Greater Bird of Paradise (Paradisaea apoda) males performing upright wing pose display, Badigaki Forest, Wokam Island in the Aru Islands, Indonesia

Eros é um dos deuses mais lindos. Na psicanálise freudiana ele desempenha um papel importante, na medida em que simboliza um dos impulsos do princípio do prazer. Erótico é propriamente o instinto inconsciente que atua por vias obscuras e inacessíveis, propulsionando dois corpos e duas almas a se encontrarem, isto é, a formarem um casal que se unirá tanto no amor quanto no sexo. Por ser assim inconsciente, o erotismo independe de escolhas individuais. Sua força é autônoma, por isso Eros é divino. Apenas nos cabe direcionar o “quem”, o objeto de amor ao qual nos ligaremos, mas o “quando” e o “porquê” se ama se restringe à esfera divina.

Se o tempo e as razões de amar são domínios inconscientes que escapam ao controle racional, nos cabe, no entanto, cuidar desse “quem”, desse “tu” que o amor nos conectou de forma impulsiva e tiranicamente cioso por sentir prazer. O primeiro cuidado que o amor nos reserva é a maneira de se aproximar do objeto de amor. Se o amor é, como disse Schopenhauer, “a finalidade última de quase todo esforço humano”, então todas as outras coisas estão subjugadas a esse prazer. Se Eros nos conectou com outra alma e outro corpo; se, enfim, pela força do Cupido, justapôs o princípio de prazer do “tu” ao princípio do prazer do “eu”, então a aproximação erótica é a forma com que alcançamos a finalidade última da vida, que é amar.

A primeira forma de aproximação erótica não é o sexo. Mas sim o cortejo.  Desde que o humano é humano, o erotismo parte dessa prerrogativa. Cortejar o objeto de amor é prática comum em todas as culturas e sociedades. Sem que saibamos, o instinto nos coloca no caminho daquele “tu” que nos fascina e afigura como sendo “a festa da vontade”, a “promessa de felicidade”, consoante diz Caetano Veloso. Faz-se necessário, no entanto, que o instinto erótico se disfarce e não se revele tão abertamente e que respeite a fronteira do outro. Esse disfarce é o cortejo. O amante “sabe com muita habilidade cobrir-se com a máscara objetiva” da sedução, disse Schopenhauer, para que outra coisa, subjetiva, – o prazer – domine sobre o outro.

Para isso, o amante se vale de diversas manobras. O cortejo erótico humano é amplo de possibilidades. De um modo geral, são invenções e produtos da imaginação; e, portanto, são arte. Elas apresentam recursos que a natureza não dispõe de imediato e que forçam o humano a buscar alternativas e suplementos. O homem não inventa o amor, mas inventa as formas de amar e, sobretudo, as formas de aproximação. Poemas, canções, pinturas, danças, serestas, fraseados, maquiagens, indumentárias, perfumes, penteados, perfis de aplicativos, etc., são provas cabais de que o amor humano se realiza por duas forças: a instintiva e a artística.

Entretanto, no meio animal, o cortejo é ainda mais poderoso por ser ainda mais artístico. Ou antes: no animal o cortejo não é uma fonte provinda da consciência, mas se mistura com o instinto. É a própria natureza, em sua dimensão artística, que prepara o animal para agir assim. No livro Mil Platôs (1980), de Gilles Deleuze e Félix Guattari, podemos entender melhor esse aparelho erótico animal. Os dois filósofos declaram que as relações de poder são relações entre os meios, quer dizer, entre duas ou mais dimensões. O corpo é um dessas dimensões, que mantém agenciamentos ou interconexões com outros corpos, sempre de uma forma expressiva.

Cada corpo interpenetra outro. Os meios se aproximam, se insinuam, se assediam, enfim, cortejam-se; são comunicantes, em essência. No erotismo, a comunicação ocorre quando um corpo atrai o outro ou se deixa atrair. É sempre um jogo de linguagem, onde um meio seduz o outro por sinais. Nesse movimento, opera-se um determinado ritmo em que “espaço-tempo heterogêneos” coordenam sinais e afetos, concebendo uma unidade das diferenças. Quando um meio se aproxima do outro, movendo-se na sua direção, sob certo ritmo, forma-se entre eles um território. Por se tratar do princípio do prazer, esse território será erótico.

No amor, os corpos se entrecruzam. No espaço entre eles se forma um território erótico, em que dois meios estão em jogo, a saber: a zona interior e a zona exterior do amante. A zona interior corresponde aos impulsos inconscientes do princípio do prazer, o próprio deus Eros. Ao passo que a zona exterior corresponde à consciência, ao corpo do amante, aos sinais que ele cria, voltados inteiramente para o que a zona interior determina e comanda na busca por prazer.

