Filipi Gradim: Telefone/minha casa  

Colunista do DIÁRIO DO RIO comenta os 40 anos do lançamento do filme "ET-o extraterrestre"

No cinema, além de terem feito do drama um gênero fílmico – quando, por definição, é do drama que outros gêneros se fundamentam – ainda cunharam um subgênero! Apesar de não ser oficializado, o termo “filme desidratante” já pode ser admito com facilidade entre os cinéfilos, como sendo um subgênero do drama. O filme que desidrata é o que a própria palavra indica: descarga exagerada de um quantitativo de líquido. E, por estar atrelado ao drama, bem sabemos que o líquido que se trata é a lágrima. Então, o filme desidratante é aquele que produz enxurrada de secreção lacrimal a partir de um drama que comove em excesso.  

Elenco dezenas de filmes desidratantes diante dos quais dificilmente controlo o fluxo emotivo das lágrimas. De Billy Eliot a Sociedade dos poetas mortos são litros de choradeira. Pois há o drama que comove, que penetra na fragilidade humana; e o drama que rasga, que dilacera. Steven Spielberg, um dos maiores diretores vivos do cinema estadunidense, é responsável por criar obras de excelência desidratante capazes de desmontar nossa resistência emocional. A cor púrpura (1985), A lista de Schindler (1994) e ele: ET – o extraterrestre (1982) são os três exemplos de momentos cinematográficos que me levaram ao extremo da emoção.  

cinema, por se inserir no universo das artes cênicas, não é outra coisa senão a dimensão planar que, em vez de imitar, plasma as emoções e as conserva dentro do que Deleuze e Guattari chamaram de “bloco de sensações”. O cinema nos convida a integrar esse bloco e a mergulhar no que tem de vitalidade, intensidade e afetividade. Ao assistirmos a um filme, estamos dentro do bloco de sensações, respirando junto dele, nem que seja para nos sentirmos sufocados, como fazem os filmes de suspense e terror. Mas é isto: pulsamos juntos às sensações que nos chegam em partes, em cortes, em enquadramentos, mas que se resolvem como um todo, um bloco, uma massa compacta dentro da qual emoções são provocadas e sugeridas.  

Spielberg realiza essa tarefa com maestria; nos envolve de tal forma, isto é, se insinua até nós com suas imagens, que, quando nos damos conta, já estamos tomados pelo filme, presos – se bem que por tempo provisório – no envoltório da obra, no bloco de sensações. ET – o extraterreste causou esse efeito em mim, nas crianças e jovens da minha geração e das gerações vindouras. Por essa razão se insere entre as maiores películas produzidas na história do cinema. Agindo sob o poder de sedução, Spielberg criou uma verdadeira obra prima, enredando as pessoas dentro de um filme irresistível que, além de “desidratar”, encanta por outros atributos. 

 Em artigo escrito para a presente coluna do Diário do Rio (“Steven, o fraterno” ), afirmei o seguinte: “a amizade perpassa por muitas obras de Spielberg, como o moto contínuo de seu pensamento. Com efeito, se nos detivermos no conjunto da obra – e não meramente em questões acidentais do filme – observaremos que Spielberg construiu, pouco a pouco, um discurso cinematográfico sobre a amizade”. A adoração que tenho pelo cinema spielberguiano trouxe-me novamente a esse movimento operado em muitos de seus filmes, que é a passagem da amizade, enquanto potência, enquanto dinâmica afetiva interna, ao ato, à concretização.  

Dessa vez o centro da questão sobre fraternidade é ET – o extraterrestre, em razão da celebração de seus quarenta anos de lançamento. Pois bem. O filme veio à lume em 11 de junho de 1982, pela Universal Pictures, invadindo as salas de cinema nos EUA e sendo a principal atração da estação do verão. O estouro comercial levou a obra de Spielberg ao ranking de maior bilheteria da história do cinema, até ser superado, curiosamente, por outro trabalho de sua autoria, que foi Jurassic Park, em 1993. ET foi aclamado pelo público e pela crítica ganhando o patamar de produção cinematográfica significativa por sua contribuição estética e ética – esta última sendo a que considero mais expressiva e, portanto, mais forte do ponto de vista emotivo. 

