Certa vez, o genial Rubem Alves escreveu uma carta endereçada a Roberto Marinho. Nas poeticamente bem traçadas linhas, Rubem dizia: “anjos frequentemente aparecem disfarçados de homens comuns. Veio-me, então a ideia de que, talvez, o senhor poderia ser um deles. O Anjo engravidou uma Virgem pela Palavra. A tevê engravida por palavra e imagem”. Empresários do porte de Roberto, dotados não só de dinheiro, bem como de estratégia, ergueram seus impérios de entretenimento que, na opinião de Rubem Alves, significam “modos de como fazer o homem sonhar”.  

Caetano Veloso, na canção “Santa Clara, padroeira da televisão”, reafirma a fala de Rubem Alves: “que a televisão não seja sempre vista como a montra condenada, fenestra sinistra, mas tomada pelo que ela é de poesia”. Foi assim que a geração de jovens que viveu os anos 90 se sentiu com a chegada e com a ancoragem da MTV: embebida pelo encantamento poético de uma revolução no campo do entretenimento.  

Bem me lembro. Na tarde nublada do sábado dia 20 de outubro de 1990, às 12h, dava início a primeira transmissão da MTV Brasil, pelo canal 9 VHF da extinta TV Corcovado. Já ciente do que viria, pelo frisson antecipado pela mídia, me aprontei todo e me posicionei frente ao televisor. Desimpedido, com o “trânsito livre”, não havia o “sai-daí-menino-deixa-eu-ver-minha-novela”. Liguei afoito a tevê e uma figura alegre e convidativa apareceu. Era a jornalista Astrid Fontenelle: “Oi, eu sou Astrid! E é com o maior prazer que eu estou aqui anunciando pra vocês que está no ar a MTV Brasil!”  

No documentário MTV 20 anos, Marcelo D2 endossa minha experiência: “a primeira coisa que entrou foi uma vinheta. Depois veio um clipe da Marina. A gente comemorou e falou ‘Wow! Gol!’ (…) Agora a gente vai ter um lugar pra passar os nossos clipes! Vamos fazer clipes!” Deveras, a MTV Brasil significou um avanço, pois se engajou na função de ser “um difusor da música brasileira”, um horizonte novo que se descortinava para os artistas, como um “veículo que faltava”, segundo as palavras do músico e apresentador Clementino Nascimento. O rádio já não dava mais conta.  

Nando Reis declarou que a MTV adveio ao cenário do entretenimento na qualidade de “objeto de atenção”. Carregado de uma estética própria, o novo canal oferecia pela primeira vez na história uma programação dedicada ao público jovem. Se a juventude é a tradição inventada pelo rock, produto mercadológico da década de 50, então a MTV, partindo da mesma premissa, é a invenção da juventude.  Especialmente da forma jovem de pensar a televisão e, portanto, de fabricar sonhos. Foi pensada por jovens, feita por jovens e dirigida aos anseios dos jovens. Pura autenticidade.  

Marina Person relata o seguinte: “quando a MTV nasceu, em 1981, eu ouvi falar de um canal de música que ficava tocando clipe o tempo inteiro. Daí eu falei: ‘como assim?’ Era um sonho! Como é que pode uma TV que só toca clipe?!” O espanto de Marina era o mesmo de toda uma geração. Era o veículo que faltava não só para os artistas, que passaram a produzir clipes e alavancar a venda de seus discos e promover seus shows, mas para o público que até ali não se identificava com a televisão, seja pelo formato “quadrado” e conservador dos programas, seja porque nada falava sua língua.  

Clipes de artistas internacionais (e brasileiros – quando produzidos), eram transmitidos em programas como Realce (1983) e Vibração (1984),  ambos pela TV Record, Clip Clip (1984), pela TV Globo, e Manchete Clip (1984), pela TV Manchete. A produção dos clipes era tacanha, os apresentadores dos programas não tinham carisma ou então eram bonecos que dialogavam com os artistas por meio de efeitos de edição.  No entanto, com a MTV, o processo não só se modernizou pela tecnologia e pelo aparato televisivo, mas, em especial, pelo fato de haver comunicação autêntica com o público. 

A jornalista Keyla Jimenez reconheceu na MTV uma emergência de linguagem – muito mais do que uma estratégia de marketing – uma vez que haveria uma “emissora jovem que conversasse com aquele universo” jovem; e, por se aproximar do que propriamente é juvenil, ou seja, a liberdade de ser o que é, a MTV se configurou como um “campo total de experimentação”, caminhando “até encontrar a fórmula”.  

