Desde a mocidade, em tempos de escola, somos apresentados às formas geométricas. A simplicidade dos triângulos, círculos, quadrados, retângulos e losangos chega até nós pela via rigorosa da Matemática. A bem dizer, é aí que mora o perigo. Não por culpa da disciplina, que desempenha com eficiência seu papel de educadora e de introdutora ao universo complexo e abstrato de números e figuras. Suponho que a raiz do problema esteja no fato de fecharmos os olhos para o que existe de estético na Matemática. A “culpa” de não nos atrairmos pelo geométrico vem de um vício da cultura, a saber: a necessidade inexplicável de separar beleza e lógica. Em geral, o que é de teor matemático dificilmente nos encanta como encantam as flores, os bichos, as músicas e os poemas. Vimos a geometria apenas como útil – e quando vimos!



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O século 20 provou o contrário: a geometria pode e deve ser estética, quer dizer, pode e deve produzir prazer sensorial a partir da combinação de suas formas puras. O movimento de vanguarda chamado Cubismo deu o primeiro passo para instaurar a presença obrigatória da geometria enquanto elemento compositivo e estético. Antes disso, no Renascimento, pelas mãos de Masaccio, Pierro de la Francesca e Andrea Mantegna, a geometria era intrometida como regra canônica em todas as pinturas e desenhos a partir do ponto de fuga. Mas o Cubismo decidiu não só incorporar as formas geométricas ao espaço, bem como torná-las a pintura em si mesma, de modo que é impossível pensar em Picasso ou Braque sem pensar em geometria.

O Cubismo desponta em 1907 escandalizando o olhar tradicional do público: “como é possível um corpo inteiro ser geometrizado, ser picotado ou fragmentado em múltiplas faces”? As “Mademoiselles d´Avignon” de Picasso, “feias” do ponto de vista do senso comum, não estão interessadas em seduzir, mas em provocar; assim, a beleza humana de um nu feminino dá lugar à hegemonia radical do cone, do círculo, do quadro e do triângulo. No Cubismo, a “bela arte” significa reducionismo do humano à fabricação matematicamente estética, desde que produza incômodo e desconforto visual; foi o que ensinou Cézanne a Picasso. Por isso, deixou legado.

Três anos depois, em 1910, surge na França, o Art Decô, estilo que tem proveniência na arquitetura de interiores e, conectado ao contexto socioeconômico da época, se disseminou em outras expressões artísticas como a pintura, a escultura, as artes cênicas e a moda. Até ali, Art Decô era apenas outro modismo da França. Mas, em 1925, o estilo saiu do nicho francês e ficou conhecido em outros países, graças à Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas. Sem esforço algum, nota-se que o termo Art Decô é abreviação de artes decorativas. Desde o fim do século 19, com o avanço industrial, a demanda do mercado passa a exigir um novo modelo de construção e, consequentemente, conduz a formação de um novo gosto estético da sociedade burguesa. O Art Decô é produto de um capricho da época; é do gosto moderno a tendência a decorar ambientes, numa tentativa de introduzir o requinte formal das belas artes no interior dos lares burgueses, como se cada casa configurasse uma obra de arte.

Em termos estilísticos, o Art Decô representa a exaltação do geométrico à categoria de objeto estético. Na sua primeira fase (1910-1914), no pré-guerra, o Art Decô explorou cores e brilhos do Expressionismo e a forma geométrica do Cubismo e do Futurismo. No entanto, esse geometrismo não visava proporcionar incômodo visual, mas o contrário: atrair para o que, em geral, não se espera de uma figura geométrica, isto, beleza e sedução. Tornar o rigor matemático um atrativo físico. Seguindo essa deixa, odesigner surgia, então, como um organizador e um consultor de belezas geométricas consumíveis e utilizáveis no lar. Logo, o decorar ambientes, que antes era exclusividade de aristocratas, tornou-se critério de gosto burguês: mesas, cadeiras, corrimões, escadas, luminárias, tapetes, consoles, etc.; tudo era alinhado nessa estética primeiramente exagerada e depois, com o fim da guerra, em 1925, alinhada com essa sobriedade puramente geométrica do Cubismo e do Futurismo. Firmou-se como um estilo decorativo que recusava os princípios naturalistas do Art-Nouveau. Daí, em lugar das assimetrias e espontaneidades da forma, o Art-Decô adotou o antinaturalismo, em que a simetria, o rigor matemático, a monocromia e a repetição monótona das formas e dos ritmos são marcas indeléveis.

