Em 23 de março de 2019, celebrou-se o aniversário da escola de samba Império Serrano. Conhecido como o “Menino de 47”, o célebre grêmio recreativo surgiu há 72 anos, regido pelas forças do signo de Áries. Isto significa que o nascimento do Império Serrano envolve necessariamente luta e conflito; o que torna a escola, por assim dizer, um símbolo vivo de resistência cultural. Seu patrono espiritual, São Jorge, está aí para não nos deixar mentir. Alguns dragões tiveram que ser vencidos para que os carnavais viessem à luz e para que o Império pudesse se estabelecer como empreendimento criativo.

Desde as brigas internas de membros às dificuldades financeiras, nada foi fácil para o Império.Sua fundação, por exemplo, contou com um racha entre os integrantes; no que, na época, terminou conflitando duas forças de comando: a força autocrática e intransigente de Alfredo Costa, presidente da Prazer da Serrinha e a força progressista dos sambistas jovens(Molequinho, Gradim, Silas, Mano Décio); estes últimos concebiam o carnaval e o samba de formamais arrojada e disciplinada. Dada a insatisfação da comunidade da Serrinha com a falta de manejo de Alfredo e ao fracasso do desfile de 1946, nascia o “reizinho” de Madureira, que seria desde ali presidido por João Gradim.

A partir de 1947, a Serrinha poderia exibir seu carnaval na Praça Onze e apresentar-se de forma bela, organizada, com fantasias e alegorias acabadas e associadas ao contexto do enredo; a fim de, assim, manter-se equivalente ao formato vencedor da Portela e da Estação Primeira. O empenho e a dedicação de um trabalho coletivo levaram o Império não somente a se afirmar no cenário das agremiações, bem como de se destacarjá no primeiro desfile, no qual sagrou-se vencedor, provocando a admiração e o espanto de muitos. Dali em diante, o Império passou a significar ameaça para as escolas campeãs.

No entanto, viemos celebrar o aniversário dessa agremiação não somente pelos inumeráveis desfiles belíssimos que realizou; a intenção principal do festejo se esconde por trás da maquinaria do carnaval, das alegorias, adereços, jurados, etc. O que queremos realçar na beleza desses 72 anos é a contribuição social e culturaltrazidas pela escola; que, ciente de tal valor, cantou em 1992, orgulhosa de si: “Sou Império, sou patente! ”

Mas que patente é essa? Basta ler o “livro” da escola para saber, explica o samba. Esse livro está aberto para qualquer um que saiba ler e admitir: Império Serrano é, acima de tudo, uma escola de samba; e uma escola de samba é um coletivo pedagógico que ensina o festejo e, assim, forma sujeitos celebrantes, ou seja, artistas sambistas, isto é, compositores, instrumentistas e dançarinos de ritmos e gestuais da cultura afro. O Império tem a patente desse ensino: sabe o que faz.A patente é bem evidente, desde a gênese da escola. Aliás, ela não poderia ser outra coisa senão isto: espaço de ensino interessado em mais do que existir para desfilar. Império existe para diplomar mestres: os “bambas”.

A ostentação luxuosa do desfile oculta a intenção essencial da escola de samba,que é preparar corpos negros capazes de criar. Essa pura intenção ultrapassa o olho do turista encantado pelo desfile hi-tech: o negro quer mais do que arrebatar um campeonato; ele almeja exibir a autonomia de um sujeito potente e hábil no criar. Por isso é correto afirmar que o samba, além de pedagógico, é uma fabricante: o que surge do samba é o sujeito humano, livre, potente e celebrante, que tem a força de festejar; e, ao festejar, usa o que dispõe para unir pessoas, civilizando ambiente satravés de uma comunhão feliz.

Não só de desfiles vive a escola de samba, mas de gestos lúdicos de resistência que ensinam e conservam as técnicas; e isso é o que precisamente chamamos de tradição do samba: a vontade de formar sujeitos celebrantes.  Ser um sujeito celebrante é manter viva a força libertadora e criadora do negro brasileiro num cenário historicamente hostil a ele. Diante de tal quadro, o Império representa o quilombo artístico que fabrica afro-resistências. Com Silas de Oliveira e Mano Décio, destaca-se no território da escola de samba a maestria de composições dotadas de tessitura melódica rica e elaborada. Daía resistência do negro da Serrinha existir como beleza, arte, como música, poesia e dança.

Além disso, o Império é uma das mais expressivas escolas em que a presença dos sujeitos celebrantes se impõe. É impossível apreciar a força do Império desassociando-se da força festiva que notamos na comunidade da Serrinha. O frenesi rítmico da bateria, o gingado bailarino de seus passistas, o rodopio hipnotizante das baianas; tudo isso, somado ao requinte melódico dos sambas e das imagens poéticas que o enredo suscita, torna o Império Serrano um espetáculo à parte na cultura carioca e brasileira; e isso se dá mormente por causa do prazer que a escola tem em querer promover um ato social tão significativo. Para um dos marcos da resistência negra no Brasil, desejamos vida longa!

Foto: Sebastião Molequinho, um dos fundadores da Império Serrano

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