Nos artigos que componho para a presente coluna, como de costume, poderia fazer uma breve apresentação do assunto a ser exposto; e, por se tratar de um tema aparentemente biográfico, caberia apresentar um resumo da vida daquele artista que escolhi. No entanto, preferi deixar de lado as descrições desta espécie para me dedicar apenas ao propósito filosófico que me conduziu até João do Rio (1881-1921). Ninguém há de negar que um homem como João, negro, homossexual, que trabalhou como jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo, seja motivo para um estudo mais aprofundado. Porém, interessa-me abordar o João do Rio de natureza não biográfica,  o João do Rio que existe para fora da condição de “pessoa” e de “sujeito”. 

Ora, se a proposta é tal qual, então é necessário expor as primeiras definições. Se me disponho a não atribuir caráter subjetivo à figura histórica de João do Rio é porque existem leituras possíveis em que o sujeito é passível de dissolução ou de implosão. Mas o que é sujeito? Na história da filosofia ocidental sempre se levou em conta o sujeito como “o eu, o espírito ou a consciência” e como “princípio determinante do mundo do conhecimento ou da ação”[1]. Graças ao sujeito tudo o que se conhece ou que se pode fazer uso como meio de ação é um objeto. Logo, o objeto é a parte complementar ao sujeito, ou seja, aquilo que serve de fonte de percepção, de entendimento, de julgamento, de raciocínio para uma consciência singular.

Na medida em que o sujeito desaparece, desaparece o mundo como objeto. Não havendo “aquele que conhece”, “aquele que age sobre tal objeto”, não há, como consequência imediata, “aquilo que se conhece” e “aquilo por meio do qual é empregada uma ação”. Quando vistos fora do prisma sujeito-objeto, conhecimento e ação dão lugar a outra relação que escapa a essa ordem paradigmática e tradicional do pensar. Ordem essa bastante combatida por Nietzsche que o motivou a desenhar uma nova diretriz – antissubjetivista – para o pensamento.

O que me trouxe até essa reflexão sobre a relação sujeito-objeto foi o próprio João do Rio através de sua extraordinária obra chamada A alma encantadora das ruas (1908). Nela se encontra a outra relação possível entre o ser e o mundo que não é a do conhecimento ou da ação. Porém, complementando a fala de João, temos os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, que afirmaram em Mil Platôs haver entre o ser e o mundo um momento “em que não se diz mais EU”, o ponto “em que já não tem qualquer importância dizer ou não dizer EU”, o tempo em que “não somos mais nós mesmos”, uma vez que fomos “aspirados, multiplicados”[2].

A partir de uma leitura especializada de A alma encantadora das ruas, declaramos que João do Rio caminha bem próximo, isto é, afina com o não-subjetivismo do pensamento de Deleuze e Guattari, pelo fato de que sua obra versa sobre esse não ser mais eu mesmo na relação entre o ser e o mundo. Vimos nas primeiras linhas da crônica poética de João do Rio essa multiplicação e essa aspiração as quais os filósofos franceses fazem referência em Mil Platôs.

Para João do Rio há um “amor partilhado por todos vós”; tal sentimento aproxima os seres; “nos une, nos nivela”; frente a ele “nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais”. O amor mencionado é o amor da rua, que é “imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas”; que “persiste e fica” como “legado das gerações”[3]. A rua representa, para João, não um objeto, mas uma experiência amorosa, graças a qual ele se sente irmanado ao mundo que o rodeia e incitado a partilhar o eu com outros.

Se se partilha o “eu” com o “outro”, dissolve-se à sujeição de um ser ao objeto: apenas há comunhão de seres aspirados que se multiplicam em um plano comum. Deleuze e Guattari chamaram de rizoma a essa relação entre ser e o mundo posta fora da binaridade sujeito-objeto. Não ser mais eu mesmo resulta de um princípio de conexão em que “linhas de articulação e de segmentaridade, estratos, territorialidades, mas também linhas de fuga, movimentos de desterritorialização e desestratificação” descarregam suas forças[4]. Esse princípio nomeia-se rizoma, entendido também como multiplicidade e variedade disposta de forma ramificada.

A rua guarda essa qualidade rizomática de ser traçada em um plano imanente, isto é, em uma cartografia dinamizada sobre um plano horizontal, que é a cidade, articulando, segmentando, estratificando ou desestratificando a relação sujeito-objeto. Na rua nunca somos nós mesmos, mas somos aquilo que ela nos dispõe a ser. No entender de João do Rio, a rua é “um fator da vida das cidades”, pois ela “tem alma”[5]. A cidade não é somente mapeada por artérias que operam como simples cortes geográficos. As ruas não são o objeto de trânsito de um sujeito; ela são mais: “são entes vivos”, pois “pensam, têm ideias, filosofia e religião”[6].