É sabido que Spielberg, no início dos anos 80, uniu-se à roteirista Melissa Mathison, a fim de que uma história, em potência, se tornasse ato. Desde a juventude, nos anos 60, o diretor tinha em mente desenvolver uma narrativa em que o personagem seria um amigo imaginário. Nos anos 70, após filmar Contatos imediatos do terceiro grau, Spielberg projetava escrever o roteiro de um filme que se chamaria Watch the skies – título alterado depois para Night skies – onde uma família seria aterrorizada por alienígenas. No entanto, havia uma alternativa para a trama, onde um membro benevolente da raça alienígena criaria um elo com o filho autista dessa mesma família vítima de ataques. Foi então que Melissa Mathison entrou para reestruturar o fio narrativo, que a princípio se chamaria ET e eu, até se tornar o que filme que conhecemos.   

 A trama de ET – o extraterreste inicia com a saída repentina de uma nave alienígena que ao pousar na Terra, explorando a botânica da região, foi forçada a fazê-lo ao avistar a presença de agentes do governo. Na pressa, saem e se esquecem de um dos alienígenas. O alienígena, de estatura pequena e atarracada, sem saber para onde ir, migra para algum local mais seguro, no meio da mata. Em um bairro suburbano, no Vale de São Fernando, o menino Elliot (Henry Thomas) está entretido com o irmão mais velho Michael (Robert Mac.Naughton) e seus amigos. É noite. Elliot vai até a porta buscar a pizza. Na volta, percebe algo estranho no quintal de casa, mais precisamente no depósito de ferramentas. Ao se aproximar, vem o susto inicial: de dentro do depósito sai rolando uma bola. Envolto na neblina da noite, o mistério: “quem está aí?” Elliot corre até em casa, causa alarde entre a família e os amigos, mas ninguém o leva a sério, depois de conferirem no depósito que não há nada ali. Zombam do menino e se retiram. 

Elliot não se dá por vencido. Impossibilitado de dormir, retorna ao depósito em uma das inúmeras cenas de impacto visual comuns ao filme. Ele invade o milharal, de lanterna em punho, intrigado com a situação. Até que encara o alienígena provocando uma histeria mútua. O alienígena corre desesperado para dentro do milharal. No dia seguinte, Elliot vai até a floresta na busca do ET e cria uma trilha de doces atraindo-o até sua casa. Rapidamente o alienígena reaparece na casa e é recebido por Elliot, que o abriga em seu quarto, escondido de Mary, sua mãe (Dee Wallace). Pouco a pouco a relação entre o alienígena e Elliot vai se descontruindo, vai perdendo a hostilidade e o medo e vai dando lugar ao acolhimento e à tentativa de diálogo.  

 Elliot percebe no hóspede habilidade mimética, resultante da inteligência alienígena que infelizmente desconhecemos. ET copia os gestos do menino, esforça-se em estabelecer uma comunicação possível. Nesse primeiro momento, ET vê em Elliot o amigo que pode ser útil, aquele capaz de ajudá-lo a encontrar o caminho de volta para casa. Movido pela curiosidade pelo novo amigo, Elliot finge-se doente para a mãe, e não vai à escola. Mas revela ao abobalhado Michael e à caçula e mimosa Gertie (Drew Barrymore) o segredo ao qual eles logo aderem. 

 As crianças e Michael testemunham diversas manifestações do poder de telecinesia do alienígena, quando ele, milagrosamente, faz bolas de massa de modelar girarem, revitalizando flores murchas e curando feridas com a ponta de seu dedo, iluminada por certa luz vermelha. O espírito de fraternidade nasce em ambos os lados: os humanos se interessando cada vez mais em ajudar o alienígena perdido e este querendo ajudar os frágeis humanos. É o que ocorre quando, através da revista em quadrinhos do herói Buck Rogers, o alienígena vê um aparelho usado como dispositivo de comunicação. Então, pede a Elliot que, junto dele, crie um aparelho igual. Prontamente, o menino realiza o pedido e ambos constroem um canal de comunicação.  