No Rio de Janeiro, o Art Decô chegou celebrando a modernidade de uma cidade que era a capital do Brasil. Como tudo o que se passou na arte brasileira, pós semana de 22, o que era importado da Europa, passava por um processo de canibalização: comíamos a arte e cuspíamos a sua sobra; e, desses ossos, nascia um fenômeno recriado. Logramos conceber um Art Decô brasileiro, afirmando a valor estético das formas geométricas em uma cidade como o Rio de Janeiro, quer dizer, em uma cidade plena de formas espontâneas e irregulares e, por isso, nada matemáticas. O Rio é uma cidade antimatemática; desobedece às regras e às aritméticas. Parece apenas gozar de si mesma em sua natureza opulenta e caótica. Mas a arte se intromete aí e estabelece um sentido estético fabricado, de onde se vislumbra uma ordem imaginável e, a partir dela, a sedução pelo rigor geométrico se dá. É impossível não se deixar levar pela beleza exótica de um mobiliário com referências africanas, incrustado por marfim ou madrepérola.

 O Art Decô está presente no Rio de Janeiro em determinados bairros da cidade, em função do próprio crescimento urbanístico e econômico que se deu aqui no período entre os anos 30 e 50, movido pela industrialização dos governos de Getúlio e Juscelino. Art Decô era uma arte cara, caríssima, reservada a um padrão de consumidores que tinham a prepotência de se sentirem aristocratas bastardos. Glória, Flamengo e Copacabana são os principais bairros que receberam esse estilo arquitetônico arejado e refinado, como forma de refrescar as construções ainda carregadas pela modéstia do neocolonialismo e pela arquitetura eclética. Como o Art-Decô se expressa em peças utilitárias feitas sob medida para o lar, apenas as famílias cariocas ricas e da classe média puderam disfrutar dessa estética particularmente elitista.

No elegante bairro do Flamengo nos deparamos com o belíssimo edifício Biarritz (1945), projetado e construído entre 1940 e 1945 pelo francês Henri Sajous. O estilo Art Decô se destaca pela repetição do mesmo padrão geométrico; no caso desse edifício, a repetição se vê logo na sacada semiesférica decorada por curvas de ferro que formam uma malha vazada e nas fatias geométricas da borda. Há monotonia visual porque tudo se repete meticulosamente; porém, os olhos são seduzidos pelo conjunto total das formas. Na rua Ronald de Carvalho, em Copacabana, abundam construções Art-Decô, como o edifício Ophir (1934), o edifício Ribeiro Moreira (1928) e o edifício Guahy (1932), cujas fachadas, sempre recortadas por fatias geométricas, nos dá o exemplo de que, apenas simulando dinâmica visual repetitiva, é possível criar uma impressão agradável e atraente. No interior dos edifícios, por exemplo, a geometria regular desenha belas escadas e portarias. Por isso que, forjados na simplicidade, sem o arrebatamento do Art-Nouveau, esses edifícios nos encantam. Seja pelo tamanho, seja pela sobriedade das linhas.

No Centro do Rio, temos dois belos exemplos de arquitetura e decoração Art-Decô que são o Teatro Carlos Gomes (1931) e o edifício da Central do Brasil (1934). Na fachada do Teatro Carlos Gomes a sobriedade e simplicidade dominam, de modo que notamos traços típicos do estilo Art-Decô como a coroa que se eleva remetendo aos arranha-céus nova-iorquinos. Já no interior do teatro nos surpreendemos com o brilho dourado do hall de entrada.  Verticalizado e erguido em formato de torre, o edifício da Central é referência direta ao Empire State (1931) em Nova York; sem, evidentemente, abusar da mesma ambição capitalista de querer alcançar o céu do poder econômico. O edifício da Central, no entanto, não perde em grandeza e beleza. Mesmo porque se destaca até hoje entre as construções vizinhas, tanto pela altura, quanto pela simplicidade repetitiva de sua fachada toda recortada por faixas que compõem uma trama quadricular e dividida em partes que vão sendo condensadas e até alcançarem o topo. Vale à pena uma visita a esses endereços, tendo em vista que não são simples construções que estão ali desapercebidas por olhos apressados. Mas que, antes, são verdadeiras obras de sedução.

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