Em certo verso da canção Tu és o MDC da minha vida, de Raul Seixas, o eu lírico referenda-se a um programa social bastante peculiar, a saber: “ter com a moçada lá do Píer”[1]. Quem desapercebidamente ouve esse grande sucesso de Raul  não se dá conta de tal referência, dado o fato de que a canção nos desvia para o núcleo narrativo de um romance irônico e divertido.  Entretidos com a excelente letra, nem sequer cogitamos que nela se faz menção a um dos maiores ícones da contracultura brasileira.  Simplesmente o Píer “passa batido” por nós. É necessário escutar a canção novamente e perceber que é o famigerado Píer de Ipanema que se acha metido na elaborada composição de Raul, entre tantas outras imagens curiosas. Como também é preciso, depois de identificá-lo, interpretá-lo enquanto fenômeno contracultural.  

Em termos conceituais, a contracultura designa-se como sendo movimento de oposição ao modelo paradigmático de cultura. Visto assim, o que então a cultura apresenta de refutável para que a contracultura se lhe oponha? Para Herbert Marcuse, por exemplo, a cultura é entendida em dois sentidos: no lacto, em que engloba um mundo de valores gerais, um mundo espiritual  que a civilização adotou como suporte de progresso; aqui ele guarda um sentido de totalidade social, onde se vê espelhado o reflexo do caráter nacional de um povo.  

Ao passo que, no stricto sensu, a cultura não é um bem nacional, coletivo, indiferente à pessoa; mas sim um bem local, endereçado a determinados grupos e respeitantes a ideais pessoais, a modos próprios de viver. Nesse caso, “a cultura deve assumir a preocupação com a exigência de felicidade dos indivíduos”[2]. Esse bem cultural, baseado no bel prazer, requer luta e conflito, já que para se impor deve encarar uma sociedade que “se reproduz por meio da concorrência econômica” em que os valores são o comércio, a força de trabalho, o lucro etc.[3] 

Uma contracultura que se preze se opõe à cultura no sentido lato; e, movida por interesses, toma partido do território; e o território primeiro a ser recortado no meio do genérico é o corpo e a individualidade com sua alma. Embora se recuse a seguir o modelo comum e genérico de cultura, a contracultura não é negativa, porque sua base é a cultura afirmativa, ou seja, o conjunto de valores que pleiteia a liberdade do indivíduo e sua “suprema realização” no contexto de uma comunidade de pessoas livres, racionais, “em que todos são dotados da mesma possibilidade de desenvolvimento e de realização de todas as suas forças”[4].  

 No afã do desejo de liberdade, movido pela volúpia inconsciente que quer valorizar a profundidade da alma, da vida interior, em detrimento da mercantilização, da reificação e da alienação da pessoa, determinados grupos sociais se reúnem em torno desse propósito e formam falanges desviantes. Contrariando a convenção abstrata de comunidade, os “grupos sociais desviantes” “se opunham aos valores e costumes hegemônicos nos países desenvolvidos do Ocidente” endossando a necessidade de territorializar cada vez mais os bens culturais[5]

 Quando se territorializa um bem, visando o indivíduo enquanto valor, é dispensável a obediência aos critérios abstratos ou ideológicos, já que a abstração nega o estado real da individualidade e a ideologia obscurece a autenticidade e a singularidade das pessoas. Logo, o grupo social desviante que compõe a contracultura não adotará atitudes que repercutem discursos engessados. Todo comportamento tradicional será rejeitado. Discursos de esquerda, direita ou centro, por serem percebidos como integrados ao corpo teórico da sociedade paradigmática e tecnocrática, solidificada por princípios positivistas de “ordem e progresso”, tornam-se obsoletos; a contracultura não quer reproduzir o estabelecido; ela quer desviar daí. 

Assim surgiu o grupo social componente do movimento contracultural do Píer de Ipanema: desviando das convenções do status quo. Tendo ocorrido na ditadura militar (entre 1971 e 1975), durante o governo sanguinário e truculento do general Medici, a socialização, que reunia nas areias de Ipanema surfistas, artistas, filósofos e “doidões”, preferiu desviar dos paradigmas da cultura positivista, do “bem nacional” preterido pelos militares, mas pela via do mar. Adotar a recusa ao sistema e aos discursos dentro de um território como a praia, abrasado pelo sol, distendido e pacificado pelas águas, não poderia ter sido uma atitude mais desviante. 

Segundo relata Vitor Paiva, em excelente artigo, o Píer de Ipanema representa o zeitgeist, o espírito de época que preencheu de significação histórica e cultural um determinado território do Rio de Janeiro sitiado pelos militares. O Píer foi construído no que hoje conhecemos como posto 8, em frente à Rua Teixeira de Melo, com a intenção de instalar um emissário que despejaria dejetos dos bairros ricos da cidade até o mar. “Para fazer a tubulação chegar até o ponto correto no mar foi preciso alterar a morfologia do solo e a própria profundidade do mar”[6]. Com isso, as escavações não só desenharam diversas dunas na areia como também mudaram a confluência e a qualidade das ondas, atraindo os surfistas que vinham do Arpoador. 

Os militares proibiram o surfe depois das oito da manhã em todas as praias, forçando os surfistas a um deslocamento territorial que, ao mesmo tempo, também se verteu na fundação de um novo território. A “terra mágica”, o “oásis utópico”, projetou sobre o mar de Ipanema uma nova estação de surf, em que as ondas esbanjavam belíssimas formações, para o bel prazer dos surfistas. Na areia, por sua vez, se fez um recorte social inusitado. A faixa da areia exclusiva contribuía para socialização do pequeno grupo de indivíduos desviantes, ciosos pela recusa ao modelo paradigmático de cultura. Erguia-se ali a verdadeira república da liberdade individual.  