Nessa qualidade de ente vivo, a rua fabrica os tipos e suas ações. Segundo João do Rio, “a rua criou um tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, (…) tipo proteiforme, feito de risos e lágrimas, de patifarias e de crimes irresponsáveis, de abandono (…), tipo esquisito e ambíguo com saltos de felino e risos de navalha”[7].

Através da força viva da rua que pensa e “sente nos nervos” cada um dos seres que por ela atravessam em sua condição anônima surgem não só os tipos urbanos, com seu universo particular de hábitos e tendências, mas também surge o encantamento que as ruas produzem em nós e que João do Rio entendeu como sendo um sentimento de amor coletivo. Amamos a rua porque ela, em razão de quebrar o estrato sujeito-objeto, se mostra como “a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas”[8]. Ou seja, a rua agasalha todos os seres.

O que amamos na rua é seu poder de encantar e de fornecer experiências rizomáticas, experiências de conexão, que por isso contradizem à subjetividade do conhecimento e à objetividade da ação; são experiências decontágio. Somos contagiados pelo que esses blocos de concreto vivos são capazes de nos afetar. Não queremos a rua como objeto de passagem ou de espera; queremos a rua como elemento que funde as diferenças e nos equaliza com o mundo.

Cada rua afeta os seres de forma distinta em sua ação rizomática. João descreve: “há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue”[9]. Tais fenômenos, ou seja, aparições de urbanidade, articulam-se e segmentam à sua maneira o ser que é aspirado, sorvido pela rua.

João destacou o tipo urbano mais curioso que atravessa as ruas, a saber: o flâneur. Este tipo transpira a alma rizomática das ruas; ele existe unicamente como aquela potência urbana capaz de traçar linhas que articulam e desarticulam territórios. O flâneur é o espírito livre que, feito sangue, circula por todos os canais da cidade, mas sempre movido com o propósito de “refletir (…) comentar e ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem”[10]. Flanar “é ir por aí, de manhã, de dia, à noite” metendo-se em todos os cantos que desconhecem aquele “eu”, que ignoram o histórico que envolve sua pessoa e sua relação com os objetos[11].

Por vagar entre as coisas, nada se sustenta como um objeto para um sujeito. O flâneur não quer conhecer nem agir sobre as coisas, mas apenas trilhar sua linha de fuga pelas múltiplas e variadas ruas da cidade. O flâneur quer variar, se perder, deixar de ser o que é para ser o que tudo se mostra como possibilidade de dessubjetivação. Ele vai da praça às rodas da populaça, da esquina ao botequim, do botequim ao café, do café à seresta, da seresta novamente à praça e assim, sendo contagiado, numa trama de inúmeros e indistintos encontros. Ninguém o conhece e ele não conhece ninguém porque não é o conhecimento a mola propulsora desse movimento livre, mas o amor pelas ruas, o amor pela diversidade, o amor pela abertura de ser um com todos.

A rua é ruga, traduzido literalmente do original em latim. Entende-se, por aí, que com nada de linear e de regular ela guarda semelhança. A rua é o franzido da pele da cidade que torna a experiência urbana um ato de imprevisíveis acontecimentos. O flâneur constitui o tipo urbano extraordinário cujo corpo sinuoso ondula junto com essa concavidade da rua que é ruga; ele faz rizoma com a superfície deslizante da rua: seja da Lapa, dos Passos, do Lavradio, do Ouvidor, da Assembleia. Em todas elas, ele se articula e fura o cerco dos territórios e estratos, fundando suas próprias cadeias semióticas, suas próprias organizações de poder, sua própria língua e gestual.


[1] ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Trad. Alfredo Bosi. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 929.  

[2] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol.1. Trad. Aurélio Guerra e Celia Pinto Costa. São Paulo: Ed.34, 1995, p. 11.  

[3] DO RIO, João. A alma encantadora das ruas. Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em ( PDF ) A Alma Encantadora das Ruas (livrosgratis.com.br). Acesso em 23 de outubro de 2021.  

[4] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix, p.11.  

[5] DO RIO, João, A alma encantadora das ruas.  

[6] Idem, ibidem.  

[7] Idem, ibidem.  

[8] Idem, ibidem.  

[9] Idem, ibidem.  

[10] Idem, ibidem. 

[11] Idem, ibidem.  

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