “aqui todos são receptivos (…) Todos têm muitos desejos, mas nada acontece de fato. Parece que estamos mergulhados num mar de intenções.”[7] Qual piscianos, por amor, queremos a presença do outro, somos simpáticos; mas sofremos da dificuldade de fazer o desejo se concretizar; deixamos que Deus queira que as coisas aconteçam. Quando nos encontramos é por acaso, porque nos esbarramos pelas artérias da cidade, no pagode, no metrô. O encontro é afetivo, acolhedor, mas se não fosse o acaso não teria sido. 

O carioca não nega certos excessos netunianos porque: a) é fanático; adora as coisas no nível do paroxismo e da cegueira (sua “paixão” por futebol, por exemplo); b) é paranoico, pois é dado a alimentar a ansiedade com imagens da violência que o rodeia; e b) é ébrio; quer fugir da realidade por meio das delícias da vida, daquilo que Baudelaire chamou “paraísos artificiais”. 

Em uma cidade como o Rio, onde a natureza sobrepuja o espírito, não há escape: somos tragados pelo imperativo da beleza e da ostentação das formas. Queremos fugir do que nos oprime, mas quando nos damos conta é o deslumbre que nos apunhala o peito. Vivemos o estado embriagado da beleza natural: o encanto sentido com a mágica Pedra da Gávea, com a  sublime Restinga de Marambaia. É quando nos ocorre aquela sensação de unidade com o divino (tipicamente pisciana) experimentada diante dos mais incríveis recortes geográficos do mundo. 

Por outro lado, temos a embriaguez boêmia. Lapa, Madureira, Vila Isabel – redutos de fluidez líquida. Sedento por alterações da consciência, o carioca etílico migra de bar em bar e não dispensa a cerveja gelada, o papo entre amigos, a vontade de acolher e de sonhar junto. Graças a esse movimento, vimos nascer entre o suor do ritmista e o bailar da passista, o samba carioca, essa pérola musical com a qual a cidade presenteou o povo brasileiro. Peixes é o signo dos poetas, dos músicos, dos espíritos inspirados embalados pela cadência de versos e canções. Não teriam nascido em outra cidade estrelas da grandeza de Ismael Silva, Noel Rosa, Silas de Oliveira, Cartola, Candeia, Vinícius de Moraes, Tom Jobim e Chico Buarque. Parabéns, Rio! 


[1] Bachelard, Gaston. A água e os sonhos. Ed Martins Fontes, 2013, p.6. 

[2] Idem, p.7.  

[3] Artigo “Netuno: a subversão das massas e a dissolução da passividade” (2013), de Maria Eunice Sousa.  

[4] Canção “Rio 40 graus” (1992), de Fernanda Abreu e Fausto Fawcett.  

[5] Idem, ibidem. 

[6] Idem, ibidem. 

[7] Carvalho, Luiz G.; Câmara, Pedro Sette. Introdução ao simbolismo astrológico. 

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