Creio que a fórmula já estava dada desde o começo da MTV, nos EUA, em agosto de 1981. Steve Ross, o empresário dono da Warner-Amex Satellite Entertainement, tinha em mente fabricar um sonho e fazer aquela geração X, pós-punk, pós-discomusic, disfrutar de algo referido ao seu próprio tempo. Foi o momento em que a música se reafirmou como imagem. A música, com o surgimento da MTV, se constituía não só uma imagem sonora, imagem em movimento, mas também narrativa de imagem. A música se enganchou e se enamorou do cinema, só que em formato diminuto, feito para TV. Promoveu o “coroamento dessa cultura imagética”, como disse Arnaldo Antunes; e, inclusive, contribuiu para o progresso do cinema, com ruídos, ranhuras e efeitos mis. Filmes com “linguagem videoclipada”, como Cidade de Deus, são feitos aos montes. 

 “Nada novo no front”, diriam os céticos, já que, nos anos 30, o cinema sonorizado flertava com curtas-metragens musicados. Walt Disney, por exemplo, mixou música clássica com a performance de seus desenhos animados. O que é o filme Fantasia (1940) senão um aglomerado de videoclipes? Contudo, ainda não eram videoclipes, porque não apresentavam um caráter singular, emancipado, fechado em uma linguagem estética. O videoclipe já havia sido experimentado por Beatles, mas eram poucos os artistas dispostos a fazê-lo. Entretanto, com a exigência estética dos anos 80, o clipe se tornou a segunda pele da música, uma necessidade premente do artista e o modo mais completo de se comunicar com o público. Por isso, o jornalista Xico Sá tem razão em dizer que a MTV foi a “consolidação do clipe como linguagem musical do mundo inteiro”. 

A juventude é o semblante da MTV, graças ao que Nando Reis notou como sendo expressividade plástica do videoclipe, ou seja, “essa coisa fragmentada, de colagem, essa agilidade na edição” que ele comporta em seu modus operandi. Por isso, não poderia ser melhor aproveitado senão por uma alma jovem. Digo “alma” porque a MTV alcançou um público através da atração musical e não exclusivamente por um rigor etário. A MTV não era um território “do jovem”, mas um território da música. Éramos levados a ficar horas seguidas assistindo aos clipes de nossos artistas preferidos, libertos da limitação de “dez clipes” por programa. Primeiro durante 12h, depois 24, sem parar.          

Se a fórmula televisiva desse moderno e ousado canal é exprimir-se numa linguagem fragmentada, veloz, colorida, entrecortada e montada por intersecções de planos, com vinhetas e animações, os apresentadores precisam entrar em sintonia com essa atmosfera. Na verdade, não podem ser “apresentadores”, considerando que não se posicionavam como aqueles que exibem algo. Por serem VJs, os “apresentadores” são substituídos pelos “seletores”, por profissionais cuja funcionalidade está orientada para a seleção de músicas, na mesma proporção de um DJ de rádio ou de festa. Os VJs em geral eram jornalistas especializados em música ou músicos inclinados ao jornalismo. 

Sob um fundo de tela dinâmico ou abstrato, os VJs  davam seu recado falando coloquialmente, errando e improvisando o texto, saindo fora do enquadramento da câmera, fazendo piadas ou caretas, teatralizando, quebrando protocolos. Eles “não vestem a cara do jovem”, mas desempenham jovialmente o papel do jornalismo, selecionando músicas organizadas em programas segmentados por gêneros. Gastão Moreira selecionava, no Gás Total e no Fúria Metal, clássicos e contemporâneos do rock. Quem nunca tinha visto Zeppelin, como eu, teve a glória de se deliciar com seus clipes, graças ao Gastão. Luiz Thunderbird, com seu topete caricato, selecionava o Lado B destacando a cena underground ou selecionava os pedidos do público-dj em CEP MTV

Astrid Fontenele revezava com Cuca Lazarotto no Disk-MTV e no Top 20 Brasil, embelezando e animando as tardes de segunda a segunda, atendendo às preferências do público, não por cartas, mas por telefone. Corri algumas vezes ao velho e bom orelhão para ligar 240-6052 e pedir um clipe do Faith No More. Com a MTV, as paradas de sucesso definiam gostos e tendências, como vanguarda, à frente do rádio. Se escolhi o Faith No More no Disk MTV foi porque primeiro assisti ao clipe e depois ouvi Epic no rádio e, consequentemente, comprei o álbum The Real Thing e quis “ser o Mike Patton”. 

A MTV fabricou sonhos estimulando a necessidade de identificação, por gênero ou raça, tendo a música como trampolim. O ideal de “tribo” se propagou na cultura, de modo a se erguer em um nível global, ou seja, a juventude se uniu mundialmente. VJs e artistas se vestiam e se comportavam da forma como o jovem era ou queria ser. Os clipes mostravam artistas do rap e do reggae, ocupando espaços, portando roupas, cabelos e gestos, no mesmo plano, no mesmo canal que artistas com afirmativas distintas. Se algo ficou marcado para sempre na história da televisão foi o surgimento da MTV e de seu compromisso não só com o entretenimento, mas com a liberdade.  



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