Marcelo Freixo

Se o primeiro turno desta eleição foi definido pelo voto útil anti-Crivella, com muita volatilidade ao final do insuficiente período de campanha, o segundo também será marcado pela escolha de um anti-candidato. Não é que Crivella e Freixo não contem com eleitorados fiéis – embora o público seja menos religioso no segundo caso. É que a massa que decidirá a eleição rejeita ambos.

Crivella percebeu desde o início que a chave para a vitória estava em suavizar a sua imagem e reduzir a resistência de quem por princípio não lhe teria simpatia. Durante toda a campanha, a tônica do seu discurso vem sendo a possibilidade de uma gestão tranquila, agregadora, tolerante. Uma perspectiva oposta à virulência de certas pregações evangélicas.

Freixo entendeu metade da história. Pregou o voto útil da esquerda no primeiro turno, o que normalmente não seria esperado de um candidato do Psol. E agora faz algum esforço para não nacionalizar o debate e para lembrar que se o eleito não for ele será o Crivella. É pouco.

Para ganhar, Freixo tem que dialogar com quem não concorda com o programa de governo dele. Com quem acha que criar empresas estatais e dezenas de conselhos participativos não é uma boa ideia para dinamizar a gestão da cidade. Com quem quer a manutenção da ordem pública. Com quem está mais preocupado se vai ser assaltado por um pivete na esquina do que com o que farão com a criança se ela for apanhada. E com quem não acha que o impeachment foi um golpe.

É legítimo e desejável que partidos e candidatos tenham linhas ideológicas e programas claros e tentem convencer os eleitores de que sua implementação é o melhor para a cidade, o estado e o país. Ao longo do tempo, as pessoas podem mudar até mesmo as suas crenças mais fundamentais.

Mas Freixo não tem este tempo. E no próximo dia 30 são os eleitores que vão escolher um candidato – não o contrário. Saber fazer concessões mantendo a coerência não é fácil, menos ainda em um partido como Psol.

Manter-se puro ainda que ao preço da derrota garante algum conforto pessoal. Mas para fazer a diferença numa democracia e mudar para melhor a vida das pessoas normalmente é preciso fazer sacrifícios e enfrentar resistências.

O maior adversário de Freixo não é Crivella, mas ele mesmo. O discurso “Fora Temer” da vitória na Lapa foi um péssimo começo e não será suficiente apenas evitar repeti-lo. A campanha precisa mudar. Freixo pode até ganhar, mas não vai ser desse jeito.

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