O erotismo é territorial, quer dizer, precisa promover o encontro de dois campos e dois ritmos diferentes: o “eu” e o “tu”. No espaço entre as singularidades se encontra o território do amor. Por ser assim, partilhado, o território erótico não é nem o “eu” nem o “tu”, mas o “nós”. Aí, encerrado numa zona intermediária e, justamente, conflitante, a ternura e o sexo decorrem. E mais: a libido se torna arte. O cortejo é essa arte, o movimento rítmico, simulado, que aproxima as dimensões, apresentando o primeiro contato erótico entre eles.

Todo animal marca o seu território, tanto se for por impulsos de ódio (Tanatos) quanto se for por impulsos de amor (Eros). Como a “arte não é privilégio do homem”, como dizem Deleuze e Guattari, entende-se que o animal é tão artista quanto nós. Ele também dispõe de recursos expressivos que se tornam estilos de amar e de atrair. Só não precisa mascarar as intenções, porque estas inerem ao seu ato de conquista. Por essa razão, em todo reino animal, o cortejo é algo impressionante de ver, por confirmar a potência territorializante das espécies.

Territorializar não é se apossar de um espaço, mas, antes, delimitar uma capacidade artística de se expressar em algum domicílio. E, se a expressão é, além de artística, erótica, então os animais serão mais artísticos quanto mais erótica for o impulso de se unir a outro corpo. Os animais conquistam sem projetar na consciência, sem desejar o “tu”, o “objeto de amor”, da forma como humanos fazem. O cortejo brota por imperiosa necessidade da natureza. Eles, portanto, não criam sinais, não são artistas, cantando, dançando, saltando, exibindo plumagens coloridas por simulação, mas por expressividade de sua espécie. São, enfim, eróticos ingênuos.

O naturalista Gerald Durrel afirma que “a maior parte dos animais leva muito a sério o galanteio de seus parceiros (…) criando formas fascinantes de atrair a fêmea de sua escolha (…) dotando-se de uma diversidade assombrosa de plumas, chifres, penas e papadas, e de uma incrível variedade de cores, desenhos e odores”. Acrescenta que “quando os animais cortejam, se dedicam a isso de corpo e alma e, inclusive, se for necessário, estão dispostos a morrer”.

O fuselo macho se aproxima da fêmea abrindo e fechando em leque suas asas negras, de forma apoteótica e intimidadora. As aves do paraíso, com plumagens multicoloridas, bailam, cantam e saltitam nos galhos, bicando a fêmea, a ver quem ganha a disputa. Algumas espécies, durante o baile, envolvem seus corpos com as asas, formando pomposos “tutus” de balé.

Rãs e sapos incham suas papadas e realizam cantos específicos. No mundo submarino, o baiacu traça sua marca, territorializa eroticamente, desenhando na areia uma belíssima mandala, que leva semanas até atrair a fêmea. Pavões abrem esplendorosa cauda, tão rica de cores e de tramas, girando em torno daquela para quem devem brilhar: a fêmea.

Em alguns casos, o território é assinalado de forma tão intensa pelos ritmos animais que os meios não só se encontram, como também se chocam. Os impulsos eróticos terminam sendo penetrados pelos impulsos de morte. Girafas cortejam através de seus longos pescoços, que se entrelaçam num baile animado, podendo, devido ao movimento bruto, acarretar em fratura ou deslocamento dessa região corporal. Renas cortejam também por uma arte bastante perigosa, pois colidem com seus chifres pontiagudos às vezes de tal forma que se engancham até que uma mate a outra. O cortejo macabro se dá entre os polvos, onde, após a justaposição dos corpos, o ritmo e a potência da fêmea terminam por matar o macho.

Seria injusto excluir o animal do ato de dançar, como se dançar fosse apanágio humano. O cortejo da aranha-pavão contraria essa falsa noção, pois essa espécie apresenta elaborada coreografia e teatral gestualidade, somado ao fato de que sua “cauda” colorida causa um efeito ótico sedutor. Corvos-marinhos se erguem na água patinando velozmente, lado a lado, em um movimento sincronizado, sem fins vaidosos; apenas conduzido pela potência erótica natural.

O erotismo animal não constitui um simples dever-reproduzir, mas ele ultrapassa essa exigência. Animais se amam e, ao mesmo tempo, estilizam o meio em que vivem. O cortejo é a demonstração de que o natural não possui um ritmo monótono e repetido, mas que o natural se faz artístico. Não há separação entre esses dois meios. Pelo contrário. É no encontro dessas diferenças que o mundo é tão amplamente complexo e soberbo em sua beleza expressiva.



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