 No Dia das Bruxas, Elliot disfarça o ET com um lençol branco e o esconde na cesta da bicicleta. Aquele é um pretexto para que ambos fujam até a floresta para fazer o contato com os alienígenas através do tosco aparelho inventado. Essa viagem acontece na cena icônica em que ET, com seus poderes, faz a bicicleta se locomover no céu. Os dois chegam na floresta, a noite cai e o alienígena desaparece. Elliot o encontra na manhã seguinte, caído num buraco, agonizando, pálido, enfraquecido. Desesperado, retorna para casa. A mãe, por sua vez, descobre o hóspede e se apavora, afastando os filhos do alienígena. Mas já é tarde. Agentes do governo invadem a casa, fazendo inquéritos, enquanto cientistas vedam o local, transformando-o em um hospital improvisado; por precaução retiram o alienígena adoecido da presença de humanos. 

A partir dessa separação brutal, a relação fraterna entre Elliot e ET já não é mais aquela do nível do interesse, quando um amigo promete realizar um serviço que nos é caro. ET curou e alegrou a vida entediante de Elliot, ao passo que Elliot deu-lhe meios e esperança de rever seu povo. A partir daí, se instaurou o respeito; e entre ambos já não valia o interesse como motivo de amizade, mas a amizade agora não existia por causa de motivos, mas existia por si só, pelo simples fato de que um nutre sentimento de amor pelo outro, um quer o outro por amor. 

Tanto é que dói na pequena Gertie ver as flores murchando novamente. É sinal de que ET vai morrer, por estar apartado de casa. Elliot não se conforma em estar longe do amigo, pois amizade pura, aquela que é virtuosa, não suporta a distância; e tenta, a todo custo, minimizar as lacunas que separam o “eu” do “outro”, através de um esforço de aproximação. Elliot corre até o amigo, sofre com sua piora, mas também se anima ao vê-lo reagir e indicar que é chegada a hora de retornar à floresta, pois o contato com a nave deu resultados positivos. Estão vindo! 

Elliot avisa à Michael e arrumam uma forma de fugir. Pedem cobertura aos amigos que os encontre no caminho. Roubam uma van e libertam o alienígena da vigilância dos cientistas. Mas a polícia os enfrenta e tenta bloqueá-los. Elliot e ET se metem na bicicleta enquanto os policiais tentam capturá-lo. ET libera seu poder de telecinesia e, outra vez, Spielberg e Mathison nos preparam o ápice visual do filme, quando os meninos atravessam o céu vespertino da cidade montados em suas bicicletas até chegarem ao ponto da floresta em que a nave está à espera de seu alienígena perdido. Não há quem não se arrepie com tal cena. 

 A partir dali é só derrame de lágrimas. Elliot sabe que a alegria de ter um amigo verdadeiro está chegando ao fim; e o alienígena vive o mesmo; sentimentos como amor, gratidão, até então supostamente considerados uma exclusividade humana, aparecem em cena sob um corpo extraterreno. ET externaliza a universalidade infinita do amor e da amizade; provando que não há fronteira planetária que a separe, nem linguagem que a invalide. Ela é vivida como pode ser vivida, dentro dos limites do corpo, seja ele qual for. Fica visível nos expressivos e umedecidos olhos azuis do alienígena e em seu coração pulsante e ardente feito brasa. E Elliot é o canal por meio do qual essa união é possível, pois é a criança o ser humano mais apto a compreender os recônditos da língua secreta do amor.

Lembrando o sábio Spinoza, que sempre me acompanha como uma Bíblia pagã: o amor é expressão de potência máxima da alma e do corpo; amando somos infinitamente plenos de energia, crescemos, unimo-nos ao todo; e a amizade é o sentimento de expansão compartilhado com outros que desejamos ao nosso lado sem interesse algum; apenas porque é ainda mais potente partilhar potência do que gozá-la sozinho. ET, se pudesse levaria Elliot; e o mesmo faria Elliot, conservando-o em sua casa, como amigo. Por nos ensinar tanto sobre fraternidade num momento em que a guerra fria ainda vigorava no mundo, Spielberg simboliza o estandarte de um cinema que nos arranca lágrimas por avivar na alma a sede de potência infinita, a vontade infinita de amar e de partilhar.  

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