 Podia-se muito; porém, como disse Caetano, “muito é muito pouco”[7]. Esse destempero da liberdade e do bel prazer em detrimento da dominação e alienação da cultura é que se chamou desbunde. A juventude desbundada visava regrar-se para além da normatividade, transgredindo o estabelecido, provando que a liberdade ou a felicidade de modo algum são conceitos genéricos e abstratos impostos de cima abaixo; que um mundo de repressão é um mundo infeliz; e que, por isso, liberdade e felicidade são valores construídos; e construídos dentro de um território próprio, pessoal, onde o indivíduo se faz valer acima de qualquer norma.  

Ter com a moçada lá do Píer representava ser livre e feliz, em conflito pacífico com a repressão militar. Por lá estiveram os surfistas Rico, Pepê, Bocão, Pacheco, Friedman, e Petit, o menino do Rio do “dragão tatuado no braço”, cortando as ondas e contorcendo-se em manobras radicais. Frequentavam também os músicos Gal, Jards, Raul Seixas, Paulo Coelho, Caetano, Gil, Novos Baianos e Jorge Mautner, os poetas Chacal e Wally Salomão, o cineasta Glauber Rocha, os atores Evandro Mesquita, Patrícia Travassos e José Wilker. Entre anônimos e famosos, regia-se a mesma sinfonia: a urgência de encontros e experiências que intensificassem forças da alma, que rompessem a corrente mecânica de uma cultura comandada pela uniformidade.   

Duas experiências eram vitais para que a cultura do bel prazer individual suplantasse a cultura dos discursos montados. A primeira delas era a liberdade sexual. Na faixa territorial do Píer, por não ser acessada por banhistas comuns, homens e mulheres beijavam-se livremente; as mulheres faziam topless. A segunda delas era o entorpecimento. Nas “dunas da Gal”, consumiam-se diversas drogas ilícitas como maconha, cocaína e LSD, permitindo aos indivíduos desviantes liberdade de consciência e expansão no nível que idealizava Huxley ou Castañeda. Ter com a moçada lá do Píer equivalia a diluir-se em um estado de barato total, esquecendo “compromisso com isso e aquilo”, como diz a canção Gilberto Gil, eternizada por Gal[8]

Em posse da liberdade sexual e do entorpecimento, a juventude fundou a contracultura mais curiosa da década de 70, uma vez que conseguiu-se criar um território único. Graças a isso, as dunas do barato serviram de modelo de resistência, influenciando direta ou indiretamente outros fenômenos de contracultura como o grupo de teatro Asdrúbal trouxe o trombone e o Circo Voador, que ocuparia o Arpoador cinco anos depois da desmontagem do Píer de Ipanema.  

Na opinião de Raul Seixas, para a moçada do Píer era “careta falar de amor”. Na verdade, o discurso do grupo social desviante não pretendia reviver o Verão do Amor dos anos 60, ainda que o amor estivesse presente na pauta. Liberdade era o propósito ético mais alto daquela contracultura carioca; que, ao contrário da contracultura bicho-grilo, não buscava no amor o sentido da libertação, mas antes buscava na libertação a melhor forma de, não só amar, mas também de viver e de criar. Por isso, eles são desbundados e não hippies: porque o amor é efeito e não causa da liberdade. Os desviantes de Ipanema não eram tão cristãos a esse ponto. 

Sem liberdade individual, não há nada; nem amor, nem vida, nem criação. Liberdade não é campanha ufanista. Ela começa no indivíduo, respeitando a carne, o prazer, o território. Aquela geração, frequentadora das dunas, conheceu de perto o valor dessa liberdade que é estranha às abstrações dos dicionários. Não poderia, de modo algum, aderir a outro bem cultural que não fosse a liberdade individual, que se exercita sozinho, por si, sem normas, sem generalizações, sem estratificações. Aquela juventude que, mesmo nas dunas, sabia de toda perseguição, tortura e morte, não poderia gritar seu ódio nas ruas, mas preferiu converter sua indignação em distensão, em calor, em loucura, em música, em poesia, em nudez. Puro desvio.  


[1] TU ÉS o mdc da minha vida. Intérprete: Raul Seixas. Compositor: Paulo Coelho e Raul Seixas. In: Novo Aeon. Intérprete: Raul Seixas. Rio de Janeiro: Philips, 1975.  

[2] MARCUSE, Herbert. Cultura e psicanálise. Trad. Wolfgang Leo Maar, Robespierre de Oliveira e Isabel Loureiro. São Paulo: Paz e Terra, 2001, p.22.  

[3] Idem, ibidem.  

[4] Idem, p.26.  

[5]THOMÉ, Luciano. Contracultura: o conceito, sua história e seus problemas. Disponível em: 1476382682_ARQUIVO_Contracultura.pdf (anpuh-rs.org.br) Acesso em: 30 de agosto de 2021.  

[6] PAIVA, Vitor. A história do Píer de Ipanema, ícone da contracultura e do surf no Rio dos anos 1970. Disponível em: A história do Píer de Ipanema, ícone da contracultura e do surf no Rio dos anos 1970 | Hypeness – Inovação e criatividade para todos. Acesso em 30 de agosto de 2021.  

[7] MUITO. Intérprete: Caetano Veloso. Compositor: Caetano Veloso. In: Muito. Intérprete: Caetano Veloso. Philips, 1978.  

[8] BARATO total. Intérprete: Gal Gosta. Compositor: Gilberto Gil. In: Cantar. Philips, 1974.  

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