Portuguesa-x-Fluminense - Copia

Estou comovido. Parte dos torcedores do Rio, subitamente, virou legalista. Cumpra-se a lei! Fim. Portuguesa escalou um jogador irregular? Deve perder pontos. Vai ser rebaixada? Paciência. Um campeonato melancolicamente definido nos tribunais? Faz parte. Legalismo puro. Argumento incontestável, afinal, quem vai defender o descumprimento da lei?

Estou tão comovido com esta súbita onda moralista que sugiro a sua radicalização. Defendo a análise de todas as 37 rodadas anteriores do campeonato atrás de jogadores irregulares. Afinal, se em uma rodada dois foram escalados irregularmente, é provável que essa seja uma prática até certo ponto recorrente. Vamos fazer uma cruzada atrás dessa turma, punir com perda de pontos todos os times que pisaram fora da linha. Não sei se isso é juridicamente viável, mas torço para que seja. Afinal, o que vale é o cumprimento da lei.

Esse legalismo puro, claro, exige cinismo em igual pureza. Temos que ignorar que uma lei que leva um campeonato a ser decidido no tribunal e não no campo é uma imbecilidade. Temos que esquecer que sendo a lei boa ou não, quem a aplica muitas vezes não é. Ignorar que em um meio podre, como o futebol, a lei acaba sendo ferramenta para perpetuar privilégios. Ignorar que é uma incoerência sem tamanho que infrações semelhantes, como as de Botafogo e Cruzeiro, tenham sido julgadas de formas diferentes. Nada disso importa. A lei na sua pureza é mais forte que tudo.

Nossa cruzada pela moralidade no futebol será bela. Vamos caçar pontos de todos que escalaram jogadores irregulares. Cairá quem não deve cair. Não importa. O G-4 pode mudar. Dane-se. O campeão pode ser um time sem merecimento. Não tô nem ai. Cumpra-se a lei! Fim. Legalismo puro is the new fashion.

Marcos é carioca e formado em Jornalismo pela PUC-Rio. Trabalhou com empreendedorismo desde a faculdade, coordena a ONG PECEP e trabalha no Instituto Phi. No tempo livre, gosta de ler e praticar esportes. Seus livros preferidos são “A revolução dos bichos”, “Amor nos tempos do cólera” e “O banqueiro dos pobres